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    Comissão quer revogar expulsão de chineses torturados pela ditadura no Brasil

    Audiência pública da Comissão Nacional da Verdade (CNV) e a Comissão da Verdade do Rio sobre o caso de prisão e expulsão de nove chineses pela ditadura – foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil
    Audiência pública da Comissão Nacional da Verdade (CNV) e a Comissão da Verdade do Rio sobre o caso de prisão e expulsão de nove chineses pela ditadura – foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil

    Noves chineses torturados e condenados por subversão pela ditadura militar no Brasil devem ter a expulsão do país revogada, defendeu nesta sexta-feira (26) a Comissão da Verdade do Rio de Janeiro.

    Depois de concluir que o caso não passou de perseguição ao regime econômico e político da China, a comissão cobra também a devolução pelo Brasil de um montante de cerca de U$ 53 mil dólares.

    A quantia foi confiscada com os estrangeiros no momento da prisão, em 1964. Os estrangeiros eram altos funcionários do governo chinês, além de um jornalista, e estavam no Brasil a convite.

    Durante audiência pública sobre o caso, nesta sexta, a advogada da Comissão Nacional da Verdade Rosa Cardoso se comprometeu a discutir a inclusão, no relatório final, que será entregue em dezembro, de uma recomendação para que o governo brasileiro cumpra as medidas.

    O Itamaraty já estuda revogar a expulsão e devolver o dinheiro apreendido ao governo chinês, que em valores atualizados pode chegar a cerca de R$ 500 mil.

    Os nove chineses, cinco dos quais ainda estão vivos, participavam no país de uma missão comercial, a convite do então presidente Jânio Quadros.

    Era uma tentativa de estabelecer relações comerciais entre os países e assinar acordos bilaterais. Eles foram presos em 3 de abril de 1964, no apartamento onde estavam, no Rio.

    Ao longo do processo, os chineses foram torturados pelo Departamento de Ordem Política e Social (Dops) com chutes, socos, queimaduras de cigarros, como contou em depoimento gravado para a audiência, Ju Quingdong, de 84 anos.

    "Policiais cerraram-me sozinho numa câmara de tortura [no Dops]. Usavam a ponta do cigarro para queimar minhas pernas e pisavam na minha barriga", contou.

    Quingdong era jornalista da Agência de Notícias Xinhua e tinha sido convidado pelo governo para estar no Brasil junto com os demais comerciantes chineses. Mesmo depois do que passou, tentou visitar o Brasil com a família em 1997, mas teve o visto recusado.

    Ao apresentar o caso dos chineses, a advogada que defendeu os estrangeiros em 1964, ao lado do jurista Sobral Pinto, Eny Moreira, contou detalhes do processo, que incluiu sete julgamentos e a fabricação de provas para incriminar o grupo, como agulhas envenenadas e bombas teleguiadas.

    “O pretexto, dessa prisão, da condenação e da expulsão dos nove chineses era convencer a opinião pública que o governo deposto tinha mandado buscar especialistas em guerrilhas e sabotagens para concretizar o que os militares chamavam de comunismo”, avaliou Eny.

    A comissão também concluiu que participaram das prisões, além dos militares, o então governador do estado da Guanabara (atual cidade do Rio) Carlos Lacerda e o serviço secreto da China Nacionalista- apoiado pelos Estados Unidos. “Cada vez mais a  historiografia mostra que o golpe não foi somente militar.

    Os militares foram testa de ferro, mas houve a participação de empresários, igrejas e governadores do Sudeste”, acrescentou a advogada Rosa Cardoso.

    Detalhes da prisão e do processo contra os nove chineses foram fartamente relatados no livro Vaso dos Nove Chineses, dos jornalistas Ciça Guedes e Murilo Fiúza. Durante sete meses, eles pesquisaram documentos no Arquivo Nacional e no antigo acervo do Dops, no Rio.

    Por Agência Brasil