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    Meio Ambiente


    Mineração na Amazônia bate recordes de desmate nos últimos dois anos

    Série histórica do Deter/Inpe iniciada em 2015 mostra que índices mais altos foram registrados ao longo dos últimos dois anos

    Caso de exploração da Mineração Vale do Rio Doce na Serra dos Carajás, no Pará
    Caso de exploração da Mineração Vale do Rio Doce na Serra dos Carajás, no Pará | Foto: Daniel Beltra (Greenpeace)

    Manaus - A mineração desmatou 405,36 km² da Amazônia Legal nos últimos cinco anos, segundo dados do Sistema de Detecção de Desmatamento em Tempo Real (Deter), do Instituto de Pesquisas Espaciais (Inpe).

    A área derrubada na Amazônia legal equivale a cerca de 40,5 mil campos de futebol. Ao longo de 2019 e 2020, esse desmatamento causado pela atividade mineradora registrou recordes e avançou sobre áreas de conservação.

    O ambientalista Carlos Durigan, pontuou que a mineração ocorre em diversos países que também ocupam no território amazônico, com sedimentos de ouro em pó em rios amazônicos. Pessoas acabam desenvolvendo a exploração desse mercado, em razão disso, nos últimos anos o aumento desta demanda aumentou.

    “A mineração específica de ouro na Amazônia é realizada não só no Brasil, mas nos demais países que ocupam o território amazônico. Há ocorrência de ouro em pó disperso em sedimentos da maioria dos rios amazônicos e, isso tem levado pessoas a desenvolverem exploração. O mercado internacional de ouro tem sido aquecido pelo aumento do valor de mercado deste minério e, isso tem feito a exploração aumentar sem nenhum controle”, explica.

    A série histórica do Deter/Inpe, que compila dados desde 2015, aponta que o mês com a maior devastação foi maio de 2019, com 34,47 km² desmatados. Em seguida, ficou julho de 2019 com 23,98 km². Além disso, 2020 teve os piores índices em junho, com 21,85 km² e, em agosto (15,93 km²) e setembro (7,2 km²) da série.

    O doutorando do programa de ecologia do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) e cientista, Lucas Fernandes, afirmou que a população pode ser afetada em diferentes camadas. Para ele, a mineração não gera benefícios, quem tem lucros são apenas empresários.

    “A iniciativa privada não garante que atividades minerárias sejam reguladas de maneira correta e de forma que não causem impacto. Podem afetar comunidades ribeirinhas e a população de modo geral, isso também pode significar a extinção dessas comunidades, uma vez que podem ter desastres que inviabilizam a portabilidade da água e a migração massiva da região”, enfatiza.

    Terras indígenas 

    Entre janeiro e abril de 2020, mais de 70% da mineração na Amazônia ocorreu dentro de áreas protegidas, de acordo com o Greenpeace. Nas terras indígenas, esse aumento do desmatamento por mineração foi de 64%, na comparação com o mesmo período de 2019.

    O ambientalista Carlos Durigan afirmou que a maior parte dos garimpos ocorrem em regiões onde há criminalidade e causam problemas para comunidades indígenas e não indígenas.

    “A mineração de ouro causa fortes impactos sociais e ambientais. Como a maior parte dos garimpos são ilegais, as regiões onde ocorrem já causam problemas de aumento de criminalidade e invasão de áreas de vida de comunidades indígenas e não indígenas”, explica.

    Casos de mineração

    Segundo o Inpe, 85% de todo o desmatamento causado pela atividade na região amazônica desde 2015 ocorreu no Pará. Considerando o período de janeiro a novembro deste ano, o estado concentra 81% do desmate ocorrido por mineração.

    A mina de níquel Onça Puma, localizada em Ourilândia do Norte, no sudeste do Pará, teve que parar suas atividades devido à contaminação das águas do rio Cateté, utilizada pela população para pesca, banho e atividades dos ínidios Xikrin.

