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    Rio Negro completa 106 anos com desafio de resgatar o legado do clube

    Com tradição no cenário social e esportivo de Manaus, clube luta para recuperar o antigo prestígio

    Atlético Rio Negro Clube completou no dia 13 de novembro deste ano 106 anos na capital amazonense | Foto: Leonardo Mota

    Manaus - No dia em que o homem pousava na Lua, em 20 de julho de 1969, o Atlético Rio Negro Clube fazia um gol contra o Nacional no Estádio da Colina. A memória é do atual presidente do clube, Jefferson Oliveira, que assistiu ao vivo o jogador Carlos Alberto marcar contra o grande rival do Galo da Praça da Saudade pelo Campeonato Amazonense. Essa é uma das lembranças favoritas do dirigente, que hoje tem a missão de resgatar a credibilidade do tradicional clube de Manaus.

    O clube nortista completou 106 anos no último dia 13 de novembro, com vários desafios a superar. Isso porque o Rio Negro, que já foi um dos mais importantes no cenário esportivo e social da cidade, acumula uma dívida de R$ 2,5 milhões e está sem equipe de futebol masculina. A sede do clube, localizada no Centro, estava deteriorada e só neste ano voltou a receber melhorias na infraestrutura. 

    Jefferson Oliveira tem a missão de resgatar a credibilidade do tradicional clube da capital amazonense
    Jefferson Oliveira tem a missão de resgatar a credibilidade do tradicional clube da capital amazonense | Foto: Lucas Silva

    “Em abril quando assumimos o Rio Negro estava destruído, todo fechado, maltratado mesmo. Pintamos e remodelamos tudo com pouco recurso. Tem que ter vontade de fazer, e é um trabalho lento, gradual, feito com amor. Tudo para que as pessoas tenham credibilidade de novo no Rio Negro”, disse Oliveira. A principal receita da agremiação vem do aluguel da sede para eventos sociais e esportivos.

    Do time da “Raça Mais Forte” a uma agremiação que se esforça para não cair no ostracismo, o Rio Negro tem uma história repleta de glórias que se mistura à própria trajetória do esporte do Estado.

    Um pouco de história

    O Atlético Rio Negro Clube nasceu do sonho de um grupo de jovens manauaras que gostavam de se reunir para jogar futebol. Shinda Uchôa, aos 16 anos, reuniu amigos para fundar a agremiação em 1913. Naquele dia, com a escrita da ata e leitura do documento, brindaram o momento com vinho do porto servidos em taças francesas de cristal bacará. Ali nascia uma das tradições do Galo, a festa “Porto da Honra”, realizada anualmente no aniversário do clube. 

    Na ocasião, foi eleito o primeiro presidente do clube, Edgar Lobão. Ali começava a história do que viria a ser um dos mais influentes clubes desportivos do Amazonas. Em 1914, o time de futebol começou a jogar, sagrando-se campeão estadual pela primeira vez em 1921. A partir daí, conquistou diversos títulos até o fim do amadorismo no Estado, arrastando uma torcida fiel que vibrava com os jogos do Galo. Os jogadores usavam uma camisa preta e branca listrada verticalmente, e depois adotaram um novo uniforme, dessa vez branco com uma faixa horizontal preta. Do manto, viria o apelido do time "Barriga Preta".

    Em 1945, após conflitos com a federação de esporte local, o Rio Negro se ausentou do futebol por 14 anos. Um time profissional só viria a entrar no gramado novamente em 1960. Com a profissionalização do futebol no Amazonas quatro anos depois, começava o esforço para reconquistar a popularidade entre os manauaras. Ao longo das décadas, outras modalidades esportivas além do futebol floresceram dentro do clube, como a natação, o futsal, o basquete, o judô e o handebol. Foi dentro do Rio Negro que o voleibol do Amazonas nasceu. Entre os atletas que inauguraram o esporte no Estado, nomes que figurariam no alto escalão da política amazonense, como o governador Leopoldo Neves e o senador Artur Virgílio Filho, pai do atual prefeito de Manaus, Arthur Neto. 

    Além do pioneirismo na introdução de esportes olímpicos na cidade, o clube também possuía grande prestígio na cena social manauara.  "As pessoas mais influentes e poderosas frequentavam o clube", conta Jefferson Oliveira. "Por aqui passava a nata da sociedade amazonense, uma verdadeira referência". Entre as tradições marcantes do clube, estava a festa de Carnaval, que levava uma multidão atrás de uma banda da sede do clube até a Praça do Polícia. Bailes de debutantes e eventos black-tie completavam a imagem imponente do Rio Negro - que viria a minguar ao longo dos anos em meio a crises financeiras e más gestões.

