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    Pandemia


    Volta às aulas: estratégias e desafios na reabertura de escolas do AM

    Máscaras distribuídas para alunos e professores, turmas divididas e fim da 'hora do lanche'. Veja como deve ser a volta às aulas no Amazonas

    | Foto: (Arquivo/Agência Brasil)

    Manaus - A pandemia do novo coronavírus interrompeu a rotina de boa parte das pessoas do mundo, incluindo de estudantes e professores. Durante meses não se ouviu falar da 'retomada' das atividades em Manaus. Mas agora que a capital do Amazonas registra queda de mortes  e casos todos os dias, já se pensa sobre quando retornarão as aulas escolares. Há quem defenda que é hora de retomar o ensino, já outros sugerem aguardar um pouco mais.

    Os primeiros colégios a suspenderam as aulas por força de decreto assinado pelo governador Wilson Lima foram os da capital amazonense. Desde o dia 17 de março os pequenos manauaras estão sem aulas presenciais. Depois dessa data, o governo estadual seguiu com o fechamento de escolas na região metropolitana, Parintins e Tabatinga. Outros municípios ficaram a cargo dos prefeitos para controlar a suspensão das aulas.

    No entanto, desde que Manaus passou a registrar menos mortes pela Covid-19 e os hospitais deixaram de estar lotados, a pressão para a volta às aulas aumentou. Na última terça (23), pela primeira vez em três meses, a capital do Amazonas não registrou mortes pela Covid-19. Por outro, o interior segue enterrando pessoas todos os dias pela doença. 

    Escolas estão fechadas a mais de três meses
    Escolas estão fechadas a mais de três meses | Foto: Arquivo/Agência Brasil

    O medo que os filhos se contagiam impede Francinete Cardoso, 40, de ser favorável ao retorno das aulas. A técnica em enfermagem possui uma filha de 11 anos e um menino de nove. "Não sou a favor de jeito nenhum. Agora estamos vendo casos de crianças com Covid-19 no hospital. Todo plantão aparece mais casos, apesar de serem sintomas diferentes", diz ela.

    Ela comenta que no grupo de pais da escola em que seus filhos estudam "alguns poucos, contando no dedo" querem que as aulas retornem. As maiores defesas para a volta dos estudos é que alguns pais não têm com quem deixar as crianças e precisam trabalhar.

    A nova rotina das escolas

    Ludmylla Rondon é orientadora educacional e faz um aparato de todas as novas indicações para a retomada de estudos nas escolas. Ela diz que vários documentos oficiais têm procurado apontar como será a nova realidade.

    "Uma das soluções é a redução do número de alunos por sala de aula. As turmas provavelmente deverão se dividir em espaços ou horários diferentes. Outra opção apontada ainda acerca do horário é planejar diferentes momentos de chegada e saída dos estudantes", afirma a especialista.

    Outro momento que merece atenção é a famosa 'hora do lanche', quando alunos saem das salas e ocupam, aglomerados, as dependências da escola. Para Ludmylla, esse momento deve ser planejado.

    "A escola precisa se preocupar em alterar a rotina pedagógica. Por exemplo, o lanche pode ser na sala de aula num primeiro momento, ou alternar o horário de uso do pátio. Mudar também quando determinada turma pode fazer um intervalo, para que não fiquem crianças no pátio. Toda essa nova rotina precisa de uma parceria entre escola e família", afirma a orientadora educacional.

    Volta às aulas na pandemia prejudica aprendizagem?

    O pensamento quase unânime é que a pandemia no início do ano letivo prejudicou a aprendizagem. Dados brasileiros são vagos, mas uma pesquisa americana divulgada pela revista Veja mostra que o estudante médio iniciará o próximo ano letivo com um terço do progresso esperado em leitura e apenas metade em matemática.

    Ludmylla também observa essas dificuldades de aprendizado durante a quarentena. Ela cita casos de crianças que dependeram dos pais para estudar, ou mesmo aquelas que não tinha uma boa internet. "São inúmeros casos" ressalta a orientadora. 

    Especialistas apontam medidas de prevenção à Covid-19
    Especialistas apontam medidas de prevenção à Covid-19 | Foto: Arquivo/Agência Brasil

    "O primeiro passo para esse retorno é fazer uma checagem do quanto os alunos absorveram das aulas on-line. Isso pode ajudar a diminuir o deficit de aprendizagem das crianças durante a pandemia", afirma a especialista.

    Ela diz que em seguida as escolas devem repensar seu ano pedagógico. Segundo Ludmylla, o novo período deve ser contextualizado para as crianças e não apenas focado no conteúdo.

    "Precisamos dar o contexto social e histórico para os nossos alunos, isso ajuda na aprendizagem. Mesmo porque estamos vivendo uma pandemia, um evento que será lembrado por anos", argumenta Ludmylla.

    Saldo psicológico das aulas suspensas

    As crianças também podem perceber o mundo ao seu redor e sentirem medo ou outros sentimentos, principalmente no contexto da pandemia e da suspensão das aulas. José Trintin é psicólogo e conta como essa realidade afeta a saúde mental das crianças.

    Psicologo alerta para que pais fiquem mais atentos aos comportamentos das crianças e o que podem significar
    Psicologo alerta para que pais fiquem mais atentos aos comportamentos das crianças e o que podem significar | Foto: Reprodução

    "As crianças sabem o que está acontecendo no mundo ao seu redor, evidentemente muitas delas não possuem a capacidade cognitiva para alcançar a dimensão do problema do enfrentamento da pandemia atual. Ainda assim, da mesma forma que para os pais o retorno às suas atividades têm gerado ansiedade, medo e em muitos casos até pânico, para as crianças o mesmo pode ocorrer", diz ele.

    Para o psicólogo, as crianças podem estar mais estressadas nesse processo de volta às aulas e os pais deverão exercer o papel de porto seguro. Trintin aconselha que haja mais compressão e ajuda nas dificuldades emocionais das crianças.

    Escolas particulares 

    Parte das escolas particulares já têm se movimentado em Manaus. Pais e mães entrevistados pelo EM TEMPO relataram que aumentou a proximidade entre responsáveis e colégios, principalmente em grupos de WhatsApp. Por esses canais, vão sendo passadas as informações de estudos e de possível retorno das aulas.

    O Instituto Denizard Rivail, uma escola particular de Manaus, criou uma cartilha para receber os alunos quando voltarem as aulas. O documento traz orientações sobre as datas em que cada ciclo escolar irá retornar e também medidas de prevenção novo coronavírus. 

    Escola pretende retomar atividades a partir da segunda semana de julho
    Escola pretende retomar atividades a partir da segunda semana de julho | Foto: Divulgação

    "Lançamos um formulário para as famílias e colaboradores e fizemos reunião de pais ao longo da semana passada. O público está atento a todas as recomendações e protocolos de segurança que escola está seguindo. Temos uma divisão entre pais que já estão se sentindo mais seguros para o retorno e outros que ainda irão observar como se dará este início", afirma Lorena Serqueira Gregório, diretora da escola.

    Ela diz que para atender aos pais que querem o retorno das aulas, mas também aos que não, a instituição manterá duas modalidades de ensino, presencial e à distância. Lorena chama o método de 'ensino híbrido'. 

    Escolas estaduais

    A Secretaria de Estado de Educação e Desporto (Seduc) segue com o planejamento de retornar às aulas no fim de julho, como já fora anunciado. A data definitiva depende de como a pandemia do novo coronavírus se comporta após a abertura do comércio no Amazonas.

    "Prezamos pela segurança dos alunos e servidores. Em caso de aumento de casos ou recuo das atividades normais, a aulas presenciais seguirão suspensas. Trabalhamos com planos pedagógicos que incluem aplicação de avaliações para checar nível de aprendizagem dos estudantes durante o isolamento social e revisões dos conteúdos transmitidos pelo projeto Aula em Casa", diz a nota da Seduc.

    A pasta informa ao EM TEMPO que o retorno das aulas requer que a propagação do novo coronavírus esteja controlada e que os órgãos de Saúde deem o aval para o retorno. Tão logo haja dados que mostrem que a volta às aulas pode acontecer sem riscos, a secretaria anunciará oficialmente o retorno. O plano de retorno às aulas inclui os municípios do interior, sempre observando a evolução dos casos de Covid-19 nas cidades. 

    "Para o retorno dos alunos e corpo docente, as escolas serão sinalizadas com material informativo sobre os protocolos de saúde. Os alunos e servidores receberão máscaras faciais para uso individual. Além disso, serão instalados pias e dispositivos de álcool em gel nas áreas comuns das unidades escolares. A saúde mental dos alunos e de toda a comunidade escolar também é uma preocupação da Secretaria de Educação e, para tanto, a pasta dará suporte e atenção aos servidores para que eles atuem com o ensino socioemocional e o retorno seja o mais saudável possível", informou a Secretaria.

    Escolas municipais

    A Secretaria Municipal de Educação (Semed-Manaus) informou que não há previsão para o retorno às aulas presenciais e que isso só será possível a partir das deliberações dos órgãos de saúde. Para tanto um Grupo de Trabalho (GT) intersetorial foi criado, com participação das áreas de saúde, educação e assistência, a fim de fazer o monitoramento epidemiológico, bem como organizar os protocolos de segurança para um possível retorno. As equipes de infraestrutura já começaram a verificar os equipamentos necessários para que professores, gestores e alunos sintam-se seguros num possível retorno.

    "A Secretaria tem desenhado um plano de retorno às aulas presenciais, agindo conforme as orientações do prefeito de Manaus, Arthur Virgílio Neto, e reforça que jamais optará por qualquer decisão que coloque alunos, professores e outros servidores da educação em risco. Por isso, lançou uma pesquisa on-line na última semana para saber a opinião dos pais ou responsáveis, educadores e estudantes sobre o assunto em questão", informou a Semed, por nota.

    *Com informações da Assessoria

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