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    TURISMO


    'Disney na Amazônia': projeto do Amazon BioPark não atrai investidores

    Projeto do Parque da Biodiversidade do Amazonas foi apresentado oficialmente em 2017, como proposta para impulsionar o turismo na região. No entanto, um ano depois, o projeto ainda não saiu do papel

    Projeto do parque ainda contempla um teleférico que se deslocaria por cima da copa das árvores | Foto: Ione Moreno/EM TEMPO

    Manaus - Em 2017, os amazonenses ganharam uma nova esperança de investimento no turismo regional: o Parque da Biodiversidade do Amazonas, ou, simplesmente, Amazon BioPark.

    O projeto, concebido pela Empresa Estadual de Turismo do Amazonas (Amazonastur) foi apresentado nas diversas instâncias, públicas e privadas, como a Assembleia Legislativa do Estado do Amazonas (Aleam)e até para empresas e entidades estrangeiras, como foi o caso do vice-presidente da Disney, Greg Hale.

    No entanto, passado um ano da apresentação geral do projeto, o parque ainda não saiu do papel e das apresentações feitas a operadores de turismo e entidades que trabalham com o turismo no Brasil e no mundo. Segundo a Amazonastur, o projeto está sendo apresentado em feiras de turismo do mundo inteiro, como na International Hotel Investment Forum (IHIF), em Berlim, na Alemanha.

    Em 2017, o projeto foi apresentado a investidores brasileiros e estrangeiros, como o vice-presidente da Disney, Greg Hale.
    Em 2017, o projeto foi apresentado a investidores brasileiros e estrangeiros, como o vice-presidente da Disney, Greg Hale. | Foto: Arthur Castro/Arquivo EM TEMPO

    "O trabalho de captação de recursos continua em andamento, mas o projeto ainda não foi contemplado. No segundo semestre de 2018, as ações devem continuar visando alcançar os investimentos necessários para a realização desse e de outros projetos em prol da melhoria na infraestrutura turística do estado e promoção do destino Amazonas no mundo", informou, por meio de nota, a empresa.

    Histórico

    O projeto começou a ser concebido em 2010, pela então presidente da Amazonastur, Oreni Campelo Braga. Oreni comandou a Amazonastur entre os anos de 2003 e 2017, logo após a empresa ter sido desmembrada da antiga Secretaria Estadual de Cultura e Turismo, na gestão de Eduardo Braga frente ao governo do Estado.

    No entanto, foi apenas em 2015 que começou a passar para as conversas formais, quando foi apresentado ao então ministro de Estado do Turismo, Henrique Eduardo Alves.

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    "Esse projeto nasceu no meu coração em 2005. Mas começamos a passá-lo para o papel, mesmo, em 2008, quando toda a equipe resolveu comprar a ideia. Acredito que quando alguém tem um sonho, sozinho, é apenas um sonho. Mas quando todos resolvem comprar a ideia, deixa de ser apenas um sonho e entra na realidade", conta a ex-secretária.

    O projeto

    Se pronto, o Amazon BioPark contaria com 10 ambientes: orquidário, arboreto de plantas medicinais, aquário internacional, casa de caboclo, 66 malocas das diversas tribos indígenas da Amazônia, um memorial da época da borracha, museu arqueológico, trilhas interpretativas, borboletário e teleférico sobre a copa das árvores do parque, em uma área construída de 70 mil metros quadrados. O parque funcionaria em regime de parceria público-privada (PPP).

    Oreni Braga foi presidente da Amazonastur entre os anos de 2003 e 2017, e é a idealizadora do projeto do Amazon BioPark
    Oreni Braga foi presidente da Amazonastur entre os anos de 2003 e 2017, e é a idealizadora do projeto do Amazon BioPark | Foto: Márcio Melo/EM TEMPO

    "Quando o turista encontra um operador de turismo lá fora, ele tem quatro dúvidas principais: se ele pode navegar no maior rio do mundo, se ele pode fotografar borboletas, se ele pode fotografar bromélias e orquídeas, e se ele pode visitar uma tribo indígena", explica Oreni. 

    A ex- secretária acrescenta que o projeto do BioPark contempla tudo  o que um turista procura. " Um grande borboletário, de 1000 metros quadrados, um orquidário de 1000 metros quadrados, e um aquário que pode ser considerado o maior da América Latina, além de ter um ponto cultural de cada tribo indígena do Amazonas, distante 200 metros um do outro", afirma Oreni Braga.

    Ainda não existe o local definitivo de instalação do parque, mas três são apontados: uma área nas proximidades do terreno da Cidade Universitária, na rodovia estadual AM-070, a "Manoel Urbano"; em Iranduba.  Uma área no bairro Tarumã, na Zona Oeste de Manaus; e outra, na rodovia federal BR-174, nas proximidades do município de Presidente Figueiredo.

