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    'Mercado Grande'


    Histórias, cheiros e sabores: conheça o Mercado Adolpho Lisboa no AM

    Erguido em 1882 e inaugurado no ano seguinte, o local atrai turistas e moradores locais para compra de produtos tradicionais da Amazônia

    Faça um pequeno passeio pelo Mercado Municipal Adolpho Lisboa, em Manaus | Autor: Equipe EMTEMPO

    Ao longo de seus 134 anos, o Mercado Municipal Adolpho Lisboa, em Manaus, passou de um local onde era possível comprar tartarugas, peixes amazônicos e toda a espécie de hortifrutis, a um grande centro de artesanato regional, com algumas poucas bancas destinadas ao comércio de produtos alimentícios e de ervas medicinais. “Uma evolução”, dizem os permissionários mais antigos, ao se referirem ao antigo “mercado grande”, que atraia as famílias amazonenses até a rua dos Barés, no Centro, para a compra do rancho da semana.

    Hoje o “mercadão”, como é conhecido pelos moradores de Manaus, é mais frequentado por turistas e pessoas interessadas em adquirir artesanato amazônico, tomar café regional ou comer um crocante jaraqui frito na hora do almoço. Também é procurado por pessoas que buscam ervas medicinais da Amazônia, para curar doenças e males da alma.

    O Adolpho Lisboa tem atualmente 165 permissionários - a maioria no ramo de artesanato. Outros 80 boxes são destinados as lanchonetes e venda de peixe.

    A comercialização do pescado no mercado, aliás, não anda numa boa fase. “Há dias em que as vendas estão devagar, há dias que são boas, assim vai indo”, afirmou o peixeiro Daniel Silva Mesquita, de 18 anos. Ele e os pais vendem pirarucu seco e fresco, além de tambaqui sem espinha.

    Artesanato amazônico é facilmente encontrado no Mercado Adolpho Lisboa
    Artesanato amazônico é facilmente encontrado no Mercado Adolpho Lisboa | Foto: Gabriel Costa

    Artesanato 

    Já no setor de artesanato - que ocupa a maior parte do mercado - o movimento está em alta. O fim de ano atrai muitos amazonenses e turistas em busca de uma lembrança regional. Nesse setor, encontramos a família Gerioni, do Paraná. O casal Nivaldo e Mayumi, e a filha Moara, gostaram do mercado, porém ficaram decepcionados ao encontrar um local “moderno demais”. “Historicamente o mercado é muito interessante, porém eu esperava encontrar algo mais tradicional”, disse Nivaldo. Mesmo assim, o trio paranaense levava na sacola algumas lembrancinhas para os parentes do Sul e muitas fotos no smartphone.

    Trabalhando há mais de 35 anos no mercado, o paraense Antônio José da Trindade, conhecido como “Antônio Jacaré”, conhece bem as mudanças sofridas pelo “mercadão”. Hoje ele trabalha exclusivamente com artesanato regional. “Tenho pra mais de 500 modelos diferentes feitos de madeira, cerâmica e borracha”, enumerou.

    Planta da fachada que seria construída para a rua dos Barés, mas que foi substituída pela atual
    Planta da fachada que seria construída para a rua dos Barés, mas que foi substituída pela atual | Foto: Reprodução

    Tartaruga, ‘Manaós Market’ e a ‘Hora da Creolina’

    Em sua primeira fase de construção (1882-1883), a frente do mercado era virada para a orla do rio Negro e contava com apenas um pavilhão central, com 42 metros de largura por 45 de comprimento.

    Segundo a arqueóloga Arminda Mendonça, em artigo disponível na Biblioteca Virtual do Amazonas, entre 1890 e 1907 o “Mercado Grande” passou pela reforma que criaria a atual fachada voltada para a rua dos Barés, além dos dois pavilhões laterais onde atualmente são vendidos os peixes, e pavilhão dos fundos destinado ao comércio de quelônios amazônicos, como as tartarugas e que hoje abrigam os boxes de ervas medicinais.

