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    Dia do Gari


    Preconceito e conquistas: garis contam histórias de luta

    Eles são chamados de garis desde o século 19 no Brasil e, em Manaus, eles lembram as alegrias e desafios que a carreira proporciona diariamente

    Apesar da discriminação que sofre todos os dias, Valdenice não desistiu e aceitou a missão de trabalhar como gari em Manaus.
    Apesar da discriminação que sofre todos os dias, Valdenice não desistiu e aceitou a missão de trabalhar como gari em Manaus. | Foto: JÚNIOR MELLO

    Manaus – Valdenice Souza, de 37 anos, é moradora do bairro Compensa, Zona Oeste de Manaus, e trabalha como gari em uma empresa que presta serviço de limpeza para o município há 2 anos. Mulher, mãe de 2 filhos e profissional, Valdenice conta que o preconceito foi o grande desafio do início de sua carreira. "Quando comecei a trabalhar como gari, minhas amigas ficaram surpresas e diziam para eu procurar um outro trabalho, pois isso não era profissão para mulher”, relata.

    Àquela altura, apesar da discriminação que ela e seus parceiros sofriam todos os dias, Valdenice não desistiu e aceitou a o desafio. Atualmente, ela pondera. "Muitas pessoas passam perto e olham com cara feia. Às vezes, pedimos um copo com água ou uma informação e as pessoas não dão a mínima para nós. Outras pessoas ajudam, chegam com a gente e conversam, nos convidam para entrar nas casas, é isso é bom", lembra a gari.

    A luta diária, seja no 'friozinho' da madrugada ou no sol quente do dia, rendeu à gari grandes conquistas, entre elas ter conseguido comprar um carro e comprar a casa em que reside atualmente. “Depois que comecei a trabalhar meu único pensamento era juntar dinheiro e comprar uma casa. Graças a Deus consegui e estou pagando. Em 2017, também dei entrada no meu carro, o que tem me ajudado bastante nas minhas atividades como mãe e como profissional”, conta Valdenice, que vive há doze anos com o parceiro, que também é gari.

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    Valdenice concluiu o Ensino Médio em 2002 e voltou aos estudos após 15 anos, desta vez para fazer faculdade de Pedagogia. "Espero continuar trabalhando como gari até o dia que a empresa precisar dos meus serviços. Sou muito grata pelo meu trabalho, pois foi por meio dele que também consegui pagar as mensalidades da faculdade e, se Deus permitir, quero concluir meu curso de pedagogia. Tenho orgulho de ser gari".

    Desafios

    Renato tem 59 anos de idade e 35 de profissão como Gari, e se orgulhoso por atuar na profissão
    Renato tem 59 anos de idade e 35 de profissão como Gari, e se orgulhoso por atuar na profissão | Foto: JÚNIOR MELLO

    Os desafios que a profissão propõe diariamente a Valdenice são bem parecidos aos que Renato Castro, de 59 anos, enfrenta. Ele está às vésperas de alcançar a sonhada aposentadoria após trabalhar como gari há 35 anos. Satisfeito com a profissão, ele fala das conquistas que alcançou trabalhando na área, como a compra da casa própria, a criação dos filhos e a sobrevivência da família ao longo dos anos.

    Mesmo com as alegrias, Renato também lembra dos apuros, entre eles, passar por dois acidentes vasculares cerebrais (AVC) por causa do trabalho. "Lembro que tinha acabado de chegar do trabalho, era umas seis horas da tarde, não tinha ninguém em casa ainda. Comecei a sentir meu corpo ficar estranho, tinha algo de errado comigo. Minha língua começou a travar e não consegui falar mais nada. Por pouco não morri, pois meus filhos chegaram e me socorreram a tempo", um sufoco, lembra. "Já a segunda vez eu estava na praia da Ponta Negra trabalhando com meus colegas. Na hora do intervalo fui comer uma fruta e senti novamente a língua pesar. Fui direto ao pronto socorro e lá fiquei 23 dias internados".

