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    Vírus da febre amarela teve mutação inédita que pode ter provocado surto

    A febre amarela é causada por um vírus da família Flaviviridae e ocorre em alguns países da América do Sul - Divulgação

    Pesquisadores do Instituto Oswaldo Cruz descobriram que o vírus do último surto de febre amarela - o maior desde o início dos registros do Ministério da Saúde - tem uma sequência genética jamais vista.

    Instigados pela extensão da última epidemia, eles fizeram o sequenciamento completo do genoma do vírus e encontraram oito mutações inéditas em algumas de suas sequências genéticas.

    Dessas variações, sete têm impacto na formação de proteínas envolvidas na replicação viral, processo que permite que o vírus provoque a doença. É possível que essa diferença genética seja um dos motivos do último surto de febre amarela.

    Myrna Bonaldo, chefe dos laboratórios de Biologia Molecular de Flavivírus e de Mosquitos Transmissores de Hematozoários do Instituto Oswaldo Cruz, diz que ele também pode ser explicado pelo fato de a população da região impactada (Minas Gerais, Espírito Santo, São Paulo e Rio de Janeiro) ser pouco coberta pela vacina.

    O país já registrou 756 casos confirmados da doença em 2017, contra 7 em todo o ano passado. Desses, 259 acabaram em morte até agora. Minas teve 65% das ocorrências e o Espírito Santo, 31%. A febre amarela existente hoje no país é a de transmissão silvestre, que ocorre em áreas rurais e de mata.

    Mesmo com a descoberta, a vacina adotada atualmente continua valendo, dizem os cientistas. Isso porque essas mudanças não afetam as proteínas do envelope do vírus, que são centrais para a eficácia da imunização.

    O impacto dessa nova informação para a saúde pública ainda não está claro. Constatar as variações foi apenas o primeiro passo.

    "Agora, precisamos estudar o vírus em laboratório para entender se ele é, de fato, mais agressivo para humanos, animais e vetores [mosquitos]", afirmou Myrna.

    Os pesquisadores também querem saber quando essas alterações ocorreram e como o vírus se espalhou. Para isso, pretendem comparar amostras atuais e antigas - o último sequenciamento genético foi feito em 2010, na Venezuela.

    Eles já colheram amostras de mosquitos e dois macacos do Espírito