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    Opinião


    Cidadania também se aprende

     
    Recentemente, um grupo de moradores do Adrianópolis se reuniu para impedir que o espaço da praça Nossa Senhora de Nazaré fosse diminuí­do. A prefeitura queria aumentar o espaço da rua e do estacionamento em detrimento à praça e os moradores disseram não.
     
    O bairro, que antigamente era a Vila Municipal, abrigava grandes casarões dos primeiros moradores da classe média. Com o tempo, os casarões foram sendo demolidos e no lugar deles erguidos espigões. Os moradores, muitos deles ocupantes de apartamento desses espigões, não queriam perder ainda mais espaço verde para os veículos.
    Ao descobrirem que eram vizinhos com um mesmo ideal, juntaram-se com a Manaus Direitos Urbanos e estão levando a sério o projeto de “povoar” a praça. Descobriram também que entre a turma havia técnicos do Inpa (Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia) que identificaram as plantas da praça e as “emplacaram” com seu nome comum e científico além do nome de um morador ou moradora antiga.
    Por iniciativa desses ativistas (não querem que se fale em nomes individuais, e sim da Manaus Direitos Urbanos) começou um movimento cultural que, inicialmente consiste em um sarau na última quinta feira de cada mês, mas pelo visto tem raízes fortes e pode crescer, se desenvolver e ramificar para outras atividades.
     
    O que surgiu como um protesto contra uma ameaça do poder público, hoje está sendo entendido por este como uma grande contribuição ao patrimônio comum.
     
    Embora, como toda a associação, esta também conta com muita simpatia dos cidadãos, porém com um grupo muito pequeno de voluntários, presente em todas as atividades, consegue respeitabilidade, espaço na mídia e imitadores em outras regiões da cidade.
    A Vila Municipal, cujo nome foi mudado para Adrianópolis em homenagem ao ilustre médico Adriano Jorge, e todas as suas ruas eram conhecidas pelo nome das capitais dos Estados do Nordeste brasileiro, como Recife, Fortaleza, São Luís, Maceió e outros. Também esses nomes estão sendo oficialmente trocados, embora em casos como esse o oficial “não pega” e as pessoa sempre vão usar os nomes tradicionais.
     
     
    Não que os homenageados não mereçam este destaque, mas porque as pessoas são assim. É mais fácil dizer “Recife” que “Mário Ypiranga Monteiro”.
    Não é um caso específico de Manaus uma vez que em Porto Alegre existe a rua dos Andradas há mais de sessenta anos e os jovens ainda dizem: “É a antiga Rua da Praia”. Isso apenas para citar capitais extremas.
    No agitado mundo das grandes cidades onde cumprimentamos nosso vizinho de maneira automática, onde por vezes decoramos o modelo do seu carro, mas nem queremos saber de sua atividade, iniciativas como a recuperação de praças com o esforço comum promove mais que proteger a natureza. A praça serve para sociabilização entre vizinhos, bate papos, troca de calorosos apertos de mãos, abraços, sorrisos, olho no olho, essas energias que o telefone ou a internet anularam.
     
    Com o slogan “A Praça é Nossa” os moradores querem que ela se mantenha com vida e sirva de ponto de interação com os vizinhos e outros moradores.
    Será uma utopia muito grande sonhar com o retorno da praça, como a aquela que Carlos Imperial compôs e fez tanto sucesso na voz de Ronnie Von na década de 60? Os tempos podem ser outros, os meios e as modas também, mas as pessoas ainda procuram um lugar para curtir a paz e, quem sabe, despertar um grande amor.