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    Abandono


    Cidade do aço: Siderama é saqueada em plena luz do dia em Manaus

    Os saqueadores não se identificam e nem revelam quem é o comprador das lâminas de aço, ferro, tubulação e telhas de zinco

    Favela "Vila Nova" avança sobre o terreno que um dia pertenceu à Siderama | Foto: Ricardo Oliveira

    Manaus - São 12h35 de quinta-feira, 10/05. Nas proximidades do 9º Distrito Naval da Marinha do Brasil, delimitada como área de segurança nacional, dois carros - um caminhão-baú (placas JXJ 8327) e um Fiat Uno (placas JXK 9873) trafegam na Alameda General Afonso Albuquerque Lima. A rua foi estreitada pelo avanço do mato e só acaba na beira do Rio Negro.

    Os carros estacionam ao lado de uma gigantesca estrutura de aço. Do caminhão descem cinco homens, que começam a cortar aço e lingotes de ferro, tubulação e a retirar o que ainda resta da cobertura de zinco. Eles não usam equipamentos de segurança. Ao ver a câmera do fotógrafo do EM TEMPO, Ricardo Oliveira, um deles grita em tom intimidador.

    – Olha aí, vocês não podem “filmar” aqui não, hein! Estou avisando!

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    A prudência recomenda cautela. Mas, como jornalista parece que gosta mesmo de viver perigosamente, os repórteres avançam e constatam os motivos que os trouxeram ali. A estrutura, que vem sendo roubada diariamente, é patrimônio da antiga Companhia Siderúrgica do Amazonas (Siderama), que já foi considerada a “Cidade do Aço” e chegou a produzir 30 mil toneladas de laminados de aço ( produto mais rentável) por ano.

    Homens, que não se identificam, retiram o material de aço e ferro que são separados em lotes e embarcado em um caminhão-baú
    Homens, que não se identificam, retiram o material de aço e ferro que são separados em lotes e embarcado em um caminhão-baú | Foto: Ricardo Oliveira

    Em outubro de 2012, a Secretaria de Portos da Presidência da República (SEP) chegou a anunciar a transferência da área da Companhia para a Secretaria de Portos do Amazonas, que seria utilizada na implantação do novo porto público do Polo Industrial de Manaus (PIM).

    Mas o que se vê hoje é o que restou da Siderama sendo desmontada e vendida como sucata bem ali, “nas barbas da Marinha”. O desmonte não é tudo. Após uma invasão, uma favela se alastrou pela área pertencente à siderúrgica e hoje já abriga perto de 400 casas, algumas de alvenaria e com carros estacionados na porta. Tudo isso numa área de segurança nacional – entre a Marinha e o Porto do Ceasa, o cartão de visita para turistas que transitam em meio ao lixo, voos rasantes de urubus e mau cheiro.

    O mato avança sobre as estruturas que um dia identificaram a Siderama como um projeto grandioso
    O mato avança sobre as estruturas que um dia identificaram a Siderama como um projeto grandioso | Foto: RicardoOliveira

    É exatamente ali, em plena luz do dia, que uma verdadeira lenda dos lindos sonhos delirantes de desenvolvimento do Amazonas está sendo destruída e sucateada por espertalhões, que vendem lingotes de aço, ferro, peças de metal e parafusos a ferros-velhos. Ou, quem sabe, a donos inescrupulosos de estaleiros . Isso vem ocorrendo já há algum tempo. E ninguém faz nada! Sob a ameaça dos “donos do pedaço”, a reportagem tenta desvendar o que está acontecendo. Mas a resposta vem sempre em tom ameaçador, pois os homens que trabalham no desmonte sabem que estão cometendo um roubo e que isso poderá ter consequências sérias.

    — Vocês trabalham aqui? –, pergunta o repórter.

    — Não. A gente é pago para serrar os ferros, desmontar as peças e levar para quem paga a gente.

    — E quem é que paga? É algum ferro velho?

    — Ninguém sabe quem é. O dono vem aqui, paga, e a gente leva.

    — Mas quem é o dono — insiste o repórter.

    — A gente não conhece – desconversa.

    — Por que você não quer falar? Tem alguma coisa a esconder ? — Tem coisa que é melhor ficar calado. Falar pra quê? – responde o homem que atende pelo nome de Abel. Parte das janelas e telhas de zinco foi levada pelos invasores que deram o nome à comunidade de Vila Nova. O próprio Abel diz que está construindo uma casa na área, apesar de morar em casa própria, no bairro de Alvorada.

