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    Veja a entrevista exclusiva com o pesquisador Leandro Karnal

    Na próxima sexta, o professor vem à Manaus fazer uma palestra sobre ética e educação

    A jornalista abordou Leandro Karnal sobre temas como educação, valores e princípios na era da modernidade líquida | Foto: Acervo Pessoal

    Manaus - Ele pode ser considerado uma figura controversa, em que a frase ideológica “Brasil, ame-o ou deixe-o” representa bem a dualidade por onde passa. Estou falando de Leandro Karnal*.

    (Karnal é um divisor de águas porque cutuca as feridas da gente sem pena ou piedade, mas com muita elegância, sarcasmo na medida e o bom humor equilibrado. Ele vai fundo nos dilemas humanos. Uns adoram, outros, nem tanto).

    Fez-se a Ética

    Sem entrar em questões políticas partidárias, nesse espaço coloco e comento alguns trechos de uma entrevista exclusiva com Karnal, em que o papo foi basicamente a respeito de ética, que é um dos assuntos que o pesquisador irá abordar na sua primeira palestra em Manaus, que acontecerá em plenária no Studio 5, Zona Sul, na próxima sexta (4).

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    Os demais assuntos abordados no dia serão liderança e educação, extremamente importantes, porém diante do pouco espaço livre do entrevistado. Preferi focar no assunto mais abrolhado e que, pra mim, é a espinha dorsal do resto de tudo no mundo!

    O primeiro tombo a gente nunca esquece

    Eu me sentindo feliz por conseguir uma entrevista exclusiva com o palestrante pop, levo meu primeiro tapa logo na primeira pergunta. Pensando que as coisas estivessem mais voláteis, mais líquidas e plásticas nesse mundão em transformação, perguntei sobre a continuidade dos valores neste cenário tão inconstante. Sabe o que ele me disse?

    “Na verdade, há valores que duram muito. Racismo e misoginia são bons exemplos. O que muda é a tecnologia, a popularidade, os gostos musicais, o aplicativo, o hit do momento. A ética é válida para épocas de maior imaginário de permanência e é válida para momentos de modernidade líquida.

    Quanto mais as coisas mudarem, maior o imperativo de uma ética sólida. Resta saber em qual momento, o Brasil, os valores teriam sido bons. Seria hoje ou no século XIX? 

    Hoje, o racismo é crime inafiançável, no século XIX, havia escravidão. Valores familiares? Espancavam-se crianças até o limite no passado. Hoje, há leis contra a prática. Vivemos em uma era mais desregrada hoje ou há cem anos? Falar em valores distorcidos é criar um imaginário de um passado brilhante e ético que nunca existiu”, explicou.

    Percebi ali que estava enrascada e o chute doeu, mas engoli o choro e continuei. Vem, vem, pensei, quero saber mais!

    Entre tapas e história

    No segundo soco a adrenalina já tinha tomado conta do físico e soltei a pergunta referente à nossa dificuldade em internalizar que se “os fins não justificam os meios” por que persistimos neste jogo perverso, pois - na minha humilde condição de aprendiz -, sempre achei que a proposição não é a mais ética. E aí, pá!

    “Porque a dedução da ideia (os fins justificam os meios, uma deformação de Maquiavel) sempre funcionou. Não internalizamos porque os fins, de fato, justificam os meios.

    Funciona colocar o amoralismo como método de ação. O crime compensa e enriquece ao criminoso, ao político e ao traficante. O problema é que não compensa por muito tempo.

    Não existe sustentabilidade em médio e longo prazo baseada em amoralismo. Porém, o ganho imediato pelo desvio ético (colar na prova) é obtido no instante da ação e o benefício do estudo regular é vivido ao longo de muitos anos.

    Funciona como o anabolizante: ele é eficaz, apenas não é sustentável. O desvio ético é uma realidade concreta, o princípio ético é uma abstração filosófica. Isso explica o sucesso do primeiro”.