    Uma quarta área no Distrito Industrial, que seria cedida pela Superintendência da Zona Franca de Manaus (Suframa), ainda chegou a ser cogitada pela empresa, mas logo foi descartada.

    Projeto do parque ainda contempla um teleférico que se deslocaria por cima da copa das árvores
    Projeto do parque ainda contempla um teleférico que se deslocaria por cima da copa das árvores | Foto: Ione Moreno/EM TEMPO

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    O projeto foi orçado em R$ 500 milhões de reais, e a estimativa de sua entrega é o prazo de cinco anos. Estancado em 2017 por conta do término do mandato temporário de David Almeida frente ao Governo do Estado, outro fator ainda colaborou para que o projeto desse uma pausa: a falta de um estudo de viabilidade técnica, que custará R$ 5 milhões aos cofres do Estado.

    "Sem um estudo, não há a possibilidade de apresentar esse projeto a investidores estrangeiros", afirma Oreni.

    Uma voz contraditória

    Embora a ideia do Amazonas BioPark seja considerada boa para o turismo do Amazonas por alguns setores, alguns especialistas ainda veem a ideia com maus olhos. É o caso da professora Márcia Raquel Guimarães, do curso de Turismo da Universidade do Estado do Amazonas (UEA). Segundo ela, o projeto é inviável por vários motivos, mas um deles é a falta justamente do estudo de viabilidade. 

    "Não tem um plano de marketing ou plano de negócios. Não há uma projeção geral do parque, não se sabe exatamente quanto vai custar, qual o mercado, qual o público-alvo. Não tem nada definido. Como convidar alguém para investir em um projeto sem saber quanto vai custar? Ninguém vai investir sem saber qual o retorno do investimento", afirma a docente, que também atua como coordenadora do Laboratório de Turismo da Escola Superior de Artes e Turismo (Labotur/Esat), na UEA.

    Uma arena de eventos, voltada para eventos culturais e científicos. também integra a estrutura do parque, segundo a sua maquete.
    Uma arena de eventos, voltada para eventos culturais e científicos. também integra a estrutura do parque, segundo a sua maquete. | Foto: Ione Moreno/EM TEMPO

    Márcia Guimarães, que é mestre e doutoranda em Turismo e Hotelaria pela Universidade do Vale do Itajaí (Univali), cita o caso do parque temático Beto Carrero World, localizado em Penha, no estado de Santa Catarina. Segundo ela, para que o parque esteja localizado onde está hoje, foram necessários vários estudos, de anos e muitos anos.

    "Lá, estamos falando de Sul e Sudeste, que tem uma malha rodoviária impecável. Só que estamos de Amazonas. Nossa acessibilidade é ruim, porque temos apenas um aeroporto e apenas uma estrada. Se estamos querendo vender a sustentabilidade da Amazônia, a floresta em pé, com toda a cultura da Amazônia, para quê construir um parque no meio da floresta, com toda essa infraestrutura?", questiona.

    Solução

    A docente, que também atua como integrante do Conselho Municipal de Turismo (Contur), cita o caso do parque Unipraias, localizado em Balneário Camboriú (SC), também na região do Vale do Itajaí, e pensa em um parque similar a ele como uma alternativa ao projeto do Amazon BioPark. Segundo ela, o projeto da Amazonastur, da forma como foi apresentado, representa um impacto enorme para o meio ambiente, e sem necessidade.

    Parque Unipraias está localizado no município de Balneário Camboriú, na região do Vale do Itajaí, em Santa Catarina. Um dos pontos do parque é um mirante com vista para a cidade e o mar.
    Parque Unipraias está localizado no município de Balneário Camboriú, na região do Vale do Itajaí, em Santa Catarina. Um dos pontos do parque é um mirante com vista para a cidade e o mar. | Foto: Reprodução

    "Esse parque fica em uma montanha, encrustado na Mata Atlântica. Da forma como está instalado, não é invasivo. O Unipraias, todo ano, gera novos produtos, e produtos de baixo impacto que geram experiência, de acordo com um local de menos impacto", explica Márcia.

    A professora da UEA deixa claro que não é contra parques temáticos, mas sim da forma como o BioPark foi planejado, e segundo ela, é preciso voltar a atenção para as atrações que já existem, como o Museu da Amazônia (Musa). 

    "Ninguém vai deixar de ir para Beto Carrero ou Orlando, nos EUA, para vir para o Amazonas. Se eu estou na maior floresta do mundo, não quero experiências artificiais, e sim experiências autênticas. É possível ter um parque temático ligado à biodiversidade, claro, mas precisamos olhar para o que já temos, e não priorizar algo totalmente novo".

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