    Atual fachada do mercado, voltada para a rua dos Barés, foi inspirada na Galeria Vittorio Emuelle II, de Milão, na Itália
    Atual fachada do mercado, voltada para a rua dos Barés, foi inspirada na Galeria Vittorio Emuelle II, de Milão, na Itália | Foto: Gabriel Costa

    Contudo, esse foi um período bem peculiar para a história do Mercado. A atual fachada da rua dos Barés, por exemplo, que foi projetada pelo engenheiro Filintho Santoro com base na fachada da Galeria Vittorio Emuelle II, de Milão, na Itália, era para ter outro desenho. O projeto inicial era da empresa inglesa “The Manaos Markets and Slaughterhouse Limited”, que havia ganhado os direitos de explorar o “Mercadão” por 50 anos. No entanto, o contrato foi extinto e o projeto não foi executado, permanecendo a estrutura em alvenaria e tijolos que permanece até hoje.

    Fachada da Galeria Vittorio Emanuelle, em Milão, na Itália, que inspirou a atual fachada do 'Mercadão'
    Fachada da Galeria Vittorio Emanuelle, em Milão, na Itália, que inspirou a atual fachada do 'Mercadão' | Foto: Reprodução

    Outro fato que marcou esse período foi a determinação da chamada “Hora da Creolina”, uma lei de março de 1903 que obrigava que o mercado fosse lavado diariamente com o desinfetante Creolina. Essa desinfecção ocorria diariamente, sempre às 10h e era anunciada pela badalada de um grande sino, que atualmente encontra-se em exposição na entrada do Mercado.

    Sino usado para iniciar a desinfecção do mercado com Creolina
    Sino usado para iniciar a desinfecção do mercado com Creolina | Foto: Márcio Azevedo

    Chifre de boi, corama e cabacinha

    O antigo pavilhão das Tartarugas - com entrada pela avenida Lourenço Braga - se tornou o point das ervas medicinais do “Mercadão”. São poucos boxes, mas com uma grande infinidade de produtos. De chifre de boi - usado para defumação - a ervas para curar reumatismo, micoses e até depressão.

    No pavilhão das ervas, é possível encontrar mais de 3 mil tipos de plantas, ervas e produtos medicinais. Há plantas como corama, mastruz, hortelã, unha de gato, erva de jabuti, e muitos outros. O lugar possui um cheiro inconfundível e vendedores cheios de histórias, como a Mara “das Ervas”, que está há 40 anos no local (30 com a mãe à frente do negócio e 10 com ela).

    O setor de ervas e plantas medicinais tem mais de 500 produtos
    O setor de ervas e plantas medicinais tem mais de 500 produtos | Foto: Gabriel Costa

    “O chifre de boi se usa para fazer defumação, mas tem gente que também usa para fazer chá, mas eu nunca perguntei para que serve”, contou a Mara que revelou nunca ter tomado remédio de farmácia.

    “Sempre tomei remédio feito com ervas. Dificilmente adoeço”, afirmou Mara, garantindo ter remédio para resolver quase todo tipo de problema. “Só não tenho remédio para problemas financeiros”, brincou a vendedora.

    Quem foi Adolpho Lisboa

    O personagem político que dá nome ao mercado, coronel Adolpho Guilherme de Miranda Lisboa, nasceu na Bahia em 1862, mas cresceu em Belém do Pará. Na capital paraense entrou para o Exército ainda com 14 anos de idade. Na época era permitido para quem fosse filho de oficial do EB e ele o era: seu pai era major.

    Segundo o escritor e coronel reformado da Polícia Militar do Amazonas, Roberto Mendonça , em seu livro “Administração do Coronel Lisboa” (2008), Adolpho Lisboa veio para Manaus, pela primeira vez, aos 16 anos como 2ª sargento dar apoio às eleições da província do Amazonas. Voltou definitivamente em dezembro de 1900, nomeado comandante do Regime Militar do Estado (RME) pelo então governador Silverio José Nery.

    Em janeiro de 1902 foi nomeado superintendente de Manaus - na época equivalente ao cargo prefeito, permanecendo no cargo até junho de 1904 e depois o reassumindo em janeiro de 1905. 

    Foi nesse segundo mandato que Lisboa mandou erguer a fachada do mercado para a rua dos Barés. O coronel morreu aos 52 anos, em 1913, em Belém.

    Serviço

    O Mercado Municipal Adolpho Lisboa foi tombado Patrimônio Histórico Nacional em 1987. Ele fica aberto de segunda a sexta-feira das 6h às 17h. Aos domingos e feriados funciona entre 6h e 12h. Todos os quiosques aceitam pagamento em cartão e dinheiro e, no local, existem caixas eletrônicos do “Banco 24 horas”.

    O mercado pode ser acessado tanto pela rua dos Barés, quanto pela avenida Lourenço Braga (Manaus Moderna).