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    opinião: cristina monte


    Uma visão sobre a ética na política amazonense

    Em meio a teses e discussões acadêmicas, o 'jeitinho' brasileiro é o que impera nas tomadas de decisões

    A jornalista Cristina Monte discorre sobre ética nos pensamentos e atitudes de políticos no Brasil | Foto:

    Manaus - “Ser ou não ser, eis a questão!” Esta frase é uma das mais enigmáticas da dramaturgia mundial e duvido que William Shakespeare imaginasse o quanto essa singela e complexa expressão estaria tão presente no imaginário coletivo de boa parte da aldeia global do século XXI.

    Se Hamlet resolveu o próprio dilema, nós ainda não encontramos na afirmação a solução para os nossos, demonstrando que avançamos pouco na psicologia humana. Nunca estivemos tão cheios de dúvidas e indecisões.

    Mas, muito antes de Hamlet, outro dilema vem nos colocando em xeque-mate: ser ético ou não ser! Na Grécia antiga, Sócrates já cutucava a autorreflexão dos atenienses, na tentativa de incitá-los à prática do bem, da elevação moral e da conduta reta, no entanto, pagou com a vida por essa “rebeldia”, que ia contra a democracia.

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    O desserviço da política

    Um bom retrato da nossa incapacidade ética pode ser observado em vários exemplos na política brasileira: são malas de dinheiro público encontradas por aí, denúncias e delações premiadas, impostos altíssimos cobrados da população e que não se revertem em benefício social, empresários e políticos em conluio, e a lista é tão grande que a gente ficaria aqui por horas.

    Nesse momento, a gente percebe que está muito mais distante do pensamento socrático, do que do tempo histórico de Sócrates.

    E agora?

    Dentre vários destaques na programação, eu terei a missão de abordar o tema “Ética na Política”. Desafio dado, parto do princípio de que não é possível falar do assunto sem - inicialmente - me autoanalisar. Estaria eu em condições morais para assumir tal empreitada? Não é nada cômodo a sincera autoanalise.

    Sempre há o risco de nos depararmos com nossas atitudes indigestas, afinal quem for perfeito que atire a primeira pedra e não serei eu a hipócrita a lançá-la. Meu método consistiu em separar os feitos positivos e os negativos, colocando-os na balança da justiça em frente à deusa Têmis.

    A ética nossa de cada dia

    Feita a autorreflexão, encontrei ações de sobra que me garantem olhar nos olhos de todos e ter total confiança no meu discurso, pois ética é pra mim uma premissa de vida, refletida em atos diários e exemplificada em várias decisões que venho tomando ao longo da minha estrada!

    Já me distanciei de gente que falava uma coisa e agia de outro modo, já pedi demissão por não concordar com a conduta ética da empresa, já deixei de vender imóvel, na época que atuava como corretora, porque o imóvel estava com problema na documentação e não ia enganar o cliente. Enfim, posso passar por boba, mas sigo a minha consciência. E talvez seja mesmo boba!

    Segurança além de regra

    Mas sou uma boba crítica, discordo do Estado quando me impõe que devo parar o carro no semáforo (vermelho) de madrugada, por exemplo. Quem hoje em sã consciência para?

    Claro que a gente verifica se não há risco de acidente e tal, mas essa regra não é apropriada nesses tempos de total insegurança. São Paulo há décadas resolveu esse problema permitindo às pessoas passarem de madrugada sem a tal parada, deixando os semáforos piscando.

    Para falar de ética, gosto muito de um pensamento do Mário Sérgio Cortella, o qual diz que “ética é o conjunto de valores e princípios que nós usamos para decidir as três grandes questões da vida: Quero? Devo? Posso? Tem coisa que eu quero, mas não devo, tem coisa que eu devo, mas não posso e tem coisa que eu posso, mas não quero”.

