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    Saúde no Amazonas


    Pacientes denunciam demora para atendimento na Fundação Cecon

    Segundo os pacientes, é preciso chegar por volta das 5h para conseguir os primeiros lugares na fila. Com espera de mais de quatro horas, muitos dizem não ter dinheiro para comprar alimentação

    Para os pacientes, a unidade poderia abrir as portas mais cedo para que eles possam aguardar o atendimento sentados | Foto: Ione Moreno

    Manaus-Pacientes da Fundação Centro de Controle de Oncologia do Estado do Amazonas (Fcecon) denunciam a demora nos atendimentos da unidade, falta de medicamentos e demora para marcar exames na unidade em Manaus, localizada no bairro  Dom Pedro, na Zona Centro-Oeste da capital. Segundo eles, todos os dias, há pacientes que aguardam mais de cinco horas para passar por especialistas nos atendimentos agendados.

    A dona de casa Carol Santos* conta que tenta pela segunda vez o atendimento com o mastologista que definirá o procedimento cirúrgico para retirada de um tumor no seio esquerdo. A primeira vez foi na semana quando o médico faltou. Na ocasião, os funcionários anotaram o número de telefone da paciente a fim de informar a nova data, mas não ligaram para fazer a remarcação da consulta.

    Os doentes reclamam que muitas vezes não são comunicados sobre a remarcação de consultas, o que atrasa o tratamento
    Os doentes reclamam que muitas vezes não são comunicados sobre a remarcação de consultas, o que atrasa o tratamento | Foto: Ione Moreno

    “A minha mãe conversou com outra paciente e descobriu que ela havia adiantado uma consulta de dezembro. Eu falei para o oncologista que estava me sentindo lesada porque perdi minha consulta e não tive um retorno de quando passaria pelo médico. Ele que pegou meu cartão e marcou minha consulta para hoje (9) ”, contou. 

    A mulher, que trata um câncer na mama, tem pressa no atendimento com o especialista porque o tumor está exposto e a obriga a fazer curativos pelo menos duas vezes ao dia. Para agilizar os procedimentos, Carol contou com a ajuda financeira de parentes. “Minha mãe conversou com diretor de um hospital particular e eles fez os exames por R$ 1450. Nós pagamos porque disseram que alguns procedimentos não estavam sendo feitos aqui”, relatou.

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    Carol já aguardava por uma biópsia há cinco meses quando recebeu outras solicitações de exames do mastologista. “A tomografia foi o único exame que fiz no Cecon. Quando tentei marcar o cintilografia óssea e o histoquímico fui informada que precisaria aguardar numa fila de espera sem previsão de data para marcar. Até hoje não ligaram e se eu estivesse esperando, não teria feito os exames”, contou a paciente que pagou os procedimentos na rede particular.

    *Carol Santos é o nome fictício usado pela reportagem para preservar a identidade da fonte. A paciente teme ser prejudicada no atendimento, devido as denúncias sobre atendimento na Fcecon. 

    Lista de problemas é grande

    A partir das 5h da manhã, a entrada do ambulatório fica repleto de pacientes e acompanhantes que formam filas para garantir os primeiros lugares no atendimento médico e na marcação de exames. A unidade abre por volta das 6h30, mas eles relatam que é necessário chegar cedo. Muitos não têm dinheiro para comprar alimentação enquanto aguardam.

    A unidade abre por volta das 6h30, mas eles relatam que é essencial chegar cedo porque muitos não têm dinheiro para comprar alimentação enquanto aguardam
    A unidade abre por volta das 6h30, mas eles relatam que é essencial chegar cedo porque muitos não têm dinheiro para comprar alimentação enquanto aguardam | Foto: Ione Moreno

    A dona de casa Débora da Silva, 34, conta que a espera no lado de fora também prejudicam os pacientes que chegam cedo. Na hora de entrar na unidade, muitos se aproveitam para furar fila. “Eles podiam abrir cedinho porque pelo menos esperamos sentados na fila, aqui fora não tem cadeira suficiente para todos”, disse. Além disso, a paciente relata que é comum ver idosos sendo carregados para dentro do ambulatório devido à falta de cadeira de rodas.