    Rio Negro completou no último dia 13 de novembro deste ano, 106 anos
    Rio Negro completou no último dia 13 de novembro deste ano, 106 anos | Foto: Lucas Silva

    Luta pelo futebol 

    Quando assumiu a presidência do Galo, Jefferson sabia que o trabalho seria difícil. Entre os principais desafios, está o resgate do futebol. Em abril de 2019, o clube foi rebaixado pela quinta vez na história para a Série B do Campeonato Amazonense ao perder o clássico RioNal. Agora, só volta aos campos em outubro de 2020, quando tentará o retorno para a primeira divisão. 

    “Estamos planejando como fazer para o ano que vem, ver quem são nossos parceiros para entrar nesse desafio de disputar a série B, classificar para jogar no outro ano a série A com um time bom e competitivo. Isso requer dinheiro”, explica o dirigente, que busca patrocinadores para conseguir um campo onde a futura equipe possa treinar. 

    Por enquanto, o Rio Negro não tem elenco ou técnico definidos. Segundo Jefferson, manter os profissionais seria dispendioso em um momento em que o clube ainda está pagando os atletas que atuaram na temporada anterior. 

    “Ainda não mexi em nada disso porque tinha que recuperar o clube primeiro, estava muito feio e deteriorado. Para ter receita, preciso mostrar um clube bem estruturado. Como vamos alugar algo caindo aos pedaços? Nosso desafio é esse, voltar à cena do futebol. A credibilidade só vem do trabalho e empenho com que você faz a coisa”, explica Jefferson. 

    O Rio Negro é um dos maiores campeões estaduais de futebol, com 17 títulos, incluindo o tetracampeonato de 1987-1988-1989-1990, o único da história do esporte no Amazonas
    O Rio Negro é um dos maiores campeões estaduais de futebol, com 17 títulos, incluindo o tetracampeonato de 1987-1988-1989-1990, o único da história do esporte no Amazonas | Foto: Lucas Silva

    O Rio Negro é um dos maiores campeões estaduais de futebol, com 17 títulos, incluindo o tetracampeonato de 1987-1988-1989-1990, o único da história do esporte no Amazonas. A última vez que foi campeão do Amazonense foi em 2001, quando passou a enfrentar uma grave crise financeira logo após a conquista do título. Isso viria a afetar profundamente o investimento na equipe masculina. 

    Handebol campeão

    Se por um lado o futebol do Galo não vive os seus melhores dias, a equipe feminina de handebol do Rio Negro Clube é destaque na modalidade. Comandado pelo presidente Jefferson Oliveira, o time já foi cinco vezes campeão estadual e oito vezes regional, e mantém uma campanha excelente no campeonato amazonense deste ano. Jefferson, que foi atleta da modalidade pelo clube, treina as jogadoras com firmeza.

    “O nosso handebol é super campeão. É um trabalho meu, que já fazia antes só com o nome do clube, porque é minha paixão. Tivemos sucesso e não deixamos cair. Quando assumi a presidência, pude fazer mais coisas pelas atletas”, revela. Os planos são continuar o trabalho na modalidade e voltar a investir aos poucos em outras categorias como a natação e o futsal.

    Uma das estrelas do handebol rionegrino é Valdenora dos Santos Leal, a Nora, que joga há três anos pelo clube. Natural de Parintins, Nora já atuava em outros times antes de ser convidada pelo atual técnico a defender a camisa do Rio Negro. “Somos um time unido e bastante família. Trabalhamos de dia e treinamos à noite, duas vezes na semana”, diz sobre a rotina da equipe. "O clima das partidas é muito tenso porque os times são competitivos e cada um deles quer bater o Rio Negro". Para Nora, não existe time fraco na competição, e todas treinam bastante para superar as adversárias. "Damos o nosso melhor", assegura.

    Na atual temporada, Nora já foi eleita por diversas vezes a melhor jogadora e artilheira da partida. Junto às companheiras de equipe, estende sua dedicação para além do ginásio e apoia outros empreendimentos do clube - tudo pelo esforço de de reerguer o Rio Negro."Somos unidas nos jogos, treinos e em qualquer evento no clube. Só assim o time vai para frente. Nosso desejo é um clube melhor, família, acolhedor, aberto ao público. Meus planos são continuar no clube até onde Deus permitir, continuar ajudando até onde der", planeja Nora.

    Amor de torcedor 

    Nada é capaz de sustentar um clube como a paixão do torcedor. Mesmo com os baixos da agremiação, fanáticos como a estudante Inês Iana Abecassis, 28, ajudam a manter viva a tradição do clube da Praça da Saudade. "Meu pai era rionegrino e acompanhava os jogos no Vivaldão com meus irmãos mais velhos. Isso fez com que meus irmãos tivessem amor pelo clube e fossem jogar por ele", conta Inês, que faz parte da Torcida Organizada Império Alvinegro.

