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    Os suicídios resultam de uma complexa interação de fatores, diz a Organização Mundial da Saúde

    Resistência da sociedade em tratar do tema faz com que o Brasil seja um dos países com menos estudos científicos sobre suicídio em todo o mundo - foto: Diego Janatã
    Resistência da sociedade em tratar do tema faz com que o Brasil seja um dos países com menos estudos científicos sobre suicídio em todo o mundo - foto: Diego Janatã

    Ao ouvir a palavra suicídio, é muito comum as pessoas que estão ao seu redor reagirem de forma desconfortável, insegura. Afinal, para muitos, é absolutamente inconcebível a ideia de uma pessoa tirar a própria vida. E justamente esta resistência em lidar com o tema por parte da sociedade brasileira que torna o suicídio um tabu em comparação ao resto do mundo. É a constatação feita pela socióloga Maria Cecília Minayo, pioneira sobre o tema.

    A pesquisadora esteve em Manaus, na última semana, para apresentar os resultados do estudo “É possível prevenir a antecipação do fim? Suicídio de idosos no Brasil e possibilidades de atuação de atuação do setor saúde”. O projeto foi realizado entre os anos de 2010 a 2012, com o objetivo de compreender a magnitude e a significância do suicídio na população brasileira acima dos 60 anos ou mais, cujas mortes ocorreram  no período de 1989 a 2009 no Brasil. Uma das primeiras constatações é justamente que o Brasil está atrasado em relação ao resto do mundo.

    “Quando buscamos material de pesquisa no exterior, temos esse assunto amplamente abordado e documentado. Onde realmente há escassez de informações é no Brasil”, lamenta Cecília.

    Para a socióloga, o principal culpado por essa negligência é o critério de classificação dos casos de suicídio pelo governo federal. “Ao inserir os casos de suicídio na mesma categoria de crimes, cuja incidência é estatisticamente maior, o poder público faz parecer que o problema é menor do que realmente é. Esse é o nosso calcanhar de Aquiles”, alerta.

    Além do atraso do Brasil no trato do tema, a situação de cada faixa etária também foi foco da palestra. Tema central do estudo, o suicídio dos idosos tem como a desatenção o seu principal fator de risco.

    “Os idosos são abandonados pela família e não possuem atenção do Estado. Isso leva muitos a se questionarem sobre que tipo de vida estão levando. Ou acabam se sentindo um peso para a sociedade, perdendo assim a motivação de viver. Isso tudo acelera o processo”, observa.

    Apesar do estudo ter como foco a terceira idade, Cecília afirma que todas as faixas etárias estão expostas ao problema. “Jovens estão expostos em virtude do início da sua vida amorosa e sexual. O fim de relacionamentos nessa faixa etária é problemático e leva um número considerável a tentar ou cogitar o suicídio. Os homossexuais também são um grupo de grande incidência por conta do bullying que sofrem”, analisa.

    No caso de crianças, a desestruturação familiar é o principal vilão. “As brigas de família tem forte impacto nas crianças”, destaca.

    O que acontece

    De acordo com estudo da Organização Mundial da Saúde (OMS), os suicídios resultam de uma complexa interação de fatores biológicos, genéticos, psicológicos, sociológicos, culturais e ambientais. Detectar rapidamente os sinais de alerta, além de fazer o encaminhamento para especialistas e monitorar o comportamento do suicida são passos importantes na prevenção. O desafio está justamente em identificar as pessoas que estão em risco e a que eles são vulneráveis para entender as circunstâncias que influenciam o seu comportamento auto-destrutivo.

    Por exemplo, no Japão, o suicídio, até pouco tempo, tinha um significado de valor e estava ligado à salvação do nome da pessoa, à questão da honra. Já nos países ocidentais, sempre esteve mais associado a desordens mentais. Na verdade, o suicídio reflete uma ausência de motivos para continuar vivendo, quer sejam reais ou imaginários.

    Nesta era globalizada, os valores econômicos são superestimados e os seres humanos estão sendo classificados como ganhadores ou perdedores, contrariando os preceitos de uma constituição que assegura a todos o direito de uma vida com um padrão mínimo de saúde, cultura e dignidade. Isto fica particularmente comprometido entre nações em guerra, onde todos os direitos assegurados são completamente esquecidos. Este total desrespeito à vida humana tem um preço, e não só em dinheiro, mas também em saúde mental.

    Números

    A OMS e a Associação Internacional para a Prevenção do Suicídio (Iaps, em inglês) instituíram o dia 10 de setembro como o Dia Mundial para Prevenção do Suicídio. Em 2015, a OMS divulgou dados do primeiro Relatório Global para Prevenção do Suicídio, revelando que mais de 800 mil pessoas dão fim à própria vida todos os anos no mundo. E para cada suicídio consumado, há aproximadamente 20 tentativas sem sucesso. O país com maior índice de suicídios é a Rússia, com 39 vítimas a cada 100 mil habitantes. França, Alemanha, Canadá apresentam uma taxa ao redor de 15.

    Ainda de acordo com a OMS, o suicídio é um grande problema de saúde pública e aproximadamente 75% dos casos ocorrem em países de baixa e média renda. O Brasil é o oitavo país, nas Américas, em número de suicídios. “Tem havido um crescimento expressivo do suicídio no mundo inteiro. No Brasil, a taxa é alarmante porque não se falava abertamente nisso, mas se sabe do problema”, afirma o pesquisador da Iaps, Paulo Amarante.

    “Esse mito de que o Brasil é um país alegre não é real. Na verdade, o que está acontecendo é um processo muito grande de individualismo e tudo tem a ver, estruturalmente, com as ideias de suicídio”, ressalta.

    Por Fred Santana

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