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    Greve sim, chantagem, não

    A greve é um direito do cidadão. O diabo é que desde a promulgação da Constituição de 1988, nenhum governo cuidou de regulamentar as paralisações no serviço público. Sarney, Collor, Itamar, Fernando Henrique, Lula e agora Dilma – ninguém teve coragem de enfrentar a questão. Apenas o Judiciário pronuncia-se, quando provocado, nem de longe solucionando o impasse sobre os espaços do funcionário público nos movimentos grevistas.


    É evidente haver exagero e até abuso quando fazem greve determinadas categorias encarregadas de zelar pela lei e pela ordem. Já têm feito greve juízes, policiais civis, policiais militares, policiais federais, bombeiros e outros grupos aos quais cabe exprimir o poder público. Mesmo assim, haverá que admitir o sufoco que esses funcionários enfrentam para sobreviver.


    O óbvio é que existem greves e greves. Se muitas constituem a última esperança de multidões de necessitados e indignados, outras cheiram a chantagem. Parece abominável aproveitar-se da conjuntura e tirar vantagem de determinadas circunstâncias verificadas em momentos excepcionais da vida nacional. É o que vai acontecendo, às vésperas da Copa do Mundo.


    Como se não bastassem as manifestações de protesto contra os abusivos gastos do certame, as ocorridas e as por ocorrer, mais a prevista ação de vândalos e depredadores, registra-se número excepcional de categorias ameaçando entrar em greve, caso não atendidas suas reivindicações. Podem ser até justos os movimentos por melhores salários e condições de trabalho, mas por que logo agora? Claro que para aproveitar-se de um momento em que o governo encontra-se fragilizado diante de eventuais fracassos na realização da copa do mundo. Acontecerá o quê, caso se verifique o constrangimento a turistas, o mau funcionamento dos serviços de transporte, a violência nas ruas e até a confusão nos estádios.


    Quando servidores públicos ameaçam multiplicar essas mazelas, deixando de cumprir suas obrigações, perdem a razão. Em especial, quando se verifica a presença dessas motivações em outras greves, dissociadas dos serviços públicos, mas tão importantes quanto, como de rodoviários, professores, enfermeiros, médicos e quantos grupos a mais? Todos pretendendo, pela intimidação, conseguir resultados que não conseguiriam na ausência da realização da Copa do Mundo.


    A Advocacia Geral da União e o Superior Tribunal de Justiça deram passo importante, aquela ao pleitear, esta, sentenciar que a Polícia Federal fica proibida de fazer greve. A dúvida é se conseguirão estender a proibição a outras categorias do serviço público. E se vai dar certo.


    Zona do agrião – Getúlio Vargas assumiu o governo pela segunda vez em janeiro de 1951 e durante alguns meses manteve o general Angelo Mendes de Moraes como prefeito do Rio. Por um desses conselhos de autor desconhecido, Getúlio aceitou comparecer ao Maracanã num domingo de Fla-Flu. Os alto-falantes anunciaram sua chegada. Havia tomado posse pouco antes e a multidão o recebeu com aplausos. Estava com ele o prefeito Mendes de Moraes, que logo mandou o locutor anunciá-lo. Sem exagero algum, cem mil pessoas se levantaram, entoando um coro capaz de ser ouvido até em Copacabana: “Água! Água! Água!” O Rio vivia permanente estado de carência e racionamento.


    Pois é. Caso o governador Geraldo Alckmin e o prefeito Fernando Haddad compareçam ao jogo de abertura da Copa do Mundo, no Itaquerão, deveriam ter a cautela de não mandar anunciar suas presenças. São Paulo de hoje nada tem de diferente do Rio de antigamente.