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    Editorial


    Prefeituras não pagam dízimo

    Pela veemência do discurso do pastor vereador Marcel Alexandre (PMDB), na reunião de quarta-feira com o prefeito Arthur Neto, tem-se a impressão de que a Prefeitura de Manaus está obrigada a pagar dízimo às seitas evangélicas, que têm ao menos 11 representantes na Câmara municipal. Destaca-se do discurso de Marcel a paranoia da “perseguição religiosa” ou da síndrome do abandono. É ameaçador, algumas vezes: “Se não formos atendidos, vou largar-lhe (no prefeito) a peia da tribuna”.

    No que exigem ser atendidos esses senhores que andam com a “palavra do Senhor” em punho? Apenas que se lhes concedam 10% da verba destinada à cultura, como propôs – e agora exige – o representante do insignificante PRB, Carlos Alberto, que não se reelegeu deputado e exerce seu primeiro mandato de vereador com fé em Deus e pé na tábua. Mas é Marcel Alexandre que se sente o cristão das catacumbas: “Vou dizer o que está acontecendo conosco, um preconceito total”. Isto é: as dezenas de denominações evangélicas estariam sofrendo bullying, porque talvez se cante mais toada de boi e pagode do que o gênero preferido dele, o gospel.

    Mas quem disse que o gospel tem sido estigmatizado? Quem sustenta o boi-bumbá, entre outros patrocinadores, é a Coca Cola. A teologia da prosperidade que espiritualiza as comunidades ditas evangélicas estaria renegando a economia de mercado? E se os candomblecistas também quisessem 10% para garantir visibilidade no mercado da fé? E os católicos, para louvar santa Etelvina? A arte é uma mercadoria. A prefeitura não pode e nem deve usar o dinheiro do contribuinte para pagar dízimo a religião nenhuma. E a Câmara Municipal de Manaus não é o lugar mais indicado para se discutir o sexo dos anjos.

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