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    Campeões de jiu-jitsu pedem ajuda para participar de competições

    A academia Zyon reúne prodígios do jiu-jitsu

    Para muitos jovens o tatame substitui a rua
    Para muitos jovens o tatame substitui a rua | Foto: Divulgação

    Manaus - Eles fazem parte da academia Zyon, um projeto filantrópico que existe há cinco anos e reúne 100 alunos (entre crianças, adolescentes e adultos), idealizado pelo sensei João Wanderley,31, no bairro Zumbi 3, Zona Leste.

    Campeões em todos as disputas que já participaram, desta vez, dez atletas e o professor precisam de ajuda para competirem em mais dois, respectivamente, em Fortaleza em um campeonato mundial (25 e 26) e Brasília para um Open Internacional. Para isso, também irão fazer uma Vaquinha Virtual. Contato: 99178-7260.

    Mesmo com todas as dificuldades para manter a rotina dos treinos, as vitórias da Zyon são constantes e frutos de muita disciplina, respeito, dedicação, inclusive na escola.

    "Para estar aqui é preciso ser bom também na escola. Nossa regra é clara. Se tiram nota vermelha na escola, são punidos aqui. Eles entendem que não é justo com os pais deles ou responsáveis que, acordam cedo para trabalhar e colocar o pão na mesa e eles não se esforçarem na única missão que tem. Por isso, para estar aqui é preciso ser bom na escola. O mínimo que um pai merece é uma nota boa", avalia Wanderley.

     Atletas da Zyon que ganharam medalhas recentemente no campeonato em São Paulo
    Atletas da Zyon que ganharam medalhas recentemente no campeonato em São Paulo | Foto: Divulgação

    Regras estabelecidas e o empenho na escola e no tatame renderam ao atleta Gilson Santos, 12, o título de melhor aluno da classe. E não para por aí.

    Este ano tanto em Manaus, Boa Vista e São Paulo, outros alunos conquistaram medalhas de ouro, prata e bronze nos campeonatos estadual, brasileiro e internacional. Entre eles, Ana Beatriz, 11, Poliana Beatriz,8, Mateus Henrique Sardinha, 15, Saiury Marques, 12, Jonathan Soares, 12.

    "O trabalho feito na Zyon é totalmente de amor e doação. Eles não pagam nada para estar aqui. Sendo que o tatame é emprestado, não temos bebedouro comunitário, eles usam o da casa do sensei. O banheiro que foi construído foi doação. Mas isso não tem impedido de chegarmos onde chegamos. Não participamos mais porque não temos condições financeiras. As inscrições são muito caras. A gente paga a taxa, a carteira e aí chega um campeonato absoluto. Já foi o dinheiro. Aqui não temos padrinhos e políticos só aparecem para pedir votos. Não demoram nem dez minutos. Quando os atletas precisam competir, nos viramos com as doações de objetos fazendo rifa, bingo, vaquinha", conta Aldenia de Lima Silva, mãe de Thiago (campeão peso pesado) e Isac de Lima (pesado médio).

    Família de campeões

    A Zyon é uma criança no meio do esporte e tem como raiz e exemplo, a história do parintinense João Wanderley.

    Parte das dificuldades que os alunos superam no dia a dia é a falta de uma boa alimentação
    Parte das dificuldades que os alunos superam no dia a dia é a falta de uma boa alimentação | Foto: Divulgação

    Na casa do campeão brasileiro e mundial de Luta Livre e de Jiu-Jitsu o que não faltam são medalhas e troféus de campeonatos. Não só dele como da esposa e da filha de 5 anos. Sim, apesar da idade e de praticar Jiu-Jitsu desde os dois anos, a pequena Marley já acumula o título de campeã mundial de Luta Livre - categoria pluma.

    A esposa Maiara Lima, 25, é campeã amazonense e vice-campeã internacional, entre outros títulos.

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    João lembra que nunca teve o apoio dos pais para ser atleta, mas logo cedo entendeu o recado que a vida lhe dava.

    "Treino desde os 12 anos. Sou de família pobre e tipo nunca tive apoio dos meus pais para treinar. Eles nem perguntavam para onde eu ia todo dia às 7h. Só dizia assim: - Tu já vais para este tal de 'jougiti''. Comecei em um projeto social ministrado pelo professor Carlos Luciano Pereira que também não tinha apoio de ninguém. Hoje posso dizer que sou o Carlos Luciano Pereira. Passando pelas mesmas dificuldades do meu sensei", analisa.  

