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    Editorial


    A política da inércia

    Em São Paulo, 82% dos carros trafegam com uma pessoa só. Em nenhuma outra cidade esse nível é tão alto. A observação foi feita, no ano passado, pelo professor de Economia Brasileira da FEA-USP, Paulo Feldmann, em uma palestra para a “Folha de S.Paulo”, sobre mobilidade urbana, um assunto que os governos federal, estadual e municipal começaram a evitar, quando descobriu que os sete anos, que lhe tinham sido dados para construir o que eles não cansaram de prometer, já tinham passado.

    Ao mesmo tempo em que evitavam, construíam todas as facilidades de crédito para que uma “nova classe média” pudesse ter (também) um carro para chamar de seu. Não bastasse, criou-se uma categoria profissional, a dos mototaxistas, inconcebível em qualquer país em que haja um governo que respeite a qualidade de vida humana. Muito recentemente, o governo federal anunciou uma abertura de crédito para “renovação” dessa frota.

    Não se pensou que esses veículos, por uma lógica das mais elementares, precisam de um espaço para circular e estacionar sem ameaçar a vida de ninguém. Agora também se investe em ciclismo, sem considerar as condições climáticas e topográficas das cidades. Eventos com a envergadura da Copa do Mundo da Fifa e suas exigências de mobilidade estão mostrando, aqui e agora, que a administração do país se dedica a cultivar um conceito de modernidade há muito ultrapassado e de desenvolvimento falido.

    O ex-prefeito de Curitiba e ex-governador do Paraná, Jaime Lerner, nesse mesmo encontro, apontou para uma mudança de comportamento. “O carro vai ser o cigarro do futuro. É aceitável o uso do automóvel para uma viagem, para lazer, mas para uso diário, devemos priorizar cada vez mais o transporte publico”. Quem não sabe disso? Quem se interessa por isso?