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    Amazonas será o novo RJ? Apreensões de armas de guerra geram temor

    De acordo com o delegado a entrada de armas na cidade teve um aumento em decorrência a um fenômeno internacional - Foto Arquivo AET

    “Manaus não é o Rio de Janeiro e nem será. Nós estamos combatendo efetivamente o crime para que isso não aconteça". Com essas palavras o delegado Guilherme Torres, titular do Departamento de Repressão ao Crime Organizado (DRCO), definiu o trabalho que vem sendo desempenhado pela segurança pública no Estado. O aumento no número de apreensões de armas de grosso calibre trouxe uma comparação entre a população local do status da violência nas capitais amazonense e carioca.

    Somente entre setembro e outubro deste ano, de acordo com matérias veiculadas no EM TEMPO, foram registradas sete apreensões envolvendo armas e munições de grosso calibre no Amazonas. A última apreensão ocorreu na tarde da última terça-feira (10), quando policias da Rocam, prenderam dois homens que estavam tentando vender um fuzil M964, de uso exclusivo das Forças Armadas, na Zona Leste de Manaus. As apreensões deste tipo tem sido mais comuns, porém, o delegado afirma que as facções criminosas que atuam no Estado não têm o mesmo poder de fogo da capital fluminense.

    "Em Manaus não existe nenhum lugar em que a polícia não entre, diferente do Rio, em que há locais onde a polícia não consegue entrar sem reforço das Forças Armadas". Torres disse ainda que os criminosos perderam poder de fogo nos últimos meses, mas ainda assim utilizam as armas de grosso calibre para tentar intimidar os seus adversários e a polícia.

    "Os criminosos do Amazonas não possuem perfil de utilizar essas armas para confrontos. Eles as usam na realidade para mostrar que têm poder e intimidam os rivais dessa forma".

    Origem das armas

    O delegado disse ainda que a entrada de armas na cidade teve um aumento em decorrência da morte, em 2016, do narcotraficante Jorge Rafaat, na fronteira do Brasil com o Paraguai.

    Rafaat era conhecido como "Rei da fronteira", por dominar o tráfico de armas e drogas na região, além de ser o responsável pela distribuição de entorpecentes e materiais para a proteção das facções Comando Vermelho (CV) e Primeiro Comando da Capital (PCC). Esse assassinato refletiu no comando do tráfico no Amazonas.

    “No estatuto do PCC existe um plano de dominar o tráfico em todas as regiões do Brasil. O ponto onde Rafaat atuava é estratégico, na tríplice fronteira do Paraguai. Integrantes do PCC fuzilaram o Jorge e, depois disso, dominaram a fronteira. Após o assassinato, o tráfico de drogas ficou sob domínio do PCC. O Comando Vermelho viu-se obrigado a coligar com facções menores. Uma delas é a Família do Norte, que atua no Amazonas, para dominar a rota do tráfico que vem pelo rio Solimões", explicou o delegado.

    Traficantes traçam nova rota

    Torres ressaltou que recentemente surgiu uma nova rota do tráfico no rio Japurá para fugir da fiscalização. Ela sai da vila Bittencourt e desembarca em Manaus. O governo colombiano fez, em dezembro de 2016, um acordo de paz com as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc). Aproximadamente 8 mil FARC'anos possuíam armas de grosso calibre, porém, por meio do acordo com o governo colombiano, os integrantes teriam que devolver as armas. Muitos não cumpriram o acordo, pois poderiam vender as armas, que, no mercado negro, custa em torno de R$ 30 a R$ 40 mil.

    Somente entre setembro e outubro deste ano a polícia apreendeu sete armas e várias munições de grosso calibre no Amazonas - Divulgação

    “Algumas dessas armas escoaram para o Brasil e podem estar sendo vendidas para traficantes do Amazonas. A mudança na rota alterou a forma como o crime escoava as suas armas. Ela saía antes das proximidades da Vila Bittencourt, por um rio chamado Caquetá, que sobe até a região de Cauca, no oceano Pacífico. Como os Estados Unidos reforçaram a fronteira para o tráfico não chegar até ao México, restou apenas a rota do Solimões. Os traficantes geralmente escoltam as drogas com armas de grosso calibre e esse armamento ficando no Amazonas. Grande parte segue para o Rio de Janeiro.” disse Torres.

    População 

    O nutricionista, Bruno Almeida, diz que a onda de violência na capital cria um clima de insegurança. "Fica mais difícil andar tranquilamente pela cidade", disse ele que relembrou da ocasião em que foi assaltado e os bandidos entraram na sua residência e levaram vários objetos.

    “Eu estava na frente de casa quando três homens chegaram em um carro branco e ordenaram que eu entrasse. Eles me bateram muito, todos estavam com armas de grosso calibre em punho. Eles fizeram a limpa na minha casa e até hoje não consegui recuperar nada do que foi levado”, disse o nutricionista.

    A universitária Mariana Amorim, relata que já presenciou e já foi assaltada duas vezes em Manaus.

    “Eu estava em uma praça quando dois homens, que estavam a pé, renderam um idoso e levam o veículo dele. No dia que fui assaltada, eu estava em uma lanchonete quando um homem chegou com uma pistola na mão e rendeu todos os clientes. Acompanho o noticiário diariamente e vejo que a cada dia o modo de agir dos bandidos está mudando. Espero que nossa linda Manaus não torne-se um Rio de Janeiro”, relembrou a universitária - que escolheu a capital para viver, mas já pensa em se mudar.

    Manaus X Rio de Janeiro

    De acordo com relatos históricos, a criminalidade organizada no Rio de Janeiro se constituiu há muito mais tempo do que em Manaus. Iniciando no final do ano de 1970.

    Para o sociólogo, Davyd Spencer, o acúmulo social desta experiência no Rio permitiu que as lideranças do crime organizado formulassem um conjunto de estratégias para fortalecer a economia do tráfico de drogas. Com isso, eles conseguem enfrentar a repressão das agências de segurança pública e resistir a concorrência pelo controle dos territórios.

    “A principal diferença de Manaus para o Rio está no domínio dos territórios e no nível de formação e interação da rede criminosa, que tende a exercer controle sobre a população e o mercado da droga. Poderíamos dizer que a estrutura 'profissional' da criminalidade organizada na capital carioca se distingue por seu nível de sofisticação, hierarquização e capacidade de ação, apoiado em um aparato bélico de grosso calibre, que só agora começa a ocorrer em Manaus, com maior frequência,” disse o sociólogo.

    Ainda de acordo com ele, Manaus pode se tornar como o Rio de Janeiro, em termos do alcance da criminalidade organizada e da repercussão em formas de violência. Para ele, o Brasil pode caminhar na direção do que hoje ocorre no México, com a atuação dos cartéis que dominam boa parte do território nacional e na contaminação e implosão do sistema político, resultado da chamada "narcopolítica".

    “As facções criminosas buscam imitar aquelas do eixo Rio-São Paulo, tentando, por exemplo, ampliar seu domínio sobre a massa carcerária e a exercer controle sobre os territórios, sobre fronteiras e rotas do tráfico de drogas. Talvez haja muito mais semelhanças no modo de operação do que propriamente diferenças. Poderíamos falar de certas diferenças em termos das características contratuais desses grupos do que propriamente de modus operandi,” finalizou Spencer.

    Elias Pedroza
    EM TEMPO

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