Restaurantes


Restaurantes 'de bairro' sofrem com a crise do novo coronavírus, no AM

Amazonas já registrou 54 casos confirmados da doença e uma morte. Estabelecimentos do ramo alimentício reforçavam a higienização de produtos e reduziram mão de obra

Donos de restaurantes "de bairro" sofrem para se adaptar às novas dinâmicas de mercado e sobreviver à crise
Donos de restaurantes "de bairro" sofrem para se adaptar às novas dinâmicas de mercado e sobreviver à crise | Foto: Reprodução

Manaus - Com a suspensão dos atendimentos em bares e restaurantes pelo período de 15 dias em Manaus, como medida de prevenção à proliferação do novo coronavírus, os donos de pequenos estabelecimentos, os chamados "restaurantes de bairro", estão sofrendo para se adaptar à nova dinâmica de mercado.

Miralva Souza do Amaral, de 64 anos, trabalha cozinhando para as pessoas há aproximadamente seis anos. Neste período, foi de vendedora de espetinhos de churrasco a proprietária do seu restaurante. Ela conta que, além das pessoas que frequentavam o "Frente de Quintal", antes do Covid-19 eram cerca de 20 marmitas vendidas, mas agora  a situação é diferente. "tem dias que meu entregador nem trabalha", conta.

O Restaurante Frente de Quintal, no bairro Flores, veio após a dona começar vendendo espetos de churrasco
O Restaurante Frente de Quintal, no bairro Flores, veio após a dona começar vendendo espetos de churrasco | Foto: Reprodução

O restaurante de Miralva Souza é localizado entre os bairros Cidade Nova e Flores, em Manaus. Sem os clientes, a cozinheira diz que não sabe mais a quem recorrer durante este período de crise. Se a proliferação do vírus continuar a crescer de forma exponencial, o "Frente de Quintal" pode não ser mais suficiente para sustentar Miralva e o filho.

"Estamos funcionando apenas para entrega, são apenas seis quentinhas que faço, porque o pessoal não pode almoçar aqui e quem almoçava está de quarentena, agora forneço para o pessoal do posto, quando pedem. Antigamente saíam cerca de 20 quentinhas. Se o período continuar, não tenho mais nada, só tenho esse lugar como fonte de renda. Como compra comida e pagar luz e água?", questiona ela.

Assim como Miralva, diversos donos de restaurantes estão enfrentando a mesma situação. Àqueles que resolvem adentrar o mercado digital, por meio de aplicativos como iFood, Rappi e Uber Eats, resta a missão de passar confiança ao consumidor e demonstrar que, apesar da pandemia do Covid-19, ainda podem seguir procurando os estabelecimentos.

Cortes pela metade no quadro de funcionários 

Joana Bentes, de 49 anos, conta que o foco principal do restaurante "Cantinho da Tia Mara" é justamente a entrega em domicílio. Ainda assim, ela afirma que o movimento  "caiu cerca de 40%", o quadro de funcionários diminuiu de seis para três e o que eram 70 vendas antes, hoje em dia não chega à metade.

"Todos os pedidos estão sendo pelo telefone, nossa facilidade é que sempre foi assim. Estamos apenas com um motoqueiro, antes trabalhávamos com três, muito pela diminuição no numero de pedidos. Todas as empresas que vendíamos estão fechadas. Eu espero que essa situação acabe, o movimento caiu muito mesmo, trabalhamos só com os clientes que continuaram saindo. Estamos com isso há quatro anos e nunca tinha visto tão vazio", revela a cozinheira.

O Cantinho da Tia Mara é de Mara Bentes, mãe de Joana Bentes, cozinheira e responsável pelo estabelecimento
O Cantinho da Tia Mara é de Mara Bentes, mãe de Joana Bentes, cozinheira e responsável pelo estabelecimento | Foto: Reprodução

O restaurante funciona apenas com a atendente, a cozinheira e o entregador; simplificando o processo o máximo possível. "Fiquei só com uma atendente porque não posso fazer os dois", esclarece Joana. Além da baixa procura, ela admite que a preocupação com o contágio do coronavírus também foi um fator determinante para a redução no número de pessoas e que as preocupações com a higiene do local não param.

"Estamos com todos os cuidados, para higienizar os alimentos, todos usando máscara, luva, touca. É apenas eu na cozinha, a outra só pede as coisas da porta e higieniza assim que entrego tudo. Terminou o movimento? Limpo tudo com água sanitária. Temos que ter cuidado com a gente e com os clientes. Espero que o movimento volte a subir, porque a gente não tem como parar não, esse restaurante é de família, estamos todos desempregados", conta Joana.

O iFood anunciou, na última quarta-feira (18), que terá um fundo de assistência de R$ 50 milhões para restaurantes durante a crise. A empresa também vai permitir que estabelecimentos antecipem recebimento dos pagamentos e instituiu a opção "receber sem contato físico", onde o usuário pode combinar onde o pacote deve ser deixado. Lembrando que, para tanto, é necessário optar pelo pagamento digital por cartão de crédito ou débito via aplicativo.

Redução de 70%

"Como trabalhamos na área japonesa nossa demanda caiu 70%. Pessoal está com muito receio pela maioria dos materiais usados para cozinhar vir de fora. Sem contar que todos esses materiais sofreram um aumento enorme no preço e, para que nossos clientes não saiam de casa, não podemos aumenta os valores do Sushi", afirma Benjamin Fernando Ferreira, de 26 anos, dono do restaurante "Sushi Hot Love". 

Restaurante Sushi Hot Love foi criado em 2017 e há 2 anos trabalha exclusivamente com entregar via delivery
Restaurante Sushi Hot Love foi criado em 2017 e há 2 anos trabalha exclusivamente com entregar via delivery | Foto: Reprodução

Fernando trabalha desde 2017 no ramo da culinária oriental em Manaus. Desde o começo da crise, reduziu em dois o número de funcionários no restaurante. Atualmente, os ganhos com o "Sushi Hot Love" servem para sustentá-lo, junto com a mãe e duas irmãs que vieram do interior do Estado para estudar. Preocupado com a instabilidade do momento, ele tenta inovar para continuar em movimento.

"Estamos fazendo o possível para continuamos abertos. Estou lançando várias promoções e conversando com clientes para que não entrem em desespero com essa situação, porque caso tenhamos que fechar iremos fica sem condições financeiras. Até porque não sou de família rica e também tenho o restaurante para manter quem trabalha comigo. Já conversei com os colaboradores para regrar um pouco a alimentação, para que não venha nos faltar", conta ele.

Como está desde o princípio com o iFood, o dono do "Sushi Hot Love" afirma não ter tido dificuldades para seguir às recomendações de higienização. "Trabalhamos sempre com luvas e máscaras. Além disso, nossos motoqueiros carregam álcool em gel no bolso para segurança tanto deles quanto de nossos clientes", diz.

A crise nos estabelecimentos como bares e restaurantes não parece estar perto de acabar. Isso porque os casos de coronavírus continuam a crescer no Amazonas. Em entrevista coletiva realizada nesta quarta-feira (25), o governador, Wilson Lima, e a presidente-diretora da Fundação de Vigilância em Saúde (FVS-AM), Rosemary Costa Pinto, anunciaram que o Estado chegou a 54 confirmados com o Covid-19 e uma vítima fatal.