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    Editorial


    O país do futebol e a alienação política

    O país não mudou. A greve dos caminhoneiros continua tendo reflexos na economia das cidades, a Justiça segue, dia após dia, encontrando novos casos de corrupção na política

    Oito horas da manhã, avenida Mario Ypiranga Monteiro (Recife), em frente à Assembleia Legislativa do Amazonas (Aleam), e o jogo da seleção brasileira contra a Costa Rica começando. Em dias normais, o local estaria abarrotado de carros no costumeiro trânsito de Manaus, mas nesse caso, apenas dois ou três veículos circulam na área. Afinal, é jogo do Brasil, é Copa do Mundo!

    O país não mudou. A greve dos caminhoneiros continua tendo reflexos na economia das cidades, a Justiça segue, dia após dia, encontrando novos casos de corrupção na política, a máquina estatal permanece inchada, e o Supremo Tribunal Federal (STF) segue sua sina de, em muitos casos, cumprir a rigor a Constituição Federal em prol somente de interesses de cidadãos comprovadamente corruptos.

    Diante desse cenário, inevitavelmente, a pergunta que vem à mente é: por que o brasileiro não se preocupa com assuntos relevantes, como se preocupa com o futebol? É verdade que o julgamento do habeas corpus do ex-presidente Lula no STF prendeu a atenção de muitos brasileiros em meados do mês de abril, mas ainda é pouco.

    O gigante acordou em 2013, nas passeatas que levaram milhões de pessoas às ruas, mas voltou a adormecer.

    Um exemplo é que o ministro Gilmar Mendes soltou, em um mês, mais de 20 presos da Operação Lava Jato, e não houve nenhum movimento popular sobre isso. O presidente Michel Temer é acusado de chefiar um esquema que desviou R$ 587 milhões dos cofres públicos, ministros têm regalias, juízes, mesmo com casa própria, recebem auxílio moradia, investigados não podem mais ser conduzidos coercitivamente para depor, e mesmo assim ninguém fala nada.

    Nada contra torcer pela seleção brasileira. O futebol é um esporte que traz muitas alegrias ao povo, mas nem só de diversão vive uma nação. É hora de o Brasil parar, mas não somente para ver jogo da seleção. É preciso parar, reavaliar e agir. Pressionar os políticos, cobrar melhores condições de educação e saúde, de transporte, de moradia e, sobretudo, é hora de parar e avaliar de forma séria os políticos que vão se apresentar nessas eleições.

    Bom seria, se tudo fosse como no futebol.

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