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    ‘Terra Consumida’ revelará lugares que podem sumir

     O fotógrafo Leandro Cagiano pretende percorrer lugares ameaçados, que correm o risco de perder a fauna e a flora - foto: divulgação
    O fotógrafo Leandro Cagiano pretende percorrer lugares ameaçados, que correm o risco de perder a fauna e a flora - foto: divulgação

    A fotografia a serviço da preservação. Essa é a proposta do fotógrafo e designer Leandro Cagiano, que por meio do projeto “Terra Consumida”, que pretende mostrar a destruição de lugares remotos a partir dos hábitos de consumo de cada um, por meio de uma expedição ousada, que tem como rota o rio Tapajós (PA), Gibués (PI), atol Midway (EUA), a grande barreira de corais (Austrália), entre outras localidades consideradas vulneráveis do planeta, que correm o risco de ter a fauna e a flora desaparecidas.

    A primeira parada do projeto será o rio Tapajós, onde está em curso o processo de construção de um complexo de usinas hidrelétricas, o que poderá resultar no desaparecimento de espécies nativas da região, em um curto espaço de tempo. As hidrelétricas, apesar de produzirem energia limpa, observa o fotógrafo, são responsáveis pelo desmatamento de áreas gigantescas, pela alteração de toda dinâmica dos rios e toda vida dentro dele, além de colocar em risco a vida do entorno das florestas.

    “Imagine uma inundação na sua cidade e você tendo que fugir dela. Se conseguir escapar, você terá que aprender a viver em um lugar diferente, caminhar por lugares que você não conhece, que você não está acostumado, que você não sabe onde está a comida, que existem outras espécies que você terá que aprender a conviver para sobreviver e uma série de razões que colocam toda a vida animal em risco. Sem contar toda as espécies vegetais do rio e as florestas, de borda que vão morrer. Há também indígenas e ribeirinhos que serão expulsos de suas terras. É só buscar informação de outras hidrelétricas construídas para saber o que aconteceu. Desaparecimento de espécies, aumento no desmatamento ao redor, cidades que aumentam de tamanho e junto a criminalidade, desordem, desemprego, famílias que perdem as filhas para prostituição. O Brasil tem um dos maiores potenciais do mundo para energias sustentáveis, mas prefere continuar destruindo a Amazônia”, avalia.

    Como não são poucas as paisagens e espécies que irão desaparecer, Leandro conta que teve que escolher alguns pontos para se dedicar. “Existem muitos lugares no Amazonas que eu gostaria de incluir, afinal, ele engloba a maior parte da floresta. Por outro lado, a área mais crítica e mais ameaçada está na borda, no chamado arco do Desmatamento, que passa pelos limites sul e leste da floresta, onde se inclui a região do Tapajós, sendo o Pará e o Mato Grosso os maiores desmatadores”, pontua.

    O projeto, de acordo com ele, está em fase de captação de recursos, por meio de um sistema de financiamento coletivo (crowdfunding). A meta inicial do Terra Consumida, se forem cumpridas todas as etapas, tem uma estimativa de 5 anos de expedição ao menos. “O momento político e econômico do país não tem sido favorável para o investimento das empresas. Isso tem dificultado a viabilização de projetos, muito embora o Terra Consumida esteja sendo muito bem recebido pelas empresas”, salienta.
    Vivências ambientais como base

    O projeto, segundo o designer, não surgiu de imediato, mas a partir de um longo processo de experiências que culminaram no que ele é hoje. Tudo começou, conforme Leandro, a partir dos  trabalho com tartarugas-marinhas, no Instituto de Pesquisas Cananeia (Ipec), no qual ele acompanhou os trabalhos de pesquisa com a mortalidade de tartarugas por ingestão de lixo. “Foi um choque para mim descobrir, e também ver, a quantidade encontrada morta nas praias e quantidade de lixo que havia dentro do sistema digestivo delas. Todas juvenis, na faixa de 7 anos de idade”, conta.

    A partir de então, ele diz que passou a entender mais sobre a questão do lixo marinho e se dar conta do que vem acontecendo, com a quantidade de lixo que chega ao mar. “É uma quantidade assustadora e preocupante. Além das tartarugas, muitos outros animais têm morrido em função desse lixo”, destaca.

    Depois desse período no Ipec, Cagiano foi para o Rio Grande (RS), também para fazer um trabalho com tartarugas-marinhas, mas de uma outra espécie, a tartaruga-cabeçuda, no projeto Tartarugas no Mar, do Núcleo de Educação e Monitoramento Ambiental (Nema). Segundo ele, no município gaúcho, o problema é outro, a interação desses animais com a pesca industrial.

    A questão da pesca industrial fez com que o fotógrafo passasse a pensar que comer peixe não é tão melhor que comer a carne que é responsável pelo desmatamento da Amazônia, por exemplo, que fez com que ele se questionasse sobre o que acontecia no mar para que aquele peixe chegasse ao mercado ou o que acontecia na floresta Amazônica para que aquela carne chegasse à mesa.

    “Daí por diante comecei a relacionar a cadeia produtiva de tudo o que consumimos com todas as paisagens e espécies que estão desaparecendo do planeta. O motivo em comum foi um só, o consumo humano. Não só para o que comemos, mas na energia que consumimos, na roupa que vestimos, a queima de combustíveis fósseis, a caça ilegal para alimentar a vaidade, entre outras coisas”, salienta.

    Por Síntia Maciel

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