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    Dia A Dia


    Superando o preconceito que parece não ter fim

    Para a comunidade LGBT de Manaus, a união é a melhor forma de superar as adversidades, principalmente a violência sofrida pelos homossexuais - Divulgação

    Mesmo com todos os mecanismos utilizados nos últimos anos em ações de combate à discriminação e à violência de um modo geral, travestis e transexuais ainda convivem lado a lado e diariamente com o medo e o preconceito de parte da sociedade. Estereotipados como marginais, aberrações, entre outras classificações, os travestis vêm lutando para transformar e apagar essas falsas imagens que não representam a maioria das trans e só contribuem para denegrir a classe.

    Bruna La Close, do movimento LGBT de Manaus, lamenta a discriminação sofrida - Divulgação

    Em Manaus, esses tipos de crimes parecem mais escancarados e alarmantes. Uma pesquisa feita por uma associação LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais e Transgêneros) do Estado da Bahia mostra que o Amazonas é a cidade mais violenta da Região Norte do país para a moradia de homossexuais.

    Essa mesma pesquisa aponta que Manaus é a capital que mais mata LGBTs, sendo que a maioria das vítimas ainda é gay e travesti. “Meu maior medo é de amanhecer morta, vítima de LGBTfobia, crime este que ainda assola e amedronta o Brasil e ao qual as autoridades do nosso país fazem vista grossa”, revelou a presidente do movimento LGBT de Manaus, Bruna La Close.

    Entre os maiores sonhos de Bruna, está a criminalização do LGBTfobia. Rejeitada pela própria família e expulsa de casa após assumir a sua sexualidade, La Close sobreviveu as constantes avalanches de preconceito, lutando e se envolvendo em movimentos para combater o que para ela é a maior das discriminações humanas.

    Atualmente empenhada em realizações de grandes festas, Bruna, antes de se tornar promoter de eventos, sofreu com a rejeição do mercado de trabalho convencional. Sempre firme nas suas posições, a travesti salientou que o preconceito surge de todas as partes e, principalmente, de onde menos se espera.

    “Aos 17 anos, me assumi para a sociedade. De cabeça erguida, enfrentei os piores preconceitos. Chorando, sorrindo, nunca deixei de lutar por um mundo igual. Comecei a trabalhar cedo, ainda criança, mas quando eu fiz a transição de sexualidade, as portas das empresas se fecharam para mim. Ou eu me adequava ao sistema, ou ele me engolia. Como decidi prosseguir com a minha mudança, nunca consegui trabalhar em empresas privadas”, alegou Bruna.

    Na escola, a discriminação era a mesma ou até pior do que a vivida nas ruas. La Close lembra que o preconceito surgia na direção, seguia por outros setores até chegar na sala de aula. Por ter sido registrada com nome masculino, os professores e outros servidores da escola não aceitavam que o travesti fosse chamado por outro nome a não ser pelo que constava no registro civil, o que causava constrangimentos e dor a Bruna. Das agressões sofridas desde a sua transição, as piores ainda são cometidas no seu dia a dia.

    “Quando falo da minha vida escolar, sempre vem à memória os alunos me discriminando, os professores me censurando, não aceitavam a minha sexualidade. Não posso dizer que hoje estou imune a esse tipo de violência, pois, mesmo lutando, vivo isso diariamente, com um olhar de censura de alguém ou um sorriso em tom de deboche. Já fui agredida fisicamente diversas vezes, em escolas, praças, ruas, ônibus e casas de shows por não aceitarem um travesti no local”.

    Esforço resultou no sucesso

    Não diferente da maioria dos relatos das travestis e transexuais, a primeira cantora trans sertaneja de Manaus, Melany Marinho, 26, começou a sentir na pele a dor do preconceito ainda criança, precisamente aos 4 anos de idade, quando revelou para a sua família a vontade de ser menina.

    Devido ao esforço e determinação, Melany conseguiu se inserir no mercado musical - Michael Dantas

    De onde se esperava o maior apoio, veio a rejeição, o choque e o medo. Considerada a pior fase da vida de Melany, a transição não era aceita pela mãe, que passou por um longo processo até acolher a filha como ela desejava ser amparada.

    “No começo, o preconceito foi doloroso, impiedoso e impactante para mim, até porque isso surgiu de dentro da minha casa, onde eu esperava todo o apoio necessário. Mas, hoje, tenho o apoio da minha mãe e de toda a minha família”, disse a cantora.

    Gerson Freitas

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