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    conquista amazonense


    A primeira lutadora trans que lutou e venceu um homem no MMA

    Com polêmicas e aplausos em sua luta de estreia, Anne Veriato fez história no esporte na luta realizada em Manaus

    Apesar da Comissão Atlética Brasileira de MMA não reconhecer o evento, Anne marca como sua primeira luta contra um homem no MMA. | Foto: Arquivo Pessoal

    Manaus - A mulher que nasceu homem. A vitória em uma luta que marca uma nova fase para o MMA brasileiro. Anne Veriato, de 20 anos, se tornou a primeira transexual a desafiar o mundo do esporte ao lutar e vencer um homem na 34ª edição do Mr. Cage. O evento de MMA foi realizado no Jevian Festas, no bairro Nossa Senhora das Graças, Zona Centro-Sul da capital amazonense, na madrugada de domingo (11).

    Amante das lutas desde criança, ela uma desportista nata. Sua treinadora, Andréa Mc Comb, irmã da campeã mundial de Jiu-Jitsu Gabrielle Mc Comb, a prepara desde os sete anos de idade e conta a trajetória de superação e surpresas. "Comecei com ela depois que ela me procurou, como qualquer criança, mas eu não esperava que fosse vencer assim", disse Andréa. 

    A luta do 34º Mr. Cage em Manaus despertou muitas controvérsias dentro do esporte nacional e mundial.
    A luta do 34º Mr. Cage em Manaus despertou muitas controvérsias dentro do esporte nacional e mundial. | Foto: Arquivo Pessoal

    Andréa conta que Anne se mudou para a casa da treinadora para se dedicar aos treinos e ficou por dois anos. Então, ela decidiu ir embora sem mais explicações. "Fiquei sem entender o que havia acontecido, mas depois esqueci. Um dia, ela apareceu de novo no treino, mas já era outra pessoa e eu a não reconhecia mais", conta.

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    Com novo nome, a pele mais clara e uma silhueta sutil de mulher se formando, a treinadora conta que achou que a mudança na atleta era brincadeira. "Pensei que fosse mentira; não estava acreditando no que via. Ela disse que queria treinar novamente e, claro, a acolhi", diz a faixa preta em Jiu-Jitsu.

    O sonho de lutar MMA era antigo, mas apenas em janeiro deste ano Anne começou a treinar de verdade para o octógono, com uma preparação mais intensa e uma cobrança maior. A decisão partiu do proprietário do Mr. Cage e atual empresário da atleta, Samir Nadaf, justamente com a proposta da promover a luta da primeira mulher transexual lutar em uma arena de MMA contra um homem. 

    Desportista desde os sete anos, Anne é faixa marrom no Jiu-Jitsu.
    Desportista desde os sete anos, Anne é faixa marrom no Jiu-Jitsu. | Foto: Arquivo Pessoal

    "A gente fica bastante nervoso e apreensivo, mas o MMA é uma caixinha de surpresas. Estávamos apostando o sonho de Anne e, no final, o Samir autorizou. Disse que seria um marco no esporte. Saímos com o brilho nos olhos do escritório dele e, no último sábado, pudemos celebrar todas as expectativas em que acreditamos", relata a Andréa.

    A estreia 

    Mesmo com pouco mais de um mês de preparo físico, Anne confirma que sempre sonhou em sair do octógono não com o cinturão por ser estreante, mas com a vitória. "Entrei na arena concentrada e focada do que eu queria. Se teve vaias ou aplausos, não percebi. Fui mostrar pra todos do que eu sou capaz e, graças à Deus, mostrei. Agora, vou treinar mais ainda para honrar o meu título de campeã", comenta a lutadora, orgulhosa.

    Ela lutou na categoria peso palha (até 52 kg) contra o manauense Railson Paixão, de 18 anos, a vitória foi unanimidade entre os juízes, após a avaliação de três rounds bem trabalhados no mix de Boxe de Paixão Jiu-Jitsu de Veriato.

    A campeã da oitava luta do 34º Mr. Cage disse que o momento que o menino a encorajou fez toda a diferença para ela ganhar.
    A campeã da oitava luta do 34º Mr. Cage disse que o momento que o menino a encorajou fez toda a diferença para ela ganhar. | Foto: Divulgação

    "Teve um momento específico no round final em que fez toda a diferença pra mim. Um menino me chamou na grade da arena e disse para eu não desistir e que Deus estava comigo. Nossa! Consegui forças suficientes para conseguir que meu sonho da vitória fosse realizado ali", admite.

    Sendo a oitava luta da noite, Anne deixou a família em casa, admitindo que não queria que ninguém "se assustasse". Mesmo assim, a vibração dos pais e do irmão não diminuíram em frente à tela da televisão.

    "Ela nasceu homem"

    Uma das polêmicas que a luta trouxe foi a não regularização do evento na Comissão Atlética Brasileira de MMA, responsável por supervisionar o esporte no país. Segundo a entidade, eles não foram comunicados sobre a luta inédita na história da modalidade. Cristiano Sampaio, uma das autoridades da comissão atlética brasileira, que trabalha inclusive com o Ultimate Fighting Championship (UFC), disse que desconhecia o evento marcado para capital amazonense.

    Além disso, médicos especialistas na luta de MMA confirmam a reprovação da luta de Anne. Sob o ponto de vista médico, a hormônioterapia a qual a atleta se submeteu durante 10 anos ocasiona um desnível muito grande na luta contra os homens.

    Os remédios de bloqueio e produção do hormônio masculino, a testosterona, desnivelaria Anne em comparação aos outros lutadores nos quesitos força, agressividade, massa muscular, composição óssea, entre outros. Os remédios usados neste tipo de terapia costumam transformar a massa muscular em gordura e, com base nisso, outros pontos são argumentados pelos especialistas.

    O empresário Nadaf dispara sua opinião e diz que independente de Anne ter passado por tratamento hormonal durante 10  anos, continua sendo homem. "Ela nasceu homem e acho justo lutar contra um homem. Se quiser lutar MMA, vai ser contra um homem. Mesmo se ela mudou de sexa, ainda tem a força e a garra masculina", comenta.

    Apesar da controvérsia entre médicos especialistas na luta MMA que reprovam a luta e familiares e apoiadores da carreira que reconhecem a oportunidade da lutadora, Anne continua firme na decisão de continuar lutando no octógono - e diz que não será na categoria masculina.

    A treinadora da atleta rebate a comissão afirmando que os médicos não são justos, nem plausíveis nas considerações. "A criticam de lutar contra homens por estar se tornando uma mulher, mas também é provável de que a impeçam de lutar contra mulheres por ter um nível biológico diferente do restante das mulheres. Ela vai parar de lutar por causa disto? Claro que não!", exclama Andréa.

    Anne conta o que a desanima no esporte é que, mesmo vencendo sua luta de estreia na luta das artes mistas, ainda enfrenta obstáculos para ser aceita. "O que me deixa triste são os limites que as pessoas tentam me impor. Lutei contra homem toda a minha vida e vou continuar assim, independente das besteiras que ouço. Posso ser quem eu quiser e vou persistir na minha carreira de lutadora como mulher trans no MMA", encerra.

    Edição: Lívia Nadjanara

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