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    Dia A Dia


    Vitória Régia e Andanças de Ciganos já estão afiadas para desfile

    Vitória Régia e Andanças de Ciganos estão em fase final de preparação para o desfile do grupo especial - Ione Moreno e Márcio Melo

    Tradicionalmente conhecidas entre as grandes escolas de samba de Manaus, as agremiações Vitória-Régia e Andanças de Ciganos confiam nos esforços e dedicação de suas comunidades para resgatar, neste Carnaval, após anos de jejum, o título de campeã. Levando para a passarela do samba temas como ‘justiça’ e ‘misticismo’, as escolas apostam em uma era de novas conquistas este ano.

    Fundada no berço do samba, a verde e rosa da praça 14 de janeiro, defende para 2017 o enredo “Olhos vendados, mãos fortes. Vitória-Régia clama por justiça”, fazendo uma alusão as grandes personalidades do Judiciário brasileiro e ao atual momento que atravessa o país.

    O diretor de eventos da escola, Rivaldo Pereira, destaca que a Vitoria-Régia faz um alerta sobre as diversas injustiças vividas pelo povo brasileiro nos últimos anos. A agremiação leva no próximo dia 25 para a avenida do Samba, 3 mil brincantes, divididos em 25 alas, 3 carros alegóricos e 300 ritmistas, apostando na retomada da sequência de títulos de campeã.

    “Nós sempre começamos o carnaval de Manaus no dia 1º de janeiro, com a preparação do aniversário da praça 14. Para este ano, queremos justiça. Por que justiça? Hoje, mais do que nunca, nosso povo clama por justiça, em diversos setores. Temos vistos tanta injustiça no mundo, tanta discriminação, que precisamos colocar em destaque esse assunto. Além disso, nada mais justo do que homenagear grandes defensores das leis, que fazem do seu trabalho, uma ação digna de respeito. Vamos mostrar o que é justiça, para que serve e como se faz justiça”, disse Pereira.

    Sobre a relação dos moradores da 14 com a agremiação, Rivaldo não mede elogios e diz sem medo que o berço do samba tem com certeza a comunidade mais forte e apaixonada. O diretor fez ainda questão de ressaltar que o pavilhão verde e rosa é o lugar de onde saiu os maiores compositores de Manaus. Artistas esses que abriram as cortinas para que o mundo conhecesse as grandes obras, feitas na região.

    A Vitória Régia tem uma forte identificação com o bairro onde está instalada, na Praça 14, berço do Samba - Ione Moreno

    “O nosso samba, conhecido pelos quatro cantos do mundo saiu daqui, do berço do samba. Sem discriminar as nossas coirmãs, mas a verde rosa é a que mais sabe produzir bons frutos. É algo admirável o amor da comunidade pela Vitória-Régia. Não temos como explicar com palavras. Só podemos sentir quando estamos dentro da nossa escola”, ressaltou Pereira.

    Vivendo uma relação de amor à primeira vista, a musa da verde rosa, Bhia Borges, nascida no Rio de Janeiro, disse que o seu jeito “papa goiaba” de sambar encantou o presidente da agremiação, Didi Redman, além de proporcionar a realização de um sonho de criança. Abraçada com carinho pela comunidade, Bhia revelou estar ansiosa e não negou que será só choro do começo ao fim do desfile da maior escola do berço do samba.

    “Meu coração já é verde e rosa sem sombra de dúvidas. Estou muito ansiosa para defender o enredo, o pavilhão, com todo meu amor. Isso foi uma forma que eu achei de retribuir todo o carinho que eu tenho recebido da Praça 14. Meu coração já bate forte. Eu tenho um jeitinho diferente de sambar, mas estou me aperfeiçoando ao estilo manauense. Didi está realizando meu sonho e sonho realizado não tem preço. O que resta é agradecer e chorar de emoção”, contou a musa.

    Mesmo sendo nova no mundo do samba, Mariana Gabriela de apenas 20 anos de idade, já carrega a grande responsabilidade de representar a imagem de uma rainha na avenida no próximo dia 25. Trabalhando a questão da resistência e do samba no pé, a majestade diz que seu folego vai durar até a festa da vitória.

    “É um prazer estar representando um pavilhão como este. Esse é meu primeiro ano à frente da bateria. Minhas expectativas são as melhores. A ansiedade toma conta de mim a uma semana de eu realizar o sonho da minha vida. Vou mostrar que eu posso defender muito bem minha escola. Tenho certeza que o título de campeã será nosso e por isso meu samba no pé vai até a Segunda-Feira de Carnaval”.

    Há 30 anos vivendo historias inesquecíveis e inusitadas na Vitória-Régia, Rosana Vieira, mais conhecida no Carnaval de Manaus como a passista “Elétrica”, diz não trocar a família verde-rosa por qualquer outra cor. Integrante ativa da agremiação, a passista teve a oportunidade de trabalhar em diversos setores da escola, além de criar novas alas.

