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    Economia


    Abandonado, Ariaú Amazon Tower vive ‘fim’ entre brigas judiciais de herdeiros e dívidas

    O hotel que que já hospedou as maiores personalidades do mundo, agoniza e vive um fim melancólico - foto: Ricardo Oliveira
    O hotel que que já hospedou as maiores personalidades do mundo, agoniza e vive um fim melancólico - foto: Ricardo Oliveira

    A macaquinha Caiarara, uma espécie exclusivamente brasileira que está na lista de extinção, continua vindo comer sementes de girassol na mão da funcionária Lídia, todos os dias, por volta das 11h. Da mesma forma, as araras mantêm o ritual de logo ao amanhecer vir comer castanhas na mão da mesma funcionária, no deck que dá acesso ao hotel. O lanche é repetido no final da tarde. Os animais e os poucos funcionários são os únicos que parecem não ter abandonado o Ariaú Amazon Tower, que um dia já foi o maior hotel de selva da Amazônia.

    Praticamente abandonado desde setembro do ano passado, quando recebeu a última visita de seu criador e proprietário, o empresário Ritta Bernardino, o Ariaú tem uma dívida milionária com a Petrobras Distribuidora, que chega a R$ 1,5 milhão, motivo suficiente para que o Tribunal de Justiça do Amazonas (Tjam) o colocasse em leilão ao menos por duas vezes, pelo valor de R$ 26 milhões. Esforço inútil, não apareceu comprador.

    A dívida com a estatal não é o único problema do hotel. Uma briga entre os herdeiros do empresário Francisco Ritta Bernardino também tornou inviável levar o empreendimento em frente. Isso desgostou Ritta, que estaria sofrendo pressão para vender o hotel e se recusa.

    Para conferir o que se fala de boca em boca em Manaus, sobre o “fim melancólico do Ariaú”, o EM TEMPO enviou uma equipe de repórteres ao hotel. O que a reportagem encontrou foi um quadro desolador e decadente. Hoje, o Ariaú Amazon Tower, que já hospedou o ex-presidente dos Estados Unidos Jimmy Carter, o oceanógrafo francês Jacques Cousteau, o milionário Bill Gates, os atores John Voight e Jenniffer Lopez, o rei Juan Carlos e a rainha Sofia, da Espanha, o premier alemão Helmut Kohl, a banda Scorpions – só para citar algumas celebridades mundiais –, é um espectro do que já foi um dia. As passarelas de madeira, que interligavam as oito torres, apodreceram sob o rigoroso inverno amazônico e estão ruindo. As que sobrevivem à umidade estão cobertas de folhas mortas e lodo.

    É perigoso até mesmo caminhar sobre elas. Duas torres, a de nº 1 e de nº 3, estão comprometidas e serão demolidas. Os demais apartamentos que ainda estão arrumados desde que o último hóspede partiu, estão impregnados do cheiro de mofo e ocupados por aranhas e outros insetos, os únicos hóspedes no momento. Também há cupim corroendo vorazmente o mais ousado sonho do turismo de selva. Sem manutenção, volta e meia o hotel fica sem luz, pois a ventania dos temporais derruba galhos de árvores sobre a rede elétrica que leva energia do município de Iranduba. E aí não tem mais eletricista para  fazer o reparo.

    Quem um dia já se hospedou no Ariaú Amazon Tower – encravado no coração da maior floresta tropical do mundo – e viu a natureza em festa, com turistas do mundo inteiro transitando de uma torre para outra em pontes armadas sobre as copas das árvores, com a música nativa e o canto de pássaros invadindo o ambiente, saboreou sucos de sabores exóticos e delícias da curiosa cozinha amazônica e percorreu de voadeira o espelho d’água do rio Ariaú, com certeza não conseguirá segurar as lágrimas ao deitar os olhos sobre um hotel fantasma abandonado no meio da floresta. É de cortar o coração.

    É isso que acontece com o gerente Raimundo Delgado, que ao ser perguntado como se sente ao ver o Ariú nesse estado, começa a chorar. O repórter respeita o momento e fica em silêncio. “Praia” enxuga as lágrimas e começa a falar.

    “Isso aqui é minha casa, me criei aqui dentro. E quem gosta de ver sua casa desarrumada, abandonada, triste? Entrei adolescente, como auxiliar de serviços-gerais, e lutei 21 anos para chegar à gerência, o meu grande sonho”, conta o gerente, cujos traços do rosto revelam a descendência indígena.

    Por Mário Adolfo

    Durante a ida ao Ariaú Amazon Tower, o editor de fotografia do EM TEMPO, Ricardo Oliveira, registrou um tamanduá enorme no rio. Confira o vídeo: