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    Patriotismo e ufanismo

    João Bosco Araújo - Diretor Executivo do Amazonas EM TEMPO

    À proximidade da Copa do Mundo de Futebol, o que se vê na TV, nos jornais e revistas são as propagandas de empresas industriais, comerciais e de serviços a tentar estimular e incentivar os sentimentos “patrióticos” nossos, dos brasileiros, numa subliminar tentativa de passar a imagem de que aquela instituição, aquele produto ou serviço se identificam com os anseios e com os sentimentos da torcida. Às vezes, são entidades realmente brasileiras, o que nos permite supor que até seja possível alguma sinceridade e que não apenas se restrinja a uma operação de marketing. Outras vezes, são empresas vinculadas a outras nacionalidades que também estarão a participar da disputa e cujas matrizes, evidentemente, não farão parte da torcida brasileira. Quem poderá acreditar, por exemplo, que uma empresa de raízes francesas pela sua constituição anseia por uma vitória brasileira à custa da derrota da França? O mesmo a dizer de uma Alemanha ou de uma Espanha.
    Como em todos os povos, o patriotismo em maior ou menor grau se faz presente e o que grupos empresariais tentam fazer é alavancar suas vendas dentro do Brasil, usando a exploração desse sentimento.
    E no nosso caso em que o nacionalismo facilmente se transmuda em ufanismo, o senso crítico cai ao nível do sofrível e aí se torna de extrema vulnerabilidade.

    Ansiamos por um Brasil que justifique o entusiasmo patriótico dos brasileiros, mas é impossível desconhecer que, até o momento, tais motivos não apareceram. Somos um país no qual, quem chegou a se alfabetizar tem enorme chance de ser um analfabeto funcional. Nossos políticos, com as honrosas exceções de um ou outro Pedro Simon ou Cristovam Buarque, dão as costas ao bem da sociedade e correm atrás do seu próprio. Pesquisas mostram que nossos jovens vão muito mal quando avaliados em sua capacidade de inferir. Nosso patrimônio cultural, quando sai do plano do simples artesanato, se revela de muita pobreza, embora com episódios de brilho que geralmente passam despercebidos e desvalorizados pelos próprios brasileiros.

    Imagino que, se tivéssemos um acervo cultural ao nível da França, com seus romancistas, dramaturgos, pintores, músicos e filósofos, talvez nos tornássemos mais sensíveis.

    Ter um Beethoven, um Wagner, um Goethe, um Heidegger, um Kant e quantos mais desse nível, deveria levar os alemães à crença de que são realmente superiores, mas, felizmente, nem todos eles se chamam Adolf Hitler.

    O esforço fundamental seria levar o nosso povo a se nivelar por cima. Criar condições para que dele emerjam autênticos talentos e paralelamente que os acompanhe e assimile o salto de qualidade.

    Isso é absolutamente possível. Afinal, o Chile tem dois prêmios Nobel de literatura (Pablo Neruda e Gabriela Mistral), o Peru tem um (Mário Vargas Llosa), a Colômbia tem Gabriel García Márquez, a Guatemala, Miguel Ángel Asturias.
    Investir mais em Educação tem sido a fórmula do sucesso mundo afora, tanto para elevar culturalmente um povo, quanto para alavancar a sua economia.