    Para ela, as melhores lembranças em relação ao Galo estão ligadas ao duelo clássico contra o seu maior rival, o Nacional Futebol Clube. "Todo RioNal fica marcado para o torcedor. Não tem como falar do Rio Negro e não falar disso. Esse ano, perdemos para eles e fomos rebaixados., mas há tantas lembranças boas, outros jogos que tínhamos perspectiva de perder e ganhamos, goleadas. Tem esse amor, e a gente vive para que o clássico sobreviva", declara.

    A dedicação de Inês vai além de somente assistir as partidas. "Existem os torcedores que acompanham por fora os jogos no estádio. Estou sempre por dentro, acompanho as partidas, a parte administrativa, vou na sede, faço eventos, organizo caravanas. Tudo de forma voluntária, por amor ao clube", afirma.

    A torcedora reconhece que os fãs acabaram se afastando por causa do ostracismo que o clube enfrenta e a falta de participação em competições de renome, mas mantém o otimismo para os próximos anos. "Passamos por um período de má gestão que não rendeu muitos frutos e finalizou com nosso rebaixamento. Mas estamos numa gestão nova, com mais  motivação para buscar patrocínio", acredita. 

    Entre os ídolos rionegrinos de Inês está o ex-goleiro Clóvis Machado, o Aranha Negra, um dos maiores atletas da história do clube e famoso pelas defesas sensacionais na década de 70. "Ele é um torcedor-símbolo do nosso clube, não só por ter jogado profissionalmente, mas porque continua acompanhando nossa trajetória. Ele participou do período áureo do clube e agora, num período mais baixo, continua com a gente, dando força, apoio moral e suporte para que voltemos a ser o que éramos". 

    O velho goleiro também é um dos ídolos do presidente Jefferson Oliveira. "Era sobrenatural ver aquelas defesas. Os jogadores ficam marcados na nossa memória", diz. Como bom torcedor, o presidente se entende como rionegrino desde a infância, quando a família ia ver os jogos no Parque Amazonense, no Estádio da Colina e no Vivaldão. "Já era paixão de criança mesmo. Minhas irmãs faziam parte da torcida do tamanco, feita só de mulheres que iam bater os tamancos. na arquibancada. Meu pai picava papel, fazia sacos imensos de papel picado para levarmos aos jogos", recorda com afeto.

    Entre outras lembranças de Jefferson, está a conquista do campeonato amazonense em cima do Nacional em 1975, tida até hoje como uma das finais mais marcantes da competição. O pequeno Jefferson assistiu o goleiro Iane Gebber, outra lenda rionegrina, defender três pênaltis e garantir o título do Galo naquele ano. "Voltamos do Vivaldão a pé, comemorando", relembra. São memórias como essa, de quem viu o auge de um clube centenário, que impulsionam o trabalho do presidente para a recuperação do Rio Negro. 

    "As memórias continuam até hoje. A minha favorita atualmente é de quando assumi a presidência, um sonho antigo meu. De poder trabalhar e dar um pouco mais de mim pelo clube. De títulos, temos várias lembranças, mas essa parte é diferente. Te toca mais saber que você pode ajudar o clube no dia a dia, brigar mais por ele", diz o dirigente.

    Criando novos amores

    Uma parte de assegurar o futuro de um clube é transmitir o amor pela agremiação para as novas gerações. O instrutor de futsal, Yan Duarte, trabalha nessa missão junto aos alunos dessa modalidade dentro do Rio Negro. Assim como outros torcedores fanáticos, a paixão pelo alvinegro amazonense vem de família. 

    “Meus pais, tios, avós, são todos rionegrinos. Desde muito pequeno já ia aos jogos. Eu também morava perto da sede e isso contribuiu para o amor”, relata Yan, que agora trata de passar a mesma paixão aos alunos. São cerca de 90 esportistas de futsal no Rio Negro, com faixa etária de 4 a 17 anos. 

    “Eles acabam criando uma identidade com o clube. Geralmente as crianças manauaras já torcem pra um time de fora, então ver os alunos criando carinho pelo clube é gratificante. Hoje sou coordenador da escolinha, mas também já fui aluno. Dos meus 9 aos 13 anos, fui atleta do futsal. Tento passar aos alunos a importância que o clube tem”, diz. 

    “Sempre conversamos sobre datas importantes, sobre jogos históricos. Gosto de mostrar fotos. De vez em quando levo algum ex-atleta do clube para dar uma palavrinha com eles, além de levá-los para entrar em campo com os jogadores, como mascotes. Eles adoram”, diz o torcedor, que se orgulha de ser um dos que mantém viva a história do Galo da Praça da Saudade.