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    ‘O Carnaval vai passar e a pessoa vai cair na realidade’, diz coordenadora do programa de DST/Aids

    Segundo Silvana Lima, foram notificados no Amazonas, em 2016, 12 mil casos do vírus HIV - Arthur Castro

    O crescimento da Aids entre os jovens de 15 e 24 anos no Amazonas nos últimos 6 anos acendeu o sinal de alerta entre os órgãos de saúde. A coordenadora do programa de DST/Aids da Fundação de Medicina Tropical de Manaus, Silvana Lima, explicou que para mapear essa realidade, foi criado um aplicativo justamente para atingir esse público.

    EM TEMPO – Fale da campanha deste Carnaval para evitar doenças sexualmente transmissíveis.

    Silvana Lima – A campanha do Carnaval é extensa. Geralmente iniciamos bem antes do período carnavalesco, com reuniões com todas as entidades que vão trabalhar em parceria conosco, como a Secretaria de Estado da Educação, algumas outras fundações, maternidades, as secretarias municipais de Saúde e organizações da sociedade civil. O Carnaval é uma festividade de grande massa popular, por isso realizamos a ação de conscientizar a população para que nesse período use preservativo porque naquela hora que pinta a relação sexual, o pior pode acontecer. Quando é uma doença que tem cura, no caso de sífilis e gonorreia, fica menos pesado para a pessoa que se infecta. Agora no caso da hepatite e Aids, isso já é mais complicado, porque são doenças mais difíceis de tratar, principalmente a Aids que não tem cura e tem um estigma social de rejeição muito grande e mais difícil. Começamos a ação desde os ensaios, blocos e bandas, distribuindo preservativos.

    EM TEMPO – A campanha consegue atingir seu objetivo?

    SL – O objetivo é conscientizar a população para que durante a festa de Carnaval, a pessoa possa brincar com segurança porque o Carnaval vai passar. A pessoa vai cair na realidade e não pode estar com uma doença grave que é o vírus da Aids. Ninguém quer que o teste dê positivo para HIV. Então, temos que sensibilizar a popular para se cuidar. O Amazonas é o Estado que tem um alto indicie de casos de HIV, sífilis e outras infecções sexualmente transmissíveis. Por isso, precisamos trabalhar bastante essas questões, porque o acesso de medicamento é mais difícil, principalmente no interior do Estado.

    EM TEMPO – No ano passado, o Amazonas ultrapassou a média nacional em casos de HIV. O que causou esse crescimento?

    SL – Na verdade, desde 2006 o Amazonas vem apresentado uma taxa superior à média nacional. Tem fatores que são positivos e negativos. O negativo é que as pessoas estão se prevenindo menos e se infectando. O positivo é que nós melhoramos o nosso diagnóstico e ampliamos teste rápido para HIV. Antigamente, para fazer o exame que durava 20 dias, o paciente desistia. Hoje temos testes rápidos nas unidades básicas de saúde. Com essa ampliação, nós estamos fornecendo melhores atendimentos e estratégias de prevenção e controle.

    EM TEMPO – E qual a posição do Estado no ranking nacional de casos de HIV?

    SL – Nós estamos em terceiro lugar em nível nacional e na região Norte estamos liderando o ranking. Esse é um dado preocupante e ao mesmo tempo de alerta para que nós possamos melhorar na prevenção. Até junho de 2016, nós tivemos 12 mil casos notificados no nosso banco, sendo que desse número, 82,5% estão em Manaus. Em parte, por conta da população concentrada na capital e porque as pessoas não estão se cuidando realmente. Indiretamente mostra alto índice de gravidez na adolescência e outras infeções sexualmente transmissíveis, e isso traz também consigo o vírus da Aids, porque abre porta para o HIV.

    EM TEMPO – E esses 12 mil casos registrados no Estado estão em tratamento?

    SL – Não! Cerca de 89% já está em tratamento, mas temos 11% fora de tratamento. Alguns que sabem o diagnóstico e não quer fazer o tratamento; outros iniciam e abandonam; e porque o próprio serviço não teve condições de acessar. Hoje a maior referência no Estado é a Fundação de Medicina Tropical, que está com mais de 80% desses pacientes em tratamento aqui. Isso gera uma agenda de espera.

    EM TEMPO – E esses pacientes recebem algum tipo de acompanhamento psicológico?

    SL - Deve ser feito. Na verdade, o paciente HIV positivo deve ter um acompanhamento multidisciplinar que vai desde o médico até o psicólogo e assistente social. O paciente HIV também tem direitos como passe livre, previdência e FGTS.

