Fonte: OpenWeather

    Artigos


    As confraternizações e o encontro silencioso

    O mês de dezembro traz muita carga de emoções concentrada em acelerados trinta e um dias. A pressão é tanta ao ponto de existir no jargão psicomédico a expressão Ansiedade de Festa Sazonais (AFS).

    O bizarro vestibular, o Natal com todas as suas iguais festas de confraternização; casamentos; formaturas; lançamentos de livros, finais de campeonatos de futebol; o réveillon e suas prévias; pré-carnavais de gosto duvidoso; saudades de pessoas queridas, mortas, distantes ou perdidas em nossas amizades e em nossos amores (é a época de maior ocorrência no mundo ocidental de suicídios e tentativas); engarrafamentos de pessoas nos shoppings; calor; comes, bebes e ressacas; balanços existenciais; apresentação de relatórios; brigas e birras intrafamiliares; construção de dívidas na aquisição no mais das vezes de coisas supérfluas no caixa, apertos e malabarismos para pagar o décimo terceiro; plantões em aeroportos; a torta que atrasou; a roupa que não ficou pronta na hora; muitas alegrias e sentimentos de culpa e edificações de expectativas fantasiosamente perfeccionistas. É claro que a sociedade é dirigida, orientada e manipulada para se desempenhar tão esforçadamente. Mas sua vontade, a vontade da sociedade, está empurrada pela coerção social e pela publicidade. Há alguns comportamentos mais comedidos e menos artificiais e nas suas liturgias de festas de fim de ano. Mas o clima é de festas. Festas de encerramento anual entre funcionários, fornecedores e clientes nas empresas. Festas de lançamentos de livros e produtos. Inaugurações ou confraternizações pelos mais variados motivos. E quando não há motivo, inventa-se! Neste ano, excepcionalmente, surgiu outra desculpa para os festeiros – o final do mundo. Conheço muitas pessoas que optaram pela ilha deserta, o encontro silencioso, a paz e a harmonia que só a quietude permite. Não importa o lugar, e sim o equilíbrio, o recolhimento, a possibilidade de ouvir a alma. O encontro com a essência. Estes sim, estão compatíveis com os novos tempos. Tempos em que a qualidade de vida interior se torna mais e mais importante. O resto é resto. Nesta época acontece a farta distribuição de presentes curiosos, intrigantes, criativos entre colegas, amigos e parentes. Ou presentes sem imaginação, caríssimos, sem personalidade. Sim, porque até presentes têm personalidade. E isso não se traduz pelo valor. Em século de consumo inconseqüente, o que define um presente é a imaginação e a sensibilidade. É a capacidade de materializar a ideia que torna o presente perene na memória. O importante é o gesto, o movimento, a atenção, a lembrança. Que venham as festas que apaziguem nossa inquietude, e que tenhamos todos um 2013 cheio de essência, e que possamos refazer os sonhos não realizados. Feliz Ano Novo.