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    Mudança no ecossistema


    Botos param de falar entre si e viram luta de pesquisadores

    O boto-cinza emite uma espécie de sonar para localizar comida, mapear o ambiente e se locomover, mas tem deixado de emitir o som por conta da proximidade do ser humano no seu hábitat natural

    O vai-e-vém de cargueiros e a construção a manutenção de píeres mudou o ecossistema na região e complicou a comunicação dos botos tímidos | Foto: divulgação

    O boto-cinza não é aquele golfinho extrovertido, que salta ao lado de barcos. Se você chegar perto demais, ele vai mergulhar e emergir a metros de distância para evitar contato. Apesar disso, biólogos afirmam que a interferência do ser humano está impedindo os botos de "falarem" entre si. Consequentemente, dezenas deles estão desaparecendo no litoral fluminense, e pesquisadores travam uma corrida há mais de seis anos para tentar salvá-los.

    A presença do boto-cinza se estende pela América Central e por quase toda a costa brasileira, mas a Baía de Sepetiba, no Rio de Janeiro, é o "habitat crítico" da espécie. Ou seja, a região originalmente tem condições perfeitas para o boto se alimentar, viver em família e dar à luz filhotes. Ilhotas, manguezais e cardumes tornam o local ainda mais rico em diversidade natural. Há cerca de 20 anos, porém, foram instalados portos por onde são exportados minerais, como o alumínio.

    O vai-e-vém de cargueiros e a construção a manutenção de píeres mudou o ecossistema na região e complicou a comunicação dos botos tímidos. Em um intervalo de vinte anos, os grupos da espécie diminuíram entre 50% a 60% na Baía de Sepetiba. A conclusão, exclusiva para Ecoa, é parte de um estudo chefiado pelo biólogo da UFRJ Rodrigo Tardin, coordenador do Grupo de Bioacústica e Ecologia de Cetáceos. O grupo existe há 25 anos, mas nunca observou uma redução tão alarmante na Baía de Sepetiba como nos últimos dez anos.

    O boto-cinza vive em grupos, em espécies de uma sociedade, dividida em grupos menores para se alimentar, por exemplo. De acordo com o pesquisador, se em 2007 foram registrados grupos com até 300 botos na Baía, hoje são formados por no máximo 100 membros.

    "Hoje os botos também estão muito mais magros, a ponto de ser possível enxergar as costelas enquanto nadam", explica Tardin. Em 2014, o Ministério do Meio Ambiente listou o boto-cinza entre as espécies ameaçadas de extinção".

    O boto-cinza quer falar

    O boto-cinza emite uma espécie de sonar para localizar comida, mapear o ambiente e se locomover e produz um som para interagir com o restante da família. As embarcações que atracam no porto, porém, produzem barulho embaixo d'água e dificultam a comunicação entre o grupo de golfinhos. No início do ano, um estudo orientado por Tardin detectou uma redução de 90% das "conversas" mantidas entre os botos-cinza em um intervalo de duas décadas.

    "Antes, você colocava o hidrofone na água" — espécie de microfone — "e os ouvia conversando bastante. Agora, na maior parte do tempo eles estão mudos", diz o pesquisador.

    A falta de comunicação atrapalha o encontro de alimentos como a corvina, lula ou sardinhas, principais presas dos botos. A mortalidade dos golfinhos, por sua vez, gera um desequilíbrio na região. Se antes o boto-cinza ocupava o "topo" da lista e mantinha o ambiente diverso e saudável, o desaparecimento dele pode desencadear o crescimento de maneira exagerada ou diminuir de maneira irreversível a presença de outras espécies, alterando a vida natural da Baía. O desequilíbrio também afeta a vida de pescadores tradicionais na região, com redes cada vez mais vazias.

    "Não adianta paralisar um projeto completamente para proteger a fauna, a flora e esquecer do lado social e econômico. Por isso, nos últimos anos temos dialogado com os pescadores, que são prejudicados pelos grandes navios", diz Rodrigo.

    "Quando a gente fala em conservação e preservação, é sempre um desafio".