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    Praça 14 de Janeiro


    Um bairro muito além do samba, quilombolas e Nossa Senhora de Fátima

    No aniversário de 133 anos, o EM TEMPO resolveu mostrar o lado menos conhecido do bairro e personagens que fazem parte do cenário atual

    Igreja Nossa Senhora de Fátima fica na parte mais alta do bairro | Foto: Ione Moreno

    Manaus - Quem não conhece o bairro Praça 14 de Janeiro, em Manaus? O local, que fica na região central da cidade, é considerado o berço do samba, possui a igreja mais singular da capital, tem a primeira loteria a transformar um grupo de amazonenses em milionários. Isso sem contar o fato de ter a segunda comunidade quilombola em área urbana do Brasil e ainda ser a “meca” das lojas de peças automotivas da capital amazonense. O difícil é não falar do bairro sem contar um pouco de sua história que, este ano, completa 133 anos.

    Tudo começou em meados 1880, quando o local não passava de um matagal com poucas propriedades rurais dos barões da borracha, como relata o historiador e escritor Daniel Sales. Ele lembra que, a partir de 1884, a área começou a ser ocupada por negros alforriados do Maranhão, que vieram para Manaus - a cidade que havia acabado de abolir a escravidão - e aqui fixaram residência.

    Nessa época, a área também era ocupada por imigrantes portugueses que, assim como os negros, mantiveram suas respectivas tradições que talharam o bairro: a centenária festa de São Benedito e, mais recentemente, os festejos de Nossa Senhora de Fátima.

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    A festa de São Benedito, inclusive, contribuiu para a transformação da comunidade negra instalada na rua Japurá no segundo Quilombo Urbano brasileiro, o “Quilombo do Barranco”, título concedido em 2014 pela Fundação Palmares.

    Imagem aérea da Praça 14 em 1952, onde é possível ver a igreja e as principais ruas do bairro
    Imagem aérea da Praça 14 em 1952, onde é possível ver a igreja e as principais ruas do bairro | Foto: Reprodução Correa Lima

    Vila Maranhense, Praça Portugal e Praça 14

    O bairro teve outros nomes. Segundo Daniel Sales, já foi Vila Maranhense, Praça Fernandes Pimenta, Praça Portugal, mas o nome que prevaleceu foi o que homenageou a revolta de 14 de janeiro de 1892, promovida por funcionários públicos que estavam com seus salários atrasados.

    O primeiro nome da bairro foi “Vila Maranhense”. Em fevereiro de 1892, após o fim da revolta popular, o local ganhou o nome do soldado Fernandes Pimenta, morto no conflito. Nesse mesmo ano, Eduardo Ribeiro - que assumira o governo estadual - muda novamente o nome do bairro. Dessa vez a comunidade passa a se chamar Praça 14 de Janeiro.

    No entanto, a colônia portuguesa instalada no bairro reivindicou a mudança de nome, novamente. E, em meados de 1950, por meio de um decreto governamental, a Praça 14 vira “Praça Portugal”. 

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    “Não é direito/ Não é legal/ Mudar o nome de Praça 14 para Praça Portugal” "

    Zé Ruindade, Samba protesto pela mudança de nome do bairro

    A decisão, conta o historiador Daniel Sales, revoltou os moradores negros do bairro. Entre eles “Zé Ruindade”, presidente da primeira escola de samba do Amazonas, a Escola de Samba Mixta da Praça 14 de Janeiro. A turma da “Mixta” foi para as ruas com um samba disposto a pressionar o governador da época, Plínio Coelho, que ao ouvir o coro “Não é direito/ Não é legal/ Mudar o nome de Praça 14 para Praça Portugal”, tratou de revogar o decreto e, desde então, o bairro passou a se chamar, definitivamente, Praça 14 de Janeiro.

    Na década de 1990 cinco apostadores fizeram o jogo milionário da Sena na loteria Fla-Flu
    Na década de 1990 cinco apostadores fizeram o jogo milionário da Sena na loteria Fla-Flu | Foto: Márcio Azevedo

    Primeiro milionário, primeira autopeças

    O que muita gente não sabe sobre a Praça 14 é que o bairro tem uma das lotéricas mais antigas de Manaus e a única a dar o prêmio principal de uma loteria esportiva no Amazonas. 

    “Isso foi na década de 1990, quando Gilberto Mestrinho era governador”, lembra Samuel Silva Azevedo, 60 anos, dono da Loteria Fla-Flu, que fica na avenida Tarumã, quase esquina com a Duque de Caxias. “Não me lembro quanto era o valor. Mas era o prêmio máximo da Sena (que em 1996 virou Mega Sena). Foram cinco amigos que trabalhavam na Marcodiesel. Eles ficaram milionários e ainda deram de presente um jogo de sofá para minha funcionária que, na época,fez a aposta para eles”, relembra.