    — Você vai alugar ou vender a casa daqui?

    — Vou alugar a de lá e morar nessa daqui. Porque o lugar é melhor, fica na beira do Rio Negro.

    O cenário que um dia abrigou a antiga “Cidade do Aço” – hoje cidade fantasma – é desolador. O mato avança sobre as paredes de galpões abandonados e nas edificações menores, que um dia formavam os escritórios da siderúrgica. As instalações não têm mais janelas e muito menos telhado. Foram saqueadas pelos invasores de terra para construção 
    de seus barracos.

    O sonho de um visionário chamado Sócrates Bonfim

    Aprovada em 1964, no governo Plínio Coelho (1963-1964), a Cidade do Aço (Siderama) embalou sonhos de um visionário chamado Sócrates Bonfim, que em toda a sua vida nunca deixou de acreditar que a siderúrgica era viável, e lutou muito para transformar esse sonho em realidade. O industrial tinha motivos de sobra para tentar convencer o governo federal – e até tentar buscar incentivos de grupos estrangeiros.

    A Siderama chegou a produzir 30 mil toneladas de aço por ano
    A Siderama chegou a produzir 30 mil toneladas de aço por ano | Foto: Ricardo Oliveira

    Estudos apontavam que quando ficasse pronta, a Siderama produziria algo em torno de 80 mil toneladas de ferro gusa e 60 mil de laminados de aço por ano. “A Cidade do Aço” entrou em falência em 1996, completamente abandonada pelos burocratas dos governos Estadual e federal, e a produção nunca passou de 30 mil.

    Para transformar a siderúrgica em realidade, Sócrates Bonfim chegou a lançar 500 milhões de cruzeiros em ações. No final do prazo para a compra, foram vendidos 400 milhões de cruzeiros em ações, frustrando o limite estabelecido em Ata.

    Com posse de Arthur Reis, em 1964, primeiro governador nomeado depois do golpe militar, o Estado assumiu o compromisso de levar em frente a ideia de Sócrates Bonfim. Reza a lenda que o governador ameaçou até romper com os militares, porque o ministro Roberto Campos determinou que o projeto fosse reduzido.

    A Siderama só começou a produzir em 1969. Mas já nasceu endividada. Somente a obra havia consumido 8,5 bilhões de cruzeiros, que deveriam ser pagos em dez anos, com o prazo de três anos de carência.

    A cidade do aço hoje não passa de uma usina fantasma
    A cidade do aço hoje não passa de uma usina fantasma | Foto: RicardoOliveira

    Mesmo estando ao lado do Polo Industrial de Manaus – o que facilitaria a comercialização de seus produtos com as empresas instaladas na Zona Franca de Manaus e possuir estudos de empresas estrangeiras que garantiam a viabilidade industrial e comercial, a produção da Siderama nunca foi viável.

    Abandonada e agonizando por longos cinco anos, a siderúrgica faliu 1996. Um grupo de 250 funcionários, verdadeiros “heróis da resistência” ainda lutaram para levar o projeto adiante. Mas não conseguiram.

    Marinha diz que não há invasões na Área de segurança

    Consultada sobre a invasão da área e o desmonte da siderúrgica, que fica ao lado do 9° Distrito Naval, a Marinha do Brasil se limitou a dizer que nada disso vem ocorrendo em suas instalações.

    Confira a nota de esclarecimento enviada pela assessoria de imprensa da Marinha ao jornal EM TEMPO:

    “Com relação ao questionamento do Jornalista do Jornal Em Tempo, Mário Adolfo, referente à invasão no terreno da antiga Companhia Siderúrgica da Amazônia (Siderama), a Marinha do Brasil, por intermédio do Comando do 9° Distrito Naval (Com9ºDN), esclarece que na fração de terreno da antiga Siderama cedida à Marinha do Brasil não se constatam quaisquer construções de habitações”.

    No dia 12 de agosto de 2013, o então Comandante do 9º Distrito Naval, Vice-Almirante Domingos Savio Almeida Nogueira, e o Superintendente do Patrimônio da União no Amazonas (SPU-AM), à época, Dr. Silas Garcia Aquino de Souza, assinaram o Termo de Entrega de parte do terreno da antiga Companhia Siderúrgica da Amazônia (SIDERAMA) para a Marinha do Brasil.

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