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    EFEITO PANDEMIA


    Com 90% de perdas, cervejarias de Manaus buscam recuperar o setor

    Retomada é positiva, mas é observada com cautela pelos proprietários de cervejarias e distribuidoras em Manaus

    Em meio à paralisação o volume de produção na cervejaria Rio Negro caiu de 50 mil para 4 mil litros | Foto: Lucas Silva

    Manaus – O segmento das cervejarias no Brasil vinha experimentando bons resultados nos últimos anos. A expectativa para 2020 era das melhores. Contudo, a pandemia da Covid-19 desestabilizou o setor. Em Manaus, algumas cervejarias chegaram a apresentar perdas em torno de 90% em seus faturamentos, algo que fez com que os proprietários olhassem com mais cautela para a retomada do segmento.

    Segundo a Associação Brasileira da Indústria da Cerveja (CervBrasil), o Brasil ocupa o posto de terceiro maior produtor mundial de cervejas e o consumo anual da bebida é de 14 bilhões de litros. Em Manaus, durante a quarentena, mesmo com a procura por bebidas alcoólicas aumentando em 30%, conforme proprietários de comércios de bebidas ouvidos pelo EM TEMPO, os prejuízos ainda foram grandes para as cervejarias e distribuidoras.

    Proprietário da Cervejaria Rio Negro, Bruno da Silva
    Proprietário da Cervejaria Rio Negro, Bruno da Silva | Foto: Divulgação

    Segundo o proprietário da Cervejaria Rio Negro, Bruno da Silva, 36 anos, durante a paralisação do comércio não essencial, entre eles, bares e restaurantes, o seu empreendimento perdeu praticamente todo seu faturamento, e alcançou o porcentual de 97% de prejuízo. “Foi muito difícil segurar as pontas, tendo que manter a fábrica e pagar as contas”, diz.

    Ele conta, ainda, que acabou com um estoque muito grande durante a crise, uma vez que, anteriormente, era comum vender mais de 50 mil litros de cerveja, “Em meio à paralisação esse volume caiu para 4 mil litros. Mas, mesmo com o estoque cheio, não tivemos problemas com perdas de produtos acabados e tudo graças ao nosso excelente controle de qualidade e processos”, afirma.

    Agora, com a reabertura de bares e restaurantes, Burno informa que alguns pontos de venda estão indo muito bem durante a retomada, considerando as mudanças de horário e as medidas de prevenção. Segundo ele, era tudo que o setor precisava para pensar em recuperação. Hoje, as expectativas são positivas para o restante do ano.

    Um dos sócios da Cervejaria Porto de Lenha, Hiran Gonçalves, 28 anos, conta que a empresa chegou a ter 50% do seu faturamento perdido no período mais crítico da crise criada pela pandemia do novo coronavírus. De acordo com ele, o que fez o seu negócio se manter foi a melhora de sua estrutura de entregas, com o sistema de delivery.

    A Cervejaria Porto de Lenha chegou a ter 50% do seu faturamento perdido
    A Cervejaria Porto de Lenha chegou a ter 50% do seu faturamento perdido | Foto: Raphael Tavares/Em Tempo

    Hiran também descreve que não foram atingidos com a perda de produtos, pois as cervejas são muito perecíveis e ele sempre buscou manter seus estoques com o mínimo de materiais possíveis, para ter sempre novas opções em seus pontos de venda.

    “Com o aumento de Covid-19 na Europa, no início do ano, reduzimos a produção, prevendo o que poderia acontecer aqui [em Manaus. Dessa forma conseguimos dar vazão ao nosso estoque, sem perdas. Além disso, com a diminuição da produção redobramos os cuidados com as matérias primas, aumentando a rotina de inspeção, para garantir a preservação”, explica.

    Mesmo com a reabertura e com a volta de alguns consumidores aos pontos de venda, Hiran afirma que o momento é de cautela e que o ideal é que o setor não se precipite, pois a saúde da população deve ser a prioridade. “Acredito que uma recuperação completa para o segmento só irá ocorrer quando tivermos uma vacina, pois sempre teremos pessoas receosas de frequentar lugares como bares, restaurantes e casas de show. Lugares que alimentam nossas empresas”, avalia.

    Mesmo com a reabertura do comércio não essencial, Hiran afirma que o momento é de cautela
    Mesmo com a reabertura do comércio não essencial, Hiran afirma que o momento é de cautela | Foto: José Cruz/Agência Brasil

    Sommelier de cervejas e proprietário da distribuidora 3beers Cervejas Especiais, Gustavo Scherer, 39 anos, diz que o seu faturamento caiu entre 85% e 90%, pois o seu principal público são empresas. Segundo ele, a inadimplência disparou e alguns clientes estão com boletos em aberto desde março, ou seja, apresentando quatro meses de atraso.

    “Para vender o estoque de produtos prontos que já tínhamos, tivemos que derrubar os preços. O que acabou sendo muito bom para o consumidor e nos ajudou também, pois não perdemos nossos produtos”, explica.

    Gustavo avalia que o momento ainda é muito incerto e que, mesmo com a retomada das atividades comerciais em Manaus, é preciso se atentar para outros fatores além do consumo direto dos clientes. “Temos aí o dólar alto também e ele puxa para cima os custos de insumos (todos importados) para produção dessas cervejas. O impacto disso virá em forma de reajuste de preços nos próximos meses”, observa.

    Lucro da Ambev cai durante a pandemia

    A gigante de bebidas, que tem planta fabril em Manaus, teve lucro líquido de R$ 1,2 bilhão, bem abaixo do consenso das estimativas do mercado compiladas pela Refinitiv, de R$ 2,503 bilhões. As vendas de cerveja caíram em 11,5% no primeiro trimestre, quando comparado com igual período de 2019, e derrubar o lucro da companhia em 56%.

    As vendas de cerveja no Brasil caíram em 11,5% no primeiro trimestre
    As vendas de cerveja no Brasil caíram em 11,5% no primeiro trimestre | Foto: Márcio Melo

    A fabricante das cervejas Budweiser, Corona e Stella Artois apurou receita líquida de R$ 12,6 bilhões, 0,3% menor em relação ao primeiro trimestre de 2019. O lucro não foi impactado apenas pela redução nas vendas, mas também pelo aumento de custo de produtos vendidos de 10,5% no primeiro trimestre, quando comparado com janeiro a março de 2019.

    Passado o primeiro trimestre, a Ambev aponta que abril foi ainda pior: os volumes de venda despencaram 27%. Nesse volume estão todas as bebidas produzidas pela companhia, alcoólicas ou não.

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