Literatura


Clube da Madrugada: O movimento que revolucionou a cultura do AM

Fundado em 1954, o Clube da Madrugada abrigou poetas, artistas, professores e intelectuais que marcaram o Amazonas com obras reconhecidas nacionalmente

Encontro de membros do Clube da Madrugada
Encontro de membros do Clube da Madrugada | Foto: Reprodução

"Neste local, desde 1954, reúnem-se intelectuais e livres pensadores do Clube da Madrugada’’


Aos pés de uma árvore na Praça da Polícia, como é popularmente conhecida a Praça Heliodoro Balbi, no centro de Manaus, uma placa celebra o movimento renovador que nasceu no início dos anos 50 e se tornou um dos mais importantes movimentos culturais no Amazonas.

O Clube da Madrugada, fundado em 22 de novembro de 1954 por jovens intelectuais de Manaus, entre eles Saul Benchimol, Teodoro Botinelly, Celso Melo e Luiz Bacellar, surgiu com o objetivo de resgatar a literatura manauara.

Naquele período, a literatura vivia em inércia, conforme relatou em entrevista ao programa Amazonpedia, da rede EM TEMPO, o professor de história, Jhames Bessa.

Placa de homenagem ao Clube da Madrugada na Praça Heliodoro Balbi
Placa de homenagem ao Clube da Madrugada na Praça Heliodoro Balbi | Foto: Brayan Riker/Amazonpedia

‘‘Uma reunião de jovens formou um grupo de estudos literários - o Clube da Madrugada - com esse objetivo. Mas, conforme ele foi ampliando-se e ganhando novos membros, o intuito também se ampliou, abrangendo debates sociais e políticos sobre temas que ocorriam na capital amazonense’’, explicou.

O movimento teve, ainda, o próprio estatuto. Publicado no Diário Oficial do Estado do Amazonas, em 20 de dezembro de 1961, o documento defende a livre manifestação do pensamento e tem por propósito o estudo, desenvolvimento e a divulgação dos diversos ramos da ciência, das letras e das artes.

"Essa finalidade não se restringe ao âmbito da agremiação, mas visa também levar ao povo, através do trabalho escrito, oral ou divulgação, o conhecimento do que se fez e se faz no campo da cultura em geral’’, lê-se no capítulo I do estatuto do Clube da Madrugada.

Estatuto do Clube da Madrugada
Estatuto do Clube da Madrugada | Foto: Lucas Silva

Tenório Telles, membro da Academia Amazonense de Letras e autor do livro ‘’Clube da Madrugada: Presença Modernista no Amazonas’’, ressaltou algumas passagens do estatuto, e evidenciou as motivações dos membros.

"Um dos fundamentos afirma que era preocupação dos membros do clube pensar a realidade amazônica e contribuir para uma nova forma de compreender e abordar a realidade regional’’.

Obras e membros do Clube da Madrugada

Escritor nascido em Itacoatiara, no Amazonas, Elson Farias, vivenciou encontros no Clube da Madrugada, e, recentemente, homenageou um dos fundadores do Clube da Madrugada na obra ‘’Luiz Bacellar e suas poesias’’.

‘’Nos conhecemos através do Clube da Madrugada, e as experiências que tivemos lá, como você pode perceber, rendem até hoje’’, relatou.

Reuniões do Clube da Madrugada ocorriam na sombra de uma árvore, na Praça da Polícia
Reuniões do Clube da Madrugada ocorriam na sombra de uma árvore, na Praça da Polícia | Foto: Reprodução

Para ingressar no grupo, os intelectuais deveriam ser introduzidos por algum membro, e a permanência deveria ser aprovada, através de votos, dos sócios residentes do Clube da Madrugada. Essa exigência também foi relatada no estatuto do Clube da Madrugada

Obras como Sombra e Asfalto, de Getúlio Alho, Os Rebanhos da Fuga, de Guimarões de Paula, e Barro Verde, de Elson Farias, que inclusive recebeu edição comemorativa no cinquentenário do Clube da Madrugada, surgiram através do movimento.

