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    Cultura e expressão cultural

    Um hábito muito antigo está retornando às cidades brasileiras. Os encontros chamados de saraus. Há muito mais de um século, as pessoas costumavam reunir-se num local público, ou na casa de alguém, no final da tarde, para declamar poesias, contar causos ou comentar algum livro que algum dos presentes tivesse adquirido. É provável que a família anfitriã, ou algum vizinho daquele local oferecesse biscoito ou chá aos participantes.
    Em todos os casos, os encontros eram alegres e visavam integrar a sociedade às novidades da época em termos culturais. Claro que havia composições poéticas originais. Também havia a apresentação dos declamadores, pessoas muito requisitadas em festas de aniversários. Com o advento da música gravada e consequente popularização dos aparelhos que tocassem os discos, este hábito foi deixando de existir até se extinguir por completo. Contudo, mesmo ausentes, jamais foram esquecidos.


    Os saraus, mesmo aqueles que escolham homenagear um ou dois expoentes da cultura, não deixam de abrir o palco para aqueles que têm um poema inédito, ou àqueles que desejam apresentar uma música ou declamar um poema de outro autor.


    Em Manaus, na praça da rua Bartolomeu Bueno da Silva, no Dom Pedro 2º, o bar Dom Garcez resolveu servir de suporte à realização de um sarau semanal nos moldes antigos. Apoiado por uma estrutura mínima, composta de um pequeno palco, de uma caixa de som e microfone, o espaço permite a apresentação de cantores, declamadores e de pequenos grupos de dança. Todas as quartas feiras, a partir das 20h, há um encontro espontâneo entre os que gostam deste tipo de manifestação cultural.


    A informalidade do barzinho tem servido para estimular manifestações culturais que nem sempre são assim consideradas. O Porão do Alemão, a mais longeva casa de rock em Manaus, começou como barzinho e, quando se tornou referência do bom rock, atraiu todos os amantes desse ritmo. A insistência em apresentar bem um ritmo e, por isso, atingir o sucesso, na capital amazonense, tem seu referencial no programa de jazz no rádio, comandado por Humberto Amorim, que bate recordes mundiais em termos de permanência no ar. Embora os dois ritmos não tenham origem local, a maneira como são apresentados tem agradado ao público.


    Não há restrições em aceitar manifestações que venham de outras plagas, mas a cultura de raiz por aqui é muito farta. Manifestações culturais como as do boi-bumbá; poetas como Thiago de Mello, Chico da Silva, Jorge Tuffic, Aldisio Filgueiras; escritores como Milton Hatoum, Márcio Souza além de cantoras como Felicidade Suzi, Eliana Printes e outros começaram demonstrando sua arte em locais de público muito pequeno e se tornaram referência muito além das fronteiras locais. Mestres da música, como Celdo Braga, Nícolas Júnior, Lucinha Cabral, Fátima Marques e inúmeras outras, se ainda não fizeram sucesso nacional foi por estratégia de marketing e não por falta de talento. Os saraus estão de volta. Se vieram para uma longa temporada, só o tempo dirá.

    lauschneram@hotmail.com