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    Resistência


    Único negro presidente nas séries A e B pede 'grito' antirracista

    Séries A e B do Campeonato Brasileiro do ano passado acabaram com apenas três técnicos negros

    Tiãozinho, como é conhecido, comanda a Ponte desde novembro do ano passado
    Tiãozinho, como é conhecido, comanda a Ponte desde novembro do ano passado | Foto: Rodrigo Corsi/ FPF

    Na última terça-feira (2), a "Macaca", como é conhecido o clube campinense, lançou o "Manifesto da Ponte Preta contra a discriminação e o racismo: não há mais espaço para o silêncio". Isso porque dá para contar nos dedos quantos são negros fora das quatro linhas. Prova disso é que nas séries A e B do Brasileirão, apenas um deles é presidente.

    Leônidas da Silva, Djalma Santos, Didi, Manga, Jairzinho, Coutinho e claro, o Rei Pelé. Entre os maiores nomes da história de futebol brasileiro, os jogadores negros facilmente marcam presença. O problema é quando se olha além das quatro linhas. 

    "Se a gente virar um pouco a lupa para outras atividades econômicas, culturais e acadêmicas, esse processo de invisibilidade é histórico. Tem a ver com nossa herança de mais de 350 anos de escravidão e de uma abolição incompleta, que não incorporou efetivamente o negro na sociedade brasileira", analisa Sebastião Arcanjo, mandatário da Ponte Preta.

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    A Ponte Preta sempre se orgulhou por ser a primeira democracia racial do futebol brasileiro, por dizer que nas dependências da Macaca não há discriminação por etnia, religião, orientação sexual ou qualquer outro motivo, por acreditar que "raça", palavra também usada como sinônimo de "gana", é a humana. O mundo não está dentro do Majestoso e não podemos fechar os olhos para o que está acontecendo nele. Os assassinatos brutais do menino João Pedro, no Rio de Janeiro, e do segurança George Floyd, nos Estados Unidos, chocaram o planeta e as manifestações contra o racismo são cada vez mais intensas em todo lugar. Mas quantos Joãos e Georges já morreram por conta da cor de suas peles antes da justa comoção que agora toma conta das redes sociais e das ruas? Quantos mais precisarão morrer antes que as pessoas enfrentem de frente o fato de que, mais do que uma imbecilidade e um crime, o racismo e o preconceito são um mal que precisa ser extirpado pela raiz? Uma das frases mais versionadas e traduzidas do líder Martin Luther King Jr. -- um defensor negro dos direitos civis dos Estados Unidos que morreu assassinado em virtude de sua luta por uma sociedade mais humana -- diz que "a tragédia final não é a opressão e a crueldade praticada pelos maus, mas o silêncio dos bons". Somos todos iguais! #SomosPontePreta e #JogamosJuntos! Leia o manifesto completo no site oficial da Macaca. ✊🏿 bit.ly/3cn4EkJ

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    Não faltam exemplos que corroboram com as palavras do dirigente. As séries A e B do Campeonato Brasileiro do ano passado acabaram com apenas três técnicos negros entre os 40 times de ambas as competições: Roger Machado no Bahia, Marcão no Fluminense e Hemerson Maria no Botafogo de Ribeirão Preto (SP) - portanto, 7,5% do total dos treinadores. 

    "O futebol representa, do ponto de vista das direções ou dos espaços de tomadas de decisão nos clubes, essa distorção que perpassa todos os níveis da sociedade. O negro, no futebol, não conseguiu sair das quatro linhas", completou.

    Esse número é próximo ao constatado em 2018 pelo Instituto Ethos, que mede indicadores de responsabilidade social e empresarial. Segundo consulta feita com 117 das 500 maiores empresas do país, somente 6,3% dos cargos de gerência e 4,7% do quadro executivo eram ocupados por profissionais negros.

    "Refletimos uma sociedade hierárquica, verticalizada, onde esses espaços [liderança] estão muito relacionados a questões econômicas, e quem tem lastro econômico no Brasil, em sua maioria, não são pessoas de origem negra ou descendentes de escravos", resumiu.

    Tiãozinho, como é conhecido, comanda a Ponte desde novembro do ano passado. Trata-se do clube mais antigo do futebol brasileiro em atividade ininterrupta. Vice-presidente eleito no fim de 2017, assumiu o topo da hierarquia após a renúncia do então mandatário Armando Abdalla Júnior.

    Ex-vereador em Campinas (SP) e ex-deputado estadual, defende a Alvinegra - hoje na Série B do Brasileirão - como a primeira democracia racial do país. Além de ter acolhido o apelido "macaca", dirigido a torcedores pontepretanos na década nos anos de 1930, o clube contou com negros e mulatos não só no primeiro elenco - Miguel "Migué" do Carmo -, como também na primeira diretoria, com Benedito Aranha.

    "A Ponte tem a pluralidade étnico-racial na sua gênese. Era um time de garotos na linha do trem da antiga Fepasa [estatal paulista de transporte ferroviário de cargas e passageiros, extinta em 1998]. Essa linha do trem dividia o centro da periferia de Campinas e os fundadores [da Ponte] estavam do outro lado, então o clube já nasce na periferia. Acho que essa é a riqueza da Ponte Preta", descreveu.