    Projeto após overdose

    Segundo o sensei, no Zumbi 3, para muitos jovens o tatame substitui a rua. E foi presenciando uma situação adversa que João Wanderley decidiu tentar mudar a realidade do local.

    "Aqui não temos uma área de lazer. A criançada fica nas esquinas. E uma criança na esquina com mente vazia, nós sabemos o que acontece. Infelizmente assisti um garoto vizinho meu sofrer uma overdose de cocaína aos 16 anos. Fiquei tão impressionado que me questionei sobre se eu tivesse feito alguma coisa antes, talvez ele tivesse tido uma opção na vida. E aí me perguntei: O que eu tenho na minha vida que eu posso oferecer para evitar que outras crianças passem por isso?.Foi quando criei o projeto que é pioneiro aqui. O que eu aprendi foi a luta que veio a mim de graça. E aí eu sempre falo que, se todo ser humano puder compartilhar um pouco do seu conhecimento com seu próximo, eu acredito que teríamos jovens com destinos melhores", avalia o professor.  

    Do sonho à realidade

    "Eu nunca imaginei viajando para São Paulo sendo responsável por cinco crianças para competir, incluindo uma de oito anos. Eu com cinco anos de idade tava brincando na lama. Fui para meu primeiro campeonato já adulto", lembra o sensei.

    Para a Ana Beatriz Pantoja, 11, a experiência de ter viajado pela primeira foi e é inesquecível. Ela até sonhava, literalmente, com as orientações.

    "Foi meu primeiro campeonato fora do Amazonas e a primeira vez que viajei de avião. Fui a primeira a lutar e pensava que ia encontrar meninas maiores que eu. Lá era muito frio. Mas lembrava do que o sensei falava. Foi o que fiz e ganhei graças a Deus", conta aos risos depois do professor lembrar que ela é sonâmbula e falava em sonho as dicas do professor.

    "O sensei procura compartilhar a bondade que ele tem com os alunos. Sempre une as academias. E com isso ele promoveu uma amizade muito forte com o pessoal do Zumbi. Nos tratamos com muito respeito e parceria. Graças a Deus, o professor mantém esse sonho vivo e nos motiva a correr atrás dos nossos ideais. Eu viajei pela primeira vez para São Paulo e lutar meu primeiro campeonato brasileiro. Treino há 4 anos", conta o atleta Mardson Gabriel, 18, um dos atletas que está tentando ir para Brasília. Ele ficou em 3 lugar em São Paulo e foi campeão em Roraima, categoria branco-leve.

    Desafio além dos tatames

    De acordo com o professor, outra grande dificuldade que os alunos superam dia-a-dia é a alimentação.

    "Alimentação do pobre é salsicha e ovo e que der para se manter de pé. Pelo menos para mim é um luxo comer carne. A maioria dos meus alunos toma café e almoça na minha casa.  Na academia no bairro Educandos, onde dou aula a noite, encontro as mesmas dificuldades, infelizmente", conta.

    "Conheço o trabalho do Wanderley, tanto como atleta quanto professor e o admiro por seguir incentivando tanto jovens. Faço parte de uma geração vitoriosa neste esporte, mas que para sobreviver nele precisou mudar de Estado. Lamentavelmente, as histórias e desafios continuam as mesmas. Houve uma época que eu precisei morar na academia. Tinha um quimono para treinar e outro para dormir", lembrou o campeão brasileiro e mundial de Jiu-Jitsu, Giovanni Tavares, 41.

    "Eu sempre falo para meus alunos não esperarem por ninguém. Apesar de toda dificuldade, precisam correr atrás do sonhos porque não vai sair um empresário, do nada, para investir", observa o professor.

    Ajuda

    Os atletas que vão disputar Mundial em Fortaleza  e têm grandes chances de conseguir medalhas, são: Isac Lima Araújo, 17, Thiago Lima Araújo, 16, Josué Araújo, 18, Rodolfo Nascimento, 19. Para isso, também irão fazer uma Vaquinha Virtual. Contato: 99178-7260.

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