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    Especialista em chuteiras, peruano é querido por jogadores do futebol amazonense

    Em seu ateliê, Yarmas mostra e explica a história de cada chuteira que ali habita - fotos: Márcio Melo

    O futebol amazonense pode não viver tempos de destaque no cenário nacional e ser exemplo de gestão, porém, tem uma série de histórias curiosas e exemplos de transformação por meio do esporte. O sapateiro de chuteiras e criador de acessórios de treinamentos de time de futebol, Luiz Wilfredo Yarmas, 41, é um exemplo. Nascido em Lima, no Peru, o imigrante se instalou em Manaus e “ganhou” a vida aqui como restaurador de chuteiras.

    Torcedor do Alianza Lima, também do futebol amazonense e da seleção brasileira desde 2000, quando chegou a Manaus, Luiz conta uma série de curiosidades, que no porão de seu atelier existe, inclusas no laço de cada chuteira ali recuperada. Ele também é um dos desenvolvedores de ligas de trabalhos posturais e ligas de recuperação de adutores musculares, materiais encomendados por clubes do Amazonas. Esses equipamentos são usados por jogadores profissionais em treinamentos físicos e sessões de fisioterapias. Wilfredo é conhecido de todos os dirigentes do futebol local e de vários de atletas. Ele também já costurou a sapatilha de atletismo do corredor manauense e medalhista olímpico Sandro Viana.

    Início da profissão

    Para Luiz Wilfredo, o início foi doloroso, assim como para qualquer outro profissional. O sapateiro chegou em Manaus com uma bolsa nas costas e o desejo de vencer na vida. Após passagens por Rio de Janeiro e São Paulo, o também apelidado por jogadores como “doutor” fez um cruzeiro por águas antes de chegar a Manaus. Tentou uma migração aos Estados Unidos, porém, ficou no Panamá e voltou para a Amazônia pela Guiana Francesa.

    “Escolhi Manaus, que é uma terra de pessoas boas e acolhedoras. O futebol aqui não possui seus próprios alfaiates, assim como uma série de outros profissionais específicos. Fiz uma clientela aqui e fiquei conhecido por frequentar os campos de treinamentos. Os jogadores confiam no meu trabalho”, disse Luiz.

    Luiz chegou em Manaus em 2010 e desde estão é torcedor da seleção brasileira

    O sapateiro relembra a pessoa que mais deu força em sua chegada aos solos barés. “O Luiz Gonzaga, do Arsenal Trigolar, me acolheu no início porque eu consertava chuteiras para os jogadores do time dele. Mas, a partir daí, eu conheci o pessoal do São Raimundo. Eu capinei a Colina e no começo dormia lá, pois não tinha casa. O Ivan Guimarães, dirigente na época, deu uma força também. Com o passar do tempo eu fui buscando conhecimento e guardava o dinheiro das capinações para comprar minhas máquinas, pois não queria ficar costurando chuteiras à mão a vida inteira”, disse o peruano.

    Clientes ilustres

    No início da formação de sua clientela, Luiz trabalhou para os jogadores do São Raimundo. Um de seus primeiros “fregueses” foi o zagueiro Ediglê, que anos depois seria campeão do mundo pelo Internacional. O zagueiro Rogério, os meias Zé Rebite, Vidinha e Alexandre Gaúcho e o atacante Delmo, também fazem parte do “currículo” de Yarmas.

    “A chuteira do Delmo, uma da marca Umbro preta e com o logotipo branco, sempre passava nas minhas mãos. Ele gostava muito e se sentia bem com ela. Passei uma semana costurando para ele utilizá-la contra o São Paulo. Lembro-me que devolvi para ele um dia antes do jogo. Naquela noite, ele fez o Rogério Ceni como vítima, pois marcou o segundo gol da vitória por 2 a 0. No fim da partida, com o estádio Vivaldo Lima lotado por 38 mil pagantes, o Delmo veio me agradecer”, lembra Luiz.

    O peruano chego Chegou a capinar e morou no estádio da Colina

    Quando o São Raimundo fez a sua melhor campanha jogando em casa e ficou invicto nos dez jogos que disputou pelo Campeonato Brasileiro Série B 2005, o maestro da equipe era Alexandre Gaúcho, o mesmo que brilhou com as camisas de Goiás, dupla Gre-Nal, Botafogo e Flamengo. Nas atuações no já demolido Colosso do Norte, o atleta utilizava uma chuteira Mizuno branca. “Ele jogava bem e o time também jogava bem. Em todos os jogos em casa ele jogou com aquela chuteira, que eu costurava. Quando ele resolveu voltar para o Rio de Janeiro deixou comigo e guardo de lembrança até hoje”, conta Luiz.

    Serviços

    Para encarar o Vila Nova-GO, pela Copa do Brasil, no decorrer da semana passada, o sapateiro recuperou o par de chuteiras da dupla de zaga do Fast Clube, Thiago Brandão e Fábio Gomes e do atacante Thiago Verçosa, que ficou no banco de reservas diante os goianos. “É com orgulho que faço este trabalho. Espero dar sorte para os jogadores, disse para eles que podem entrar ‘rasgando’ no adversário, que o trabalho é profissional”, sorri Luiz Wilfredo, que admite gostar de todos os times amazonenses.

    “Sempre torço para vencer o melhor no Estadual, mas o São Raimundo e o Nacional são clubes que marcaram por terem me acolhido com muito carinho. Hoje em dia é difícil escolher um time em Manaus, ao contrário de quando eu cheguei aqui, quando o Naça e o Tufão colocavam 10 a 20 mil pessoas no estádio”, diz.

    Sobre se seria possível a evolução financeira do sapateiro em outro estado ou região do Brasil, Luiz Wilfredo garantiu que estes profissionais são comuns em clubes dos grandes centros.

    “Todos os lugares existem este tipo de profissional. O Túlio Maravilha quando atuava pelo Fast já era muito rico, mas não abria mão de uma chuteira que utilizava há anos. Mesmo assim cobrei dele o mesmo preço que cobrava dos demais atletas do time do Fast de 2006. Aquela chuteira era a carícia dele, ele dizia que com ela a sorte chegava mais rápido e geralmente marcava gols. Coisa de centroavante supersticioso. Acredito que até mesmo o Neymar tem um profissional próprio que zela e dá manutenção para suas chuteiras”, explicou.

    https://youtu.be/Fp5YsIvTCwA

    João Paulo Oliveira
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