    “Já fui madrinha, ritmista, rainha e agora passista da escola. Tenho tantas histórias nesse pavilhão que daria para eu escrever um livro. Teve um ano em que eu estava grávida de 7 meses da minha filha. Passei o desfile todo sambando e quando cheguei na dispersão me joguei no chão de tão cansada que estava. Todo mundo correu pensando que eu estava parindo. Essa situação marcou minha história”, relembrou Rosana.

    https://www.youtube.com/watch?v=l0dr4gmcMK4

    Conquistar a comunidade

    Para resgatar o título de 1987 e tirar o gosto amargo da derrota por meio ponto, a Andanças de Ciganos fará uma releitura do enredo da década de 80, levando o público para uma viagem “Nas festas dos Deuses, os ciganos fazem o Carnaval”. Com 41 anos de fundação, a agremiação após passar por um longo período fora da passarela do samba, vai para mais uma disputa com o objetivo de se consolidar entre as escolas do grupo especial.

    Reconquistando aos poucos o coração da comunidade, a Andanças de Ciganos vem mostrando dia após dia que a garra e a determinação de um conjunto de esforços consegue reviver tempos gloriosos.

    Com um investimento de R$ 300 mil, a direção da Andanças de Ciganos destaca que a escola já está praticamente pronta para lutar pelo título de campeã do Carnaval. Não diferente das demais agremiações, a Andanças vem com 3 mil brincantes, 3 alegorias, 200 ritmistas, 60 baianas, 4 casais de mestres salas e portas bandeiras e uma torcida apaixonada que deve lotar uma das arquibancadas
    do sambódromo.

    “Estamos fazendo uma reedição do desfile de 87, justamente para corrigir uma injustiça no Carnaval, onde ficamos em segundo lugar, perdendo apenas por 0,5 ponto. Muitos críticos do Carnaval não concordaram com esse resultado, devido a fatos obscuros que aconteceram na época. Por desfilarmos em um horário nobre, nós iremos apresentar muitas surpresas. Vamos brigar por esse título e com certeza iremos nos consagrar campeã do carnaval. Toda nossa dedicação é visando sempre o primeiro lugar”, disse o presidente da escola Wilson Benayon.

    Devido ao corte de mais de R$ 200 mil no orçamento da apresentação da escola, Benayon ressalta que precisou trabalhar com a criatividade dos artistas, adaptando materiais mais alternativas para a confecção de fantasias e alegorias, sem perder o padrão de qualidade vista nos desfiles anteriores.

    Projetos sociais e sonhos dos ‘Ciganos’

    A Rainha de Bateria da Andanças de Cigano, Raysa Santos, durante um dos projetos sociais da agremiação - Márcio Melo

    Um dos orgulhos da escola de samba é com certeza o projeto social que ensina há mais de 30 anos para crianças, jovens e adultos, arte marcial. Atualmente cerca de 250 pessoas participam da atividade que já formou mais de 50 alunos faixa preta.

    “Tentamos ajudar toda a comunidade da melhor forma possível, principalmente as pessoas que estão em situação de risco. Nossa academia tem formado grandes cidadãos por meio do jiu-jitsu. Eu consegui minha faixa preta na Andanças de Ciganos”, revelou o presidente Wilson Benayon.

    Em outros setores, a dedicação dos integrantes é a mesma do presidente. “Eu sempre digo que a minha função dentro da escola não é de trabalho e sim de amor. Amor esse passado de geração a geração na minha família. O nosso amor é o combustível da Andanças de Ciganos”, citou a atual secretária e diretora de patrimônio da escola, Marília Oliveira, de 42 anos.

    Moradora da rua Borba, via onde está localizado a quadra da Ciganos, Marília Oliveira disse que cresceu vendo o avô atravessar a rua para participar dos bailes e ensaios de carnaval da agremiação. O mesmo ritual era feito pelo seu pai que passou anos envolvido diretamente na evolução da Andanças.

    “Nós vivemos a Andanças de Ciganos o ano inteiro. Terminou o carnaval no mês seguinte já estamos reunidos para planejar o próximo desfile”, relatou Oliveira.

    Reinando pelo segundo ano na frente da bateria, Raysa Santos, retirou do ritmo do samba a decisão da sua vida profissional. Cursando Educação Física, a rainha da bateria concilia estudo e o amor pela Ciganos, sem deixar a peteca cair. Vivendo um relacionamento serio com a escola de samba, Raysa garante que a mudança da sua vida foi provocada pela Andanças.

    “Carrego a bandeira da escola aonde eu vou. Eu precisava trabalhar em uma área que desse suporte a minha paixão pelo carnaval. Por isso a escolha pela Educação Física. Uma rainha precisa estar bem preparada fisicamente”, alegou Santos.

    Há pouco mais de 50 dias no comando da bateria, mestre Carlos Franscival, mais conhecido como Biju, vem procurando dar uma identidade diferente a bateria da Ciganos. Um dos desejos do novo comandante é esticar o ritmo de samba pelos próximos meses, por meio de um projeto social que deve ser implantado em breve.

    “Nesse pouco tempo conseguimos fazer um trabalho com a garotada do entorno para que eles participassem da bateria”, concluiu o mestre Carlos Franscival.

    https://youtu.be/I_NwfbEiMzg

    Gerson Freitas
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