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    Economia


    Crimes cibernéticos desfalcam empresas em Manaus

    Páginas falsas de empresas do varejo e esquemas fraudulentos na internet, com finalidade financeira, começam a ganhar notoriedade no Amazonas - foto: Diego Janatã
    Páginas falsas de empresas do varejo e esquemas fraudulentos na internet, com finalidade financeira, começam a ganhar notoriedade no Amazonas - foto: Diego Janatã

    Apesar da queda de 32% do volume de notificações de crimes financeiros pela internet no país, mais conhecidos como cibernéticos ou virtuais, em 2015, no comparativo com 2014, os casos dessa prática contra sites de e-commerce começam a ganhar notoriedade em Manaus. Mesmo com um número pequeno, somente neste ano os prejuízos com páginas falsas e estelionato por meio de esquemas fraudulentos já somam mais de R$ 550 mil.

    As estatísticas nacionais do Centro de Estudos, Resposta e Tratamento de Incidentes de Segurança no Brasil (Cert.br) são produzidas anualmente a partir dos incidentes de segurança que são reportados voluntariamente, segundo a assessoria do centro de estudos. Por se tratar de informações voluntárias de administradores de redes e usuários de internet, o Cert.br afirma a queda do número de páginas falsas de bancos e sites de comércio eletrônico não é de fato real.

    O cálculo dos prejuízos no Amazonas leva em consideração apenas três grandes casos, de conhecimento das autoridades de segurança pública, envolvendo três empresas locais, sendo duas do varejo de eletroeletrônicos e outra de um site de cupons de descontos para serviços. Dois deles estão sob investigação da Delegacia Interativa da Polícia Civil e uma ainda sob os cuidados da Delegacia Especializadas de Roubos e Furtos e Defraudações (Derfd).

    O delegado titular da Interativa, Henrique Brasil Couto Batista, conta que uma grande loja de Manaus de eletroeletrônico sofreu com a criação de uma página falsa, que lhe rendeu um prejuízo de R$ 15 mil. “Quem identificou a página falsa foi a própria empresa, não foi a vítima. Para alertar os clientes, a loja publicou no seu site oficial e no perfil do Facebook que existia uma página falsa. A partir dessa informação, compareceram algumas vítimas, por enquanto, a maioria de fora do Estado”, diz. A ocorrência ainda está sob investigação.

    Outro grande caso em fase mais avançada pela interativa envolve um famoso site de cupons de prestações de serviços, com prejuízo aproximado de R$ 100 mil, segundo o delegado. “A investigação nesse caso já está bem avançada. Nós já identificamos de onde partiu a fraude, apreendemos uma torre de computador de mesa e a partir de agora nós vamos trabalhar com a perícia da PC para transformar as evidências em provas”, explica Henrique Brasil.

    O delegado da interativa aponta que todo crime cometido pela internet deixa rastros por conta de obrigações de provedores. “É em cima desses resquícios e rastros que nós iniciamos uma investigação. Todo e qualquer provedor de internet tem por obrigação registrar todos os seus usuários. Os números de IPs (Internet Protocol) são únicos. Por meio deles nós temos como identificar ao menos quem e onde utilizou aquela internet”, observa.

    Conforme Henrique Brasil, os crimes cibernéticos estão divididos nas categorias “próprios” e “impróprios”. O segundo é formado crimes comuns que porventura são realizados por todo e qualquer meio, inclusive pela internet como, por exemplo, a injúria.

    Fraudes de R$ 450 mil em site

    A ocorrência de crime virtual financeiro de maior valor ocorrido em Manaus, até o momento, envolve a loja de eletroeletrônico Mirai Panasonic. A empresa criou um e-commerce em abril deste ano e até agosto vendeu, aproximadamente, 250 smartphones - 95% deles iPhones -, mas não recebeu o crédito de quase R$ 450 mil do pagamento por meio da operadora Cielo, que alegou “suposta fraude” nas vendas, após uma série de contestações de donos de cartões de crédito, segundo o advogado da loja, Hileano Pereira Praia.

