Fonte: OpenWeather

    POLUIÇÃO HÍDRICA


    Após vazamento de óleo, Ipaam analisa impacto ambiental no rio Negro

    Fiscais do meio ambiente estão no local para monitorar os trabalhos da empresa e ainda levantam a quantidade de óleo derramado no igarapé do Mauazinho para, então, aplicar multa à empresa de navegação J. F. de Oliveira

    Um morador da região estima que o óleo levará, no mínimo, três semanas para se dissipar
    Um morador da região estima que o óleo levará, no mínimo, três semanas para se dissipar | Foto: Márcio Melo/EM TEMPO

    Manaus - Uma embarcação, do tipo empurrador que naufragou, na madrugada da última segunda-feira (27), no Porto da Ceasa, na Zona Leste de Manaus, pertencia à empresa de navegação J. F. de Oliveira, uma das empresas integrantes do grupo Chibatão. O naufrágio do empurrador causou derramamento de óleo em grandes proporções no rio Negro, conforme flagrou o Em Tempo, ontem, que contaminou águas do igarapé do Mauazinho, ainda não poluídas e utilizado pela comunidade.

    A informação sobre a propriedade da embarcação foi confirmada pela própria empresa, em nota divulgada na manhã desta terça-feira (28). A empresa ressaltou que o empurrador não estava em funcionamento no momento em que afundou. "A embarcação estava sem tripulantes a bordo e as perdas foram somente materiais. As causas do incidente estão sendo apuradas", diz o comunicado oficial.

    confira reportagem | Autor: Márcio Melo/Imagens e Ítala Lima/Edição

    Leia também: Embarcação naufraga no rio Negro e óleo contamina igarapé do Mauazinho

    Fiscalização e providências

    Fiscais do Instituto de Proteção Ambiental do Amazonas (Ipaam) e estiveram no local ainda na segunda-feira para acompanhar o trabalho de colocação das boias de retenção do produto derramado no rio, uma vez que a atividade desse tipo de embarcação é licenciada pelo órgão.

    Ontem, a Marinha do Brasil, por meio da Capitania Fluvial da Amazônia Ocidental (CFAOC), esteve na região realizando Inspeção Naval de rotina e constatou o vazamento. Segundo a instituição, os órgãos ambientais locais foram acionados para tomar as medidas cabíveis, e um inquérito será instaurado para apurar as causas, circunstâncias e responsabilidades do acidente.

    O vazamento do óleo causou a inutilização, pelo menos pelas próximas semanas, do igarapé do Mauazinho
    O vazamento do óleo causou a inutilização, pelo menos pelas próximas semanas, do igarapé do Mauazinho | Foto: Márcio Melo/EM TEMPO

    Já nesta terça-feira (28), fiscais do Ipaam e da Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Sustentabilidade estão no Porto da Ceasa monitorando os trabalhos da empresa e fiscalizando as medidas de contenção para evitar que a mancha se alastre. A assessoria de comunicação do Ipaam, por telefone, informou que uma equipe de dez pessoas, entre biólogos e fiscais do órgão, está no local para trabalhando no monitoramento.

    Segundo o Ipaam, a empresa chegou a fazer a contenção do óleo, mas a ação ainda não foi suficiente para a limpeza da orla. Ainda não se sabe quanto de óleo foi derramado no rio, mas a suspeita é de que, com o afundamento do empurrador, o óleo que estava no porão do barco emergiu para a superfície.

    "A equipe percorreu cinco quilômetros desde o local que foi derramado o óleo, subindo o rio, e constatamos que o óleo está chegando até perto da Estação de Captação de Água da Zona Leste. A substância derramada no rio é um tipo de óleo que é volátil, isso é, que se dissipa com o calor e evapora, mas que está deixando resíduos pretos na superfície."

    O órgão estadual ainda salientou que a empresa proprietária da embarcação tem três dias, a contar de segunda (27), para informar quanto de óleo havia no empurrador. "O que se pode adiantar é que a empresa será penalizada e multada, mas o Ipaam depende do levantamento de quanto de óleo foi derramado no rio para saber de quanto será a multa", ressaltou a assessoria de comunicação, por telefone.

    O desastre

    O vazamento do óleo causou a inutilização, pelo menos pelas próximas semanas, do igarapé do Mauazinho. O córrego é utilizado pela população do local não apenas para pesca, mas também para atividades recreativas. Por medo de represálias, nenhum morador quis se identificar para a equipe de reportagem. "As crianças brincam e se divertem aqui, e o povo pesca tanto para comer como para vender. Inclusive, aqui tá na época da piracema, quando dá muito peixe", disse uma moradora.

    Outra moradora, que vive no local já há dois anos, contou que é a primeira vez que vê um caso como esse. Segundo ela, se o vazamento tivesse acontecido no final de semana, o prejuízo teria sido muito maior. "Eu trabalho com um barzinho aqui, mas conheço pessoas que pescam aqui, tanto na Prainha como no Cururu, que já não estão conseguindo pescar porque os peixes já começaram a morrer", afirmou.

    Segundo a Marinha do Brasil, um inquérito deve ser instaurado para apurar as causas, circunstâncias e responsabilidades do acidente
    Segundo a Marinha do Brasil, um inquérito deve ser instaurado para apurar as causas, circunstâncias e responsabilidades do acidente | Foto: Márcio Melo/EM TEMPO

    O Em Tempo navegou desde o final da avenida Rio Negro até o Porto da Ceasa, passando pelas regiões da Prainha e do Cururu, onde a população cultiva plantas aquáticas, e constatou a tragédia. Antônio Lima*, que pilotou a lancha durante todo o trajeto, ressaltou que não chegaria até o local onde o empurrador naufragou. "O dono daí é um cara violento. Eu mesmo já recebi ameaça de gente ligada a ele", salientou. 

    Outro morador da região completou que o óleo levará, no mínimo, três semanas para se dissipar, e que a população vai demorar para usar o igarapé novamente. "Só Deus sabe quando a gente vai poder pescar de novo. É três a quatro semanas, isso se eles tentarem recolher o óleo, porque se não vai demorar muito mais. Enquanto isso, as crianças ficam passando mal com o fedor do óleo, os peixes morrem, e a gente fica sem usar o igarapé."

    O crime

    A poluição de rios é considerada crime ambiental pelo artigo 54 da lei 9.605/1998, a Lei de Crimes Ambientais. A pena para o crime é de um a quatro anos de reclusão e multa, e se o crime causar poluição hídrica, que torne necessária a interrupção do abastecimento de água para uma comunidade, a pena aumenta para cinco anos de reclusão.

    *O nome fictício para preservar a identidade da vítima

    Edição: Isac Sharlon

    Leia mais

    Mindu: morte e vida do maior igarapé de Manaus

    MPF trabalhará de forma integrada no combate a crimes ambientais

    ONG aponta alta de 39% no desmatamento da Amazônia