    Uma viagem ao centro dos eus

    A partir daí senti o desejo de buscar uma explicação mais existencial e disse que se conseguimos viajar ao espaço, mas não avançamos na psicologia humana (inclusive mantendo-nos antiéticos), perguntei ao Karnal se estaríamos fadados às limitações da mente e como poderíamos avançar.

    "Não existe sustentabilidade em médio e longo prazo baseada em amoralismo", disse Karnal.
    "Não existe sustentabilidade em médio e longo prazo baseada em amoralismo", disse Karnal. | Foto: Divulgação

    Lá veio uma rasteira e a resposta do professor foi bem mais simples e prática. “Somos egoístas. O grande desafio é somar estes egoísmos para tornar o ambiente produtivo. Eu quero a cidade mais limpa possível porque isso me faz bem. Eu não jogo lixo na rua.

    A motivação não seria meus elevados princípios, porém meu egoísmo. O jogo de buscar seu bem e promover a ordem e a convivência para que cada um, para que você em particular, esteja bem, é um jogo que demanda muita coerção e muito consenso.

    Somos falhos nos dois itens no Brasil. A maior dificuldade é incluir-se na equação. Quase sempre olhamos para os outros e chegamos a dizer: o brasileiro é malandro, como se eu fosse alemão”, falou.

    Crianças como você

    Para tentar escapar de outro golpe, fugi pro assunto educação, achando que o excesso de liberdade que até levam alunos a surrarem professores, precisava ser repensada, já que as crianças precisam de “certos limites” e perguntei como poderíamos compatibilizar e educação dos pais com a da escola.

    Tinha acabado de me enforcar com a pergunta, pois Karnal respondeu “que essa visão da educação como libertária ou aberta é pouco fiel ao mundo real. Os jovens tradicionalmente não decidem currículos, não escolhem professores, não adotam livros didáticos, não debatem modelo de avaliação e tudo o mais.

    Cada vez mais está emergindo o cliente em detrimento do aluno e este sim, tem demandas específicas que são respeitadas pelo interesse da rede privada. Porém, em geral, a educação continua arcaica e autoritária.

    Todas as pessoas precisam de limites: pais, diretores, coordenadores, alunos e professores. Os limites fazem parte da formação da criança e da vida do adulto”.

    Fim de jogo

    Já sem fôlego pra continuar, tentei deixar o clima mais amistoso e perguntei sobre sua vinda à Manaus, e ele disse que é sua primeira palestra na cidade, mas que já conhecia a Amazônia.

    “Existe a exuberância natural do bioma e a história viva e pulsante do Amazonas. Sendo o maior estado brasileiro e rico em tradições históricas como a economia gomífera. Há tantas outras questões, sempre tive interesse na região.

    Sou fã da obra genial de Milton Hatoum. O Brasil ainda precisa sair da sua obsessão Sul-Sudeste. Está na hora de superar, enfim, o Tratado de Tordesilhas”, encerrou Karnal.

    *Perfil

    Doutor em História Social pela Universidade de São Paulo (USP) e professor na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Karnal escreveu, ou tem coautoria, em vários livros. Alguns, inclusive, como “Verdades e Mentiras”, “Felicidade ou Morte”,“Pecar e Perdoar”, “Detração – breve ensaio sobre o maldizer” e outros que também são sucesso de vendas no Brasil.

    Ele está sempre deixando uma reflexão no ar e em programas como o do Jornal da Cultura, da TV Bandeirantes, no Café Filosófico e seus vídeos fazem maior sucesso na internet. Além disso, Karnal é membro do conselho editorial de muitas revistas científicas do país.

    Karnal desenvolveu a habilidade de falar em público com maestria, um comunicador nato, que complementa a fala por meio da imagem forte, segura e determinada.

    Cristina Monte é jornalista, especialista em Comunicação Empresarial e assessora de imprensa.

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