    A defesa registrou Boletim de Ocorrência (BO) junto à Derfd, e ingressará duas ações cíveis contra a Cielo, segundo o advogado, porque a Mirai afirma não ter efetuado nenhuma venda “sem a prévia autorização dos cartões de crédito operacionalizados pela Cielo”. “Nós pegamos toda a relação de números de série dos celulares que foram vendidos e levamos até a delegacia. O delegado já mandou intimar várias pessoas identificadas pelo número de série dos produtos”, diz Hileano.

    O advogado conta que a Mirai Panasonic, tradicional como loja física, resolveu criar um e-commerce e para ampliar suas vendas e convidou a Cielo para intermediar as vendas via cartões de crédito das mais diversas bandeiras. “A operadora foi até a Mirai e ficou durante uma semana fazendo testes no site, para saber se se tratava de uma plataforma segura. Na ocasião, a equipe da Cielo fez cerca de 10 mil testes com cartões para saber se era seguro. Em meados de abril nós começamos a operar”, lembra.

    A operadora começou a enviar contestações de compras supostamente não efetuadas pelos proprietários de cartões de crédito entre o final de agosto e início de setembro deste ano, conforme explica a defesa, que diz ter respondido todos os questionamentos. “Nós temos todas as autorizações dadas pela Cielo. Quando ela diz que houve uma contestação, ela nos pede para que mandemos a autorização dela, bem como as notas fiscais. Nós mandamos toda a documentação, e ainda assim está dizendo que houve uma fraude de vários cartões”, diz.

    Agora, de acordo com Hileano, a operado bloqueou o acesso da Mirai ao site da Cielo, onde a loja teria todas as informações a respeito de autenticações, autorizações.

    Contrato

    A Cielo informa por meio da sua assessoria de imprensa que o cliente (Mirai) foi advertido sobre o elevado número de transações irregulares em seu estabelecimento, detectado pelo sistema de prevenção a fraudes da companhia.

    De acordo com a operadora, como previsto no Contrato de Afiliação firmado com o cliente, a Mirai Panasonic foi descredenciada e seus pagamentos encontram-se suspensos. Após o prazo de 180 dias para análise, previsto no contrato, e caso não sejam contestados pelos portadores de cartão, os valores serão repassados ao lojista.

    A Cielo diz ainda que, pela natureza de suas atribuições como credenciadora de estabelecimentos comerciais para aceitação dos meios eletrônicos de pagamento, deve zelar pela segurança das transações realizadas.

    Especializada ainda na gaveta

    A atribuição da Delegacia Interativa não é exclusiva de crimes cibernéticos. A atribuição foi puxada pelo delegado Henrique Brasil. Desde 2012, tramita na Assembleia Legislativa do Estado do Amazonas (Aleam) um projeto de lei (PL) do governo do Amazonas, que trata da criação da delegacia especializada nesse segmento. A proposta, que tinha previsão inicial de aprovação em 90 dias, mudou para 2015, e com os cortes de despesas do governo, puxados pela crise econômica, o PL não saiu da gaveta.

    Enquanto a delegacia especializada não é criada, a delegacia interativa assumiu o papel em fase experimental e já conta inclusive com procedimentos em cartorário que se fazem necessários para qualquer tipo de investigação. “Hoje já temos o escrivão, os livros obrigatórios de polícia, uma estrutura mínima para que possamos caminhar. Mas, ainda em fase experimental”, observa do Henrique Brasil.

    Segundo ele, hoje a delegacia interativa tem cerca de 72 casos em andamento, entre impróprios e próprios. A grande parte deles partem de requisições judiciais, representações do Ministério Público do Estado do Amazonas (MPE-AM), ficha crime e representação por parte de vítima. Todas elas chegam via setor de distribuição da Polícia Civil.

    Emerson Quaresma
    Jornal EM TEMPO