As artes que surgiram nesse período representaram uma nova alma para a cultura do Amazonas, colhendo frutos até os dias atuais.  

Além de Elson Farias, jovens como Thiago de Mello, Astrid Cabral, Alencar de Silva e Moacir Andrade participaram do movimento e se tornaram grandes nomes da cultura brasileira através das experiências compartilhadas no Clube da Madrugada.

Sem sede própria, a Praça Heliodo Balbi era o ponto de encontro do Clube da Madrugada
Sem sede própria, a Praça Heliodo Balbi era o ponto de encontro do Clube da Madrugada | Foto: Arquivo EM TEMPO

Romancista e dramaturgo célebre da cultura amazonense, sendo uma das vozes mais ouvidas da moderna literatura brasileira, Marcio Souza cultivou amizade com membros do Clube da Madrugada, e relatou com orgulho as inspirações.

"Eles eram muito abertos e acessíveis, todos os artistas, poetas, músicos e teóricos. Saul Benchimol, por exemplo, foi um dos maiores estudiosos sobre a Amazônia e um importante membro do Clube da Madrugada’’, relembrou Marcio Souza.

Pós-Clube da Madrugada

Um exemplo concreto do impacto do movimento na literatura pós-Clube da Madrugada, Tenório Telles descreve o próprio envolvimento com o grupo como geracional.

Membros do Clube da Madrugada se reúnem
Membros do Clube da Madrugada se reúnem | Foto: Lucas Silva

"Sou de uma geração que surgiu quando o movimento estava vivendo o período crepuscular, e tive a oportunidade de conviver com escritores que fundaram, participaram e ajudaram no êxito do clube’’, ressaltou o escritor.

Apesar de ser reconhecido, principalmente, pelas realizações na literatura, o Clube da Madrugada - como movimento cultural -, refletiu também em outras áreas, como na arte plástica e no pensamento regional.

"Muitos intelectuais, que não eram exatamente poetas, se tornaram professores, universitários, que ajudaram a formar uma outra maneira de pensar e estudar a realidade amazônica''.

Manaus 16.10.2020. Escritor Tenório Telles. Foto: Lucas Silva
Manaus 16.10.2020. Escritor Tenório Telles. Foto: Lucas Silva | Foto: Lucas Silva

''Antes do clube, predominava uma visão muito acadêmica do fato literário. Com o advento da madrugada, os autores passaram a explorar novas possibilidades expressivas, não mais aquela acadêmica e formalista’’, esclareceu.

‘’Inclusive, muitos escritores do ‘pós-Clube da Madrugada’, como Marcio Souza, Milton Hatoum e Thiago de Mello, bebem direto da fonte desses literários da época’’, ressaltou o professor de história, Jhames Bessa.

Porém, nos anos 70, surgiram os primeiros sintomas do desgaste do Clube da Madrugada.

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Com o passar do tempo, surgiram divergências, os membros envelheceram ou buscaram outros caminhos, e teve o processo de exaustão. Os movimentos culturais, como todas as coisas da vida, cumprem um ciclo de existência. "

Tenório Telles, escritor, poeta e professor

''Eles surgem para dar resposta a algum problema, propor caminhos, refletir novas questões, e vivem um período de consolidação muito produtivo, mas felizmente, vivem o período de exaustão e envelhecimento’’, finalizou.

| Foto: Lucas Silva

Mas, mesmo com seis décadas de existência, os reflexos do Clube da Madrugada ainda são visíveis em artes do Amazonas.

"O Clube da Madrugada, foi, talvez, o mais importante movimento cultural da história do Amazonas e um dos maiores do país. Apesar de não existir, atualmente, como uma realidade, continua exercendo uma influência muito grande na literatura do estado’’, explicou Tenório Telles.

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