    Caso de barragem em Mariana registrou a degradação de mais de 240.88 hectares de mata atlântica e três reservas indígenas foram atingidas
    Caso de barragem em Mariana registrou a degradação de mais de 240.88 hectares de mata atlântica e três reservas indígenas foram atingidas | Foto: Neno Vianna/EFE

    Outros grandes desastres ambientais conhecidos no país são de Mariana e Brumadinho. Em 2015, ocorreu o rompimento da barragem de Fundão, situada no município de Mariana, em Minas Gerais. A tragédia resultou na morte de 19 pessoas, três reservas indígenas atingidas, degradação de mais de 240.88 hectares de mata atlântica e 14 toneladas de peixes mortos.

    No Amapá, Serra do Navio, onde ocorreu a primeira iniciativa de mineração na Amazônia, as reservas minerais foram declaradas exauridas, estudos chegaram a indicar os danos ambientais, como a contaminação de rios e de lençóis freáticos por arsênio e manganês.

    Batizada como Lagoa Azul, esta velha mina virou atração turística em Serra do Navio
    Batizada como Lagoa Azul, esta velha mina virou atração turística em Serra do Navio | Foto: Reprodução

    Alguns projetos como o exemplo em Oriximiná, buscam compensar esses impactos. Em 2015, a Mineração Rio do Norte, criou um projeto em conjunto com organização da sociedade civil para apoiar atividades como a coleta de castanha-do-Pará, a agricultura de subsistência e a pesca, realizada pela população local.

    Mercúrio pode gerar problemas de saúde 

    Homem exibe uma bolota de mercúrio
    Homem exibe uma bolota de mercúrio | Foto: Victor Moriyama

    Segundo o ambientalista, por envolver sedimentos em leitos e margens dos rios, que utilizam mercúrio para a retirada do ouro em pó, esse mesmo metal  pode gerar problemas de saúde para os próprios garimpeiros, além da contaminação dos rios e a biodiversidade aquática.

    “A lavra de ouro em rios e igarapés traz graves consequências, pois a atividade revolve o sedimento nos leitos e margens dos rios, causando transformação na dinâmica e hidrologia destes. E ainda, no processamento para retirada do ouro em pó do sedimento, retirado dos rios, utiliza-se o mercúrio, que acaba por gerar problemas de saúde para os próprios garimpeiros, pela sua manipulação e ainda ao ser levado de volta para os rios, que contamina toda a biodiversidade aquática”, explica.

    Fernandes ressaltou que além da contaminação de água e solo, a mineração pode gerar conflitos sociais, como a violência contra mulher e violência contra ativistas ambientais.

    “Também temos como consequência a contaminação de água e solo e conflitos sociais, as mazelas sociais, como o aumento de violência contra mulher, violência contra ativistas ambientais e a grilagem”, pontua.

    Com relação especificamente às chamadas Unidades de Conservação, o desmate por mineração cresceu 80,62% no primeiro trimestre de 2020, em comparação com o mesmo período do ano passado, aponta o Greenpeace.

    Essas áreas recebem esse nome porque têm características naturais relevantes que precisam ser preservadas – o objetivo é proteger espécies ameaçadas e resguardar ecossistemas, por exemplo.

    Medidas

    Para o pesquisador Lucas, as medidas necessárias envolvem a consulta prévia de comunidades indígenas, prevenindo a invasão de iniciativas privadas em terras indígenas.

    “As medidas seriam a aplicação da lei. Além disso, as comunidades indígenas devem ser consultadas. Essas comunidades não vêm sendo consultadas. No início do ano o presidente tentou passar um projeto abrindo terras indígenas que não estabelecia consulta dessas comunidades, isso é um malefício grande. A consulta previne a invasão arbitrária de terras que são de iniciativa privada”, explica.

    Em 2019, o governador do Amazonas e mais sete outros que compõem o Consórcio Interestadual da Amazônia Legal brasileira assinaram a Carta de São Luís, com pontos para o desenvolvimento sustentável da região Amazônica, fomentando o caminho para promover a economia verde, de maneira que não prejudique o meio ambiente, de acordo com a Organização das Nações Unidas (ONU).

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