    Fachada original da Loteria Fla-Flu que já funciona há 40 anos no mesmo endereço
    Fachada original da Loteria Fla-Flu que já funciona há 40 anos no mesmo endereço | Foto: Reprodução

    Sobre os ganhadores Samuel disse que nunca mais apareceram na loteria. Ao longo dos anos ele ficou sabendo que alguns morreram, outro comprou uma fazenda em Parintins e teve um que torrou todo o dinheiro e voltou a ser mecânico. “O engraçado é que na época fizeram até reportagem como se eu tivesse ganhado o prêmio. Até a mulher do Gilberto Mestrinho veio me pedir dinheiro na época”, garante Azevedo.

    Subindo a avenida Tarumã, mas já na esquina com a rua Visconde de Porto Alegre, está a maior loja de peças automotivas da região Norte entre os anos de 1980 e 1987. A Autopeças Benayon foi ousada para a época. Seu dono, Adilson Benayon Serudo Martins, chegou a montar, anos antes - em 1975 - a primeira motopeças de Manaus. Foi a partir desse pioneirismo que, por muitos anos, o bairro era conhecido como bairro das autopeças.

    Autopeças Benayon já foi a maior loja da região Norte
    Autopeças Benayon já foi a maior loja da região Norte | Foto: Márcio Azevedo

    Aliás, graças as lojas de produtos automotivos o bairro também foi pioneiro no ramo das borracharias. Conta o historiador Daniel Sales que no início dos anos 1970 o senhor Mário Ribeiro, ou simplesmente “Mário Borracheiro”, montou a Borracharia Amazonas. “Ela ficava praticamente ao lado da loja do Benayon. Vinha gente de toda a cidade”, lembra.

    Nossa Senhora de Fátima X São Benedito

    Como se sabe, a Praça 14 só ganhou o status de bairro com a chegada dos negros maranhenses nos anos 1880. Com eles vieram suas tradições e crenças e, segundo Daniel Sales, até há alguns anos a negritude do bairro não vivia confortavelmente com a escolha de Nossa Senhora de Fátima para ser a padroeira do bairro e dar nome a principal igreja. 

    “Eles queriam que fosse São Benedito, mas um português conhecido como Antônio Caixeiro, que pode se dizer ter sido um grande latifundiário do bairro, doou o terreno onde foi erguido a igreja e, claro, deve ter sido influência na escolha do santo padroeiro”, explicou Sales reforçando que esse desagravo ocorria de forma mais velada entre os negros. “Muitos, inclusive, preferiram virar sincretistas e ir a missa na igreja”.

    O atual templo foi construído em 1975 no terreno doado pelo português Antônio Caixeiro
    O atual templo foi construído em 1975 no terreno doado pelo português Antônio Caixeiro | Foto: Reprodução: Instituto Durango Duarte

    A primeira missa foi celebrada em 1939 em uma igrejinha de madeira erguida no terreno doado por Caixeiro. O atual templo só foi concluído em 1975. 

    Atualmente, essa querela - se é que de fato existiu - não faz parte de nenhuma roda de conversa entre os moradores do bairro. Vale lembrar que a Praça 14 deixou de ser um bairro de predominância negra para ser hoje uma “babilônia”. Os terreiros não existem mais, os igarapés onde as lavadeiras lavavam a roupa da aristocracia manauara viraram esgotos a céu aberto e nem novos milionário surgiram no bairro - pelo menos não pela loteria Federal. Mas para seus moradores, nada disso é relevante. Como destaca a camareira Ana Regina Souza Rodrigues, de 43 anos. “A Praça 14 é tudo pra mim. Aqui eu nasci e hoje crio meus filhos. Esse é o melhor bairro de Manaus”, defendeu.

    Cleude "Bolinha", tradicional vendedora de pastel do bairro Praça 14 de Janeiro
    Cleude "Bolinha", tradicional vendedora de pastel do bairro Praça 14 de Janeiro | Foto: Márcio Azevedo

    Quem também defende o bairro com unhas e dentes, apesar de ser moradora do Monte das Oliveiras, na Zona Norte, é a vendedora de pastel Cleude Ribeiro da Silva, de 38 anos. Ela é figura conhecida na Praça 14. Basta perguntar onde tem um caldo de cana com pastel no bairro ou então seguir o cheiro que exala da esquina da Tarumã com a Jonatas Pedrosa. “Todo mundo sabe onde fica o pastel da ‘Bolinha’ ou da ‘Gordinha’”, brinca Cleude sem esquecer de fazer seu comercial: “a única que funciona 24 horas no bairro” (risos).

    O bairro Praça 14 de Janeiro completa em 2018 133 anos e o EMTEMPO foi atrás de histórias nunca antes contadas. | Autor: Márcio Azevedo