    EM TEMPO – Qual a faixa etária dos pacientes contaminados com o vírus HIV?

    SL – No Estado do Amazonas está na faixa de 20 a 49 anos de idade, só que nos últimos 6 anos temos observado o crescimento muito grande entre a faixa de 15 a 24 anos. Ou seja, cada vez mais os jovens e adolescentes estão se infectando. Então, estamos voltando a nossa atenção para eles e, com isso, lançamos o aplicativo “Viva Mais”, para que o jovem possa acessar no seu celular. Além de informações, o jovem passa por um questionário onde ele vai pontuando e mudando de etapa, até chegar na etapa máxima. Com isso, conseguimos reconhecer o perfil de quem está acessando mais, faixa etária, zona da cidade. Esse aplicativo enriquece muito e nos serve de ferramenta para montar estratégia de prevenção.

    EM TEMPO - Quais são as zonas de Manaus onde há mais casos de Aids e outras DSTs?

    SL – Hoje temos visto um crescimento nas Zonas Norte e Leste que são as mais populosas. Quanto mais gente, as pessoas se relacionando, não buscando prevenção e informações, acabam se infectando. Historicamente, a Zona Sul sempre foi maior, porque tudo começou por lá.

    EM TEMPO – E a que se credita esse crescimento da Aids entre os jovens?

    SL – Sabemos que o jovem e o adolescente estão iniciando a vida sexual bem mais cedo, isso é realidade no país. Vemos também muitos programas e propagandas incentivando a liberdade sexual e a sexualidade. Isso é bom por um lado, porque mostra o que está acontecendo, alerta os jovens que muitas das vezes não obtêm essas informações na escola. Só que isso tem que ser atrelado a informação de prevenção, coisa que a gente não vê. Já existem leis municipais que obrigam propaganda de incentivo de sexualidade associada à informação de prevenção, só que isso não é seguido pela nossa capital e Estado.

    Muitos jovens na pré-adolescência já são muito independentes com pouca participação dos pais. A escola também, porque não abordam temas de sexualidade, prevenção, gravidez e, com isso, os jovens aprendem de forma errada, que é na emoção. Às vezes, a gente pega no consultório um adolescente que no primeiro diagnóstico apresenta quatro infecções sexualmente transmissíveis, em geral, sífilis, herpes genital, condiloma acuminado e HIV.

    EM TEMPO – Então, a participação de pais e escola é fundamental para reduzir estes números?

    SL – São fundamentais e principalmente a discussão mais ampla nas escolas, que é onde eles estão se relacionando. Não podemos fechar os olhos para essa realidade. Tem que abordar sexualidade, drogas e gravidez na adolescência para que esses jovens sejam informados. Há outros mecanismos também como mídias sociais. Por isso usamos o aplicativo “Viva Mais”, porque os jovens, hoje, estão muito mais antenados nas redes sociais e é lá que ele busca informação.

    EM TEMPO – E quais os sintomas mais comuns das DSTs?

    SL – Dependendo da infecção que foi contraída, os sintomas são vários. Desde uma ferida na área genital que pode representar sífilis até situações que aparentemente você não tem nada, e manifestar apenas com alguns meses, no caso do vírus do HIV. No HIV muitas vezes você não sente nada e em torno de 30 dias você começa a ter sintomas de virose ou faringite e depois regride. Anos depois a pessoa começa a perder peso, ter quadros de infecção respiratórias, diarreia e perda de cabelo. Isso é de acordo com a fase evolutiva da doença. Se for uma gonorreia, uma semana depois a pessoa já está com os sintomas.

    EM TEMPO – Qual a mensagem que a senhora passa para o jovem que vai iniciar a sua vida sexual?

    SL – Eu sempre digo: iniciou a vida sexual, faça o teste pelo ao menos uma vez ao ano. Quanto mais parceiro sexual que você tiver no ano, mais exames por ano você deve fazer, principalmente se não usar o preservativo. Claro que defendemos a utilização do preservativo, mas hoje para combater a infecção do vírus da Aids, existem outras ferramentas como tomada de medicamentos e, com isso, o risco de transmitir para outra pessoa é zero. Então a gente precisa ter essa consciência de que a prevenção precisa estar em primeiro lugar, esteja ou não infectado com HIV. A vida da gente é uma só e precisamos cuidar dela da melhor forma possível.

    Diogo Dias

    EM TEMPO