    O gari, assim como a maioria que atua na profissão de limpar e zelar pela cidade, também teve que trabalhar de madrugada. O esforço tinha um objetivo: ajudar a comprar o material para a construção da casa do filho mais velho. "Naquela época eu entrava as 10 horas da noite e saía às 6 da manhã, varrendo as ruas do centro de Manaus. Tudo para ajudar o meu filho a terminar a casa dele. Era bastante perigoso, mas o que me motivava era a companhia dos meus colegas, a diversão que tínhamos em estar juntos que fazia com que o sono e o cansaço passassem".

    Homenagens aos garis

    A comemoração ao 'Dia do gari' foi no Clube Fazendário, localizado no Bairro Parque Dez de Novembro, em Manaus.
    A comemoração ao 'Dia do gari' foi no Clube Fazendário, localizado no Bairro Parque Dez de Novembro, em Manaus. | Foto: Júnior Mello

    Todos os anos a Prefeitura de Manaus realiza atividades em comemoração ao dia do gari e, este ano, o evento foi realizado nesta quarta-feira (16), no Clube Fazendário, localizado no Bairro Parque Dez de Novembro, em Manaus. Uma forma de agradecimento aos trabalhadores da limpeza pública. “É uma preocupação do prefeito Arthur Neto, que os garis tenham um momento de comemoração. Uma festa do Dia do Gari com shows musicais de bandas, participação dos Garis da Alegria, de Alan Nascimento, o ‘Gari cantor'”, disse o subsecretário de operações da Secretaria Municipal de Limpeza e Serviços Públicos (Semulsp), José Rebouças.

    O grupo 'Garis da Alegria' é formado por 8 integrantes e atua desde 2002, levanto alegria e conscientização, por meio da música e teatro a população de Manaus.
    O grupo 'Garis da Alegria' é formado por 8 integrantes e atua desde 2002, levanto alegria e conscientização, por meio da música e teatro a população de Manaus. | Foto: Júnior Mello

    Os 'Garis da Alegria', grupo formado em 2002 por garis que prestam serviço à cidade, é dedicado a animar festas, fazer atuações teatrais e promover brincadeiras pedagógicas especialmente para crianças por meio da música. Tudo isso com um propósito: apresentar as questões ambientais sob o ponto de vista dos garis e, assim, ajudar na conscientização dos pequenos cidadãos.

    Integrante do grupo 'Gari da Alegria', Rose Gemaque, de 53 anos, conta sobre a satisfação de ensinar cantando. "Hoje gari é arte, gari é cultural. Os garis ainda sofrem preconceitos e o grupo foi criado para tirar essa imagem distorcida de que nossa profissão não é digna. A existência do grupo foi aprovada na Câmara Municipal de Manaus com o objetivo de levar esse trabalho de conscientização por meio da música, sempre mostrando que a reciclagem e o reaproveitamento do lixo é a forma mais correta de deixar o meio ambiente limpo para toda a sociedade”, diz a gari que atua há 27 anos e é moradora do bairro Cidade Nova. 

    Rose Gemaque e Alan Nacimento nas homenagens ao Dia do Gari realizado no Clube Fazendário,  em Manaus
    Rose Gemaque e Alan Nacimento nas homenagens ao Dia do Gari realizado no Clube Fazendário, em Manaus | Foto: JÚNIOR MELLO

    Para levar a alegria contagiante do grupo, os interessados devem entrar em contato pelos telefones (92) 99164-3543, ou (92) 99149-5034.

    De onde veio o nome gari?

    A denominação gari surgiu no século 19, quando os principais veículo de condução de pessoas nas cidades brasileiras eram as charretes puxadas por cavalos. Mas, essa 'mordomia' no transporte da época custava um preço não muito agradável, uma vez que os animais que realizavam esse trabalho defecavam pelas ruas e, com isso, causavam transtornos a todos - especialmente as senhoras e senhores da alta sociedade. 

    O francês Pedro Aleixo Gary foi o primeiro empresário a oferecer e prestar serviço de limpeza pública para o império, no Rio de Janeiro. Logo a frase "Chamem a turma do Gary" possivelmente deve ter sido a frase mais ouvida durante o século que antecedeu o aparecimento dos carros movidos a combustível.

    O termo "Gary" ganhou espaço no vocabulário do brasileiro para descrever os trabalhadores que faziam este tipo de serviço limpeza das cidades e é utilizado até os dias de hoje.

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