Fonte: OpenWeather

    Pandemia


    ‘Quando avisaram que o oxigênio ia acabar, o silêncio reinou na UTI’

    Neste depoimento, Marta*, uma das mulheres fortes que se transformaram ícones nessa crise sanitária do Amazonas, relembra momentos marcantes, muitos dos quais gostaria de esquecer

     

    | Foto: Divulgação

    O sol ainda nem nasceu e eu já estava ali pronta para mais um dia de batalha, como enfermeira de um grande hospital de Manaus. No auge da pandemia, vivi momentos que preferia não ter vivido. Muitas vezes orei para que fosse apenas pesadelo, e que não estivesse acontecendo. 

    Nos dias em que Manaus virou notícia pelo mundo afora, devido as mortes pela ausência de oxigênio nos hospitais

    No início da pandemia, um paciente grave e consciente pediu que eu desse um recado à esposa. Disse que ele a amava muito e a sua família também. Isso porque ele tinha certeza que não voltaria mais a vê-las, não sairia daquela situação. Era um último adeus. Realmente aconteceu. Foi a 1ª vez que passei por isso. Esse é um dos momentos que gostaria de esquecer.

    O outro momento foi quando avisaram que só havia mais duas horas de oxigênio. O silêncio reinou na UTI. Se caísse uma agulha no piso, todos podiam ouvir. Ficamos estarrecidos e presos ao chão, sem conseguir falar. O que eu fiz foi ficar ao lado dos meus pacientes, esperando por um milagre. Algo se fez e o oxigênio foi reduzido. Naquela noite nenhum paciente morreu.

    No terceiro momento de dor, socorri um paciente de uma unidade básica para um serviço avançado e fomos avisados que todas as portas estavam fechadas. Entre tantos chamados e os hospitais com lotação esgotada, recebi a ordem de aventurar uma unidade que nos recebesse. A sirene da ambulância anunciava mais um pedido de socorro. Com a esperança em Deus, ganhávamos as ruas em busca dessa acolhida.

    Depois de muito tentar, consegui um hospital que concordou em receber o paciente, mas com o acordo de ele utilizar o meu oxigênio portátil. E foi o que fiz, mas nem tive tempo de respirar aliviada pois o oxigênio acabou e o paciente veio a óbito.

    Foi difícil ver o desespero da família e mais desesperador ainda ver o médico tentando ajudar, na correria por algum bico de oxigênio, mas não havia nenhum disponível. Então vim para minha base arrasada, com o coração partido e pensando se realmente aquilo estava acontecendo, se eu estava vivendo aquela situação. Morri por dentro.

    Esperança se renova

    Nunca pensei em desistir de lutar contra o vírus. Todo dia a esperança se renovava. Eu me sentia um pouco família daqueles pacientes e precisava estar ali sim. Mesmo exausta, cansada emocionalmente, fisicamente, mas eu estava ali. Todos as manhãs eu levantava, deixava a minha família em casa e ia cuidar da família de alguém, do amor de alguém. Desistir nunca me passou pela cabeça. Eu amo o que eu faço.

    Não me arrependo de nada. Fui consciente dos meus atos. Procurei dar o melhor de mim. Nunca me arrependi de ter saído todos os dias cedo para cuidar daqueles pacientes tão graves que dependiam da gente. Quando eu os olhava, eu sabia que todos eles eram o amor de alguém. Então, agradeço por ter feito parte da vida deles.

    A missão de ser mãe e filha

    Quanto à minha família, recebi muita força, todos torceram por mim e me deram muitos elogios e orgulharam-se por eu estar ali firme, forte, ajudando aquelas pessoas. Eu só tenho a agradecer. Minha família foi importante nessa jornada. Tive medo sim de algum deles contrair o vírus e eu perder para esse vírus. Mas eu oriento e tento me cuidar. Faço minha parte me cuidando e os ajudo também.

    A maior dificuldade enfrentada como mãe e filha era quando eu voltava do plantão e tinha que ocultar deles o meu desgaste físico e emocional. Eles não podiam perceber o drama que eu estava vivendo. Assim eu os ajudava. Então, eu evitava fazer comentários sobre o caos que eu estava vivendo, mas me sentia no dever e na obrigação de cuidar deles também e tentava me proteger de todas as maneiras para não contrair o vírus, e deu certo. Até hoje, não tive Covid, e já estou imunizada.

    Alguns colegas passaram a ficar direto no hospital para não contagiarem os outros, mas eu não podia. Eu tenho mãe, filho. Um dia, ele perguntou se eu tinha medo de contrair o vírus, eu disse que sim mas minha profissão falava mais alto.

    Medo eu tenho, disse a ele. Se eu contrair, não volto para casa, fico no hospital. Meu medo era esse de contrair, ficar no isolamento e ser uma paciente fatal. Ele disse: então trate de não ser essa paciente fatal porque eu não tenho estrutura para ficar órfão de mãe. Isso me chocou muito. Eu vi o quanto sou importante para ele, pude notar também em uma homenagem nas redes sociais, sobre o orgulho que ele tem por ter uma mãe trabalhando na linha de frente.

     A terceira onda

    Certamente, haverá terceira onda. Muitos ainda não se deram conta de que nosso inimigo é invisível. Então, muitos não têm consciência, as pessoas relaxaram quanto ao distanciamento e à aglomeração. A terceira onda virá, infelizmente, ela virá.

    Um grande legado dessa pandemia é a solidariedade. Quando a população começou a se mobilizar a nos ajudar, reconhecer a nossa luta, foi gratificante. As pessoas enviaram materiais de EPIs, levaram lanches. O que eu vi de pessoas fazendo o bem foi emocionante.

    Hoje, deixo aqui uma mensagem para as pessoas. Que elas se cuidem, não se aglomerem, cuidem dos familiares. Tudo isso vai passar, é uma fase. Logo vamos reencontrar nossos familiares e amigos. Vamos nos abraçar. Não nascemos para vivermos isolados.

    *A pandemia de Covid-19 desafia o mundo e impõe a todos uma mudança de rotina. Profissionais da saúde se transformaram em verdadeiros heróis. Protagonista desse momento pandêmico, Técnica de enfermagem, com 12 anos de profissão, que atua na linha de frente há um ano, no SAMU e em um pronto-socorro de Manaus, Marta* representa uma das mulheres fortes que se transformaram ícones nessa crise sanitária. Nunca tinha vivido o que viveu neste um ano de pandemia, disse ela. Nesse depoimento, relembra momentos marcantes, muitos dos quais gostaria de esquecer.

    Leia mais

    Taxa de câncer de colo de útero no AM é maior que a do Brasil

    Sobre mulheres, lutos e lutas