    E não dá pra compartimentar ética nas diversas áreas da nossa vida, porque é algo endógeno e permeia todas as nossas ações. A ideia é que a gente viva melhor em sociedade, respeitando o outro e garantindo direitos a todos, mesmo nessa realidade tão injusta. Afinal, o que adianta ser feliz sozinho?

    Falar e não fazer

    Infelizmente a teoria não condiz à prática, pois se você perguntar pra qualquer pessoa se ela é ética, você só vai ouvir um sonoro “sim”. Todo mundo é! Porque trabalha e cumpre com as obrigações do Estado.

    Se você perguntar ao Eduardo Braga, à Marina Silva, ao Temer, ao Lula, ao Geddel, ao Artur, ao Bolsonaro, ao João, Maria e José - todos - vão responder que são éticos. Então, por que o país chegou a esse ponto? Alguém está mentindo.

    O problema é que a gente tem enorme dificuldade em se inserir no sistema. Falamos mal e odiamos os políticos, mas somos nós que elegemos essas pessoas. Concordo que não temos muitas opções, mas, parte dos políticos - os corruptos - é reflexo da nossa sociedade em boa medida egoísta, mesquinha e mentirosa. Afinal, eles não são extraterrestres!

    Jeitinho brasileiro

    A questão é que a gente quer sempre tirar vantagem do outro, provavelmente, esse seja o pior mal do brasileiro. Seja no trânsito, seja nas negociações empresariais sujas, nos acordos políticos milionários ou em qualquer área e situação da vida. Até quando vamos viver sob o domínio da Lei de Gérson?

    Ser ético é uma construção diária como preconiza a ética aristotélica. Nascemos amorais! É algo que a gente constrói no dia a dia. Pra mim, todos os dias nós nos sentamos em frente de um tabuleiro de xadrez e jogamos com o senhor Destino.

    Somos nós que fazemos as jogadas, porém o senhor Destino também moverá as peças de acordo com as nossas movimentações! Você escolhe, mas arca com o ônus da escolha! Quanto você está disposto pagar por suas escolhas?

    Mentirinha só de leve

    Pra gente ser mais ético é preciso mentir menos. Tudo bem que há a “mentira social”, aquela que evita transtornos, porque não dá pra sair falando tudo o que a gente pensa. Lembra-se do Salgado Franco, personagem principal do programa Super Sincero, interpretado por Luiz Fernando Guimarães? Ele não tinha filtros e saia falando as coisas mais absurdas!

    Mas, também não dá pra viver de promessas vazias, não honrar os compromissos, enrolar as pessoas e por aí vai.

    Ninguém é 100% ético, que seria o ápice da percepção e perfeição humana.  Inconscientemente, podemos causar algum dano a alguém por desconhecer o contexto completo, por exemplo. Só a sabedoria universal possui um big data capaz de tal análise e, portanto, ser completamente ética.

    Mas, perguntas como eu vivo sozinho na sociedade?  Eu vivo bem e o que importa como vivem os demais? É essa sociedade que eu quero pra mim? Quais valores eu estou repassando aos meus filhos? Qual legado eu pretendo deixar à sociedade? Trato os demais como gostaria de ser tratado?  Me coloco no lugar dos outros pra entender o outro lado? São reflexões simples, porém contribuem pra gente enxergar além do que vê e, portanto, ser mais ético, plantando sementes do bem.

    Tem gente que acha chato esse negócio de ser certinho, mas eu não me sinto inteligente o suficiente pra investir o tempo fingindo ser o que não sou e, também não acho legal enganar as pessoas porque não gosto de ser enganada! Pelo menos eu faço a minha parte, se a outra, me enganar, aí já não tenho o controle. Pior que enganar os outros é enganar-se!

    Enfim, o que quero dizer é que - pra mim - ética é uma questão de conscientização. Há uma escala em que numa ponta está a ética e no oposto está a antiética, o que irá determinar o nosso nível de ética é o grau da percepção individual. Então não é ser ou não ser, é ser e saber o quanto se é pra ser mais ainda!

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