    A falta do medicamento Taxol, usado na quimioterapia, deixa alguns pacientes sem o procedimento por períodos que variam de uma a duas semanas. O aposentado Valdir Fernandes, 66 anos, que marcava um lugar para sobrinha na fila de espera, disse que a reposição do remédio causa prejuízos aos doentes. “Quem tem dinheiro compra e traz para fazer a ‘quimio’, quem não tem como comprar, espera a chegada para continuar o tratamento”, contou.

    Consultas demoradas

    A dona de casa Maria Auxiliadora dos Santos Rodrigues, 37, é natural de Coari, mas mora há um ano em Manaus onde fez tratamento de um câncer no colo do útero. Atualmente ela faz o acompanhamento médico no Cecon para garantir que está curada da doença. Ela conta que foi informada na unidade, que só poderá se consultar com o ginecologista em dezembro, mesmo relatando aos profissionais que sente dores.

    “Eu me consulto com Dr. Gilson, mas preciso me consultar com outro porque sinto dor na região do útero e tenho sangramentos constantes. Estou aflita com essa situação”, disse a paciente, que aguardava para adiantar uma consulta de retorno que só deverá ocorrer em dezembro.

    Segundo Maria, a solicitação de adiantamento da consulta foi feito e, apesar de ter o número de telefone no sistema, os funcionários não ligam para remarcar a consulta. “Eu perdi a consulta porque o médico não veio. Fiquei aguardando eles ligarem, mas já aprendi que, se eu ficar esperando, fico sem atendimento. Eu já expliquei que preciso dessa consulta mais rápido e o bom seria com meu médico que já conhece meu caso”, disse. 

    Segundo Maria, apesar de ter o número de telefone dela no sistema, os funcionários não ligam para remarcar a consulta
    Segundo Maria, apesar de ter o número de telefone dela no sistema, os funcionários não ligam para remarcar a consulta | Foto: Ione Moreno

    Posicionamento da unidade

    Em nota, a Direção da FCecon informou que o Governo do Estado tem ampliado o atendimento na unidade, que é referência em cancerologia em toda a região. Na área ambulatorial, o atendimento já ocorre a partir das 6h30, diferente das demais unidades oncológicas que realizam procedimentos eletivos.  Em setores como o de quimioterapia e radioterapia, o funcionamento começa às 7h e segue até às 22h, contemplando pacientes no terceiro turno.

    Ainda segundo a nota, o volume de cirurgias na unidade foi ampliado, passando de 200 para 300 ao mês, em média. Sobre os quimioterápicos, o abastecimento do estoque é permanente e já foram investidos, de outubro de 2017 a julho deste ano, quase R$ 25 milhões para a compra de medicamentos antineoplásicos de alto custo.

    A direção informa que não há falta da medicação Taxol na unidade. Já o uso de cadeiras de rodas, a liberação para pacientes é feita mediante solicitação, como forma de controle. Ainda assim, a aquisição do item ocorre diversas vezes ao ano, para reposição. Sobre o atendimento ambulatorial, a instituição dispõe de longarinas, na parte interna do hospital, para que os pacientes aguardem sentados. A unidade realiza 800 atendimentos/dia apenas nesse serviço.

    A FCecon esclarece que, atualmente, não oferta exames de cintilografia óssea, cujo agendamento é feito via Sisreg, que adota critérios de prioridade, de acordo com a gravidade do paciente e tempo de espera.

    A instituição, segundo a assessoria, está em vias de licitar esse tipo de serviço, de modo a atender a demanda específica da Fundação, que é crescente, uma vez que vem recebendo pacientes de diversas unidades da federação, por dispor de um número expressivo de especialidades e de modalidades terapêuticas.

    Em relação ao caso da dona Maria Auxiliadora dos Santos Rodrigues, a assessoria informou que no dia em que a paciente procurou o serviço para agendamento, houve um problema no sistema, o qual já foi solucionado.  "O agendamento correto é dia 29 deste mês, às 7h da manhã.  A FCecon lamenta o equívoco".

    Segundo a fundação, não foi possível avisar a paciente devido os dados pessoais dela estarem desatualizados no sistema. "O Fcecon solicitou que ela compareça para informar os novos dados", finaliza a nota.

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