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    Cultura


    Espetáculo ‘Jim’ incentiva mergulho em um universo filosófico, no Teatro Amazonas

    O espetáculo reúne poesia e música oferece oportunidade maior que entretenimento- foto: divulgação
    O espetáculo que reúne poesia e música oferece oportunidade maior que entretenimento- foto: divulgação

    Para uma plateia que ocupou todos os lugares disponíveis no Teatro Amazonas, em três sessões, neste último fim de semana, o ator Eriberto Leão transcendeu as impressões que costumeiramente é capaz de criar por meio de seus personagens televisivos. Com o espetáculo ‘Jim’, seus potenciais criativo e interpretativo ficaram mais evidentes. Da mesma forma que o ídolo do rock Jim Morrison também se fez ‘justiçado’ por um roteiro rico em simbologias poéticas e filosóficas.

    A peça, consolidada em uma temporada de dois anos nos palcos do Rio de Janeiro, chegou a Manaus abrindo a turnê nacional, aproximando fãs de Morrison a uma leitura pouco convencional, tornando-se surpreendentemente atraente e instigante.

    Mais do que valorizar e evidenciar o desempenho artístico do elenco (Eriberto e Renata Guida) e dos músicos que executaram com perfeição mais de dez obras de The Doors, ou mesmo a qualidade de sonorização e iluminação (esta, inclusive, premiada), o espetáculo aponta um caminho reflexivo sobre vida e obra de Jim Morrison e uma proposta de aplicação disso à vida pessoal dos espectadores.

    “Nossos heróis morreram de overdose para que nós não morrêssemos”. A frase presente no roteiro também é defendida pelo ator em sua individualidade. O próprio enfatizou várias vezes que há uma necessidade de aprender a ‘ler’ as entrelinhas do que poetas contemporâneos - nesse caso, especificamente do universo do rock - deixaram como legado, além da música pela música.

    “O Jim era extremamente inteligente e lia, praticamente, um livro por dia. Ele não era superficial. Ninguém precisa experimentar o que já está claro que não faz bem”, diz Eriberto, que doa muito de suas próprias histórias ao roteiro, incluindo a influência que o ‘God of rock’ (Deus do rock) teve em sua vida.

    Filho de professora, Eriberto por vezes acompanhava sua mãe ao trabalho quando criança, adquirindo o respeito e o interesse pela educação desde cedo, o que não impediu que, ao conhecer a obra dos Doors aos 17 anos de idade, pudesse potencializar ainda mais essa vertente.

    Entre citações filosóficas de William Blake, Nietzsche e Humboldt, o espetáculo acabou por germinar a curiosidade em, pelo menos, metade das pessoas presentes às sessões, por essas máximas. Houve quem dissesse que estava ali de forma despretensiosa para assistir a ‘Jim’ e que encontrou pontos convergentes para estudos acadêmicos que estavam em andamento. A isso, Eriberto chegou a atribuir o conceito de ‘coincidência significativa’, de Carl Gustav Jung.

    “A pessoa pode nem ligar para essas coincidências que a vida apresenta ou pode compreendê-las e fazer disso algo maior para si e para os outros”, comenta o ator.

    A troca de impressões entre elenco e público foi possível pelo momento ‘Vivo EnCena’, promovido pela patrocinadora do espetáculo, Vivo, ao fim da sessão.

    Além de expor a bagagem cultural de Eriberto Leão, o momento de conversa informal também tornou evidente o grau de conhecimento e interesse do público local pelo tema. Desde o fã que apenas desejava saber os próximos passos da carreira do ídolo até o pai que buscou apresentar aos filhos adolescentes uma imersão no mundo um tanto quanto incompreendido de Jim Morrison, como ícone da história do rock. “É preciso haver o entendimento de que Jim cometeu abusos e equívocos, mas definitivamente ele não era apenas um ‘doidão’”, declara Leão.

    Encerrada ontem a passagem de ‘Jim’ em Manaus, onde esteve desde sexta-feira (11), a obra segue agora para o Estado vizinho do Pará.

    Eriberto Leão deixa a capital amazonense sob aplausos e com o alerta de que ainda trabalha em outras duas obras teatrais que estão em fase de concepção e criação com proposta semelhante de oferecer “outra face” de personalidades. Uma delas é o teórico da comunicação canadense Marshall McLuhan e a outra o ator preferiu não revelar, mas que possivelmente trata-se da figura de Che Guevara.

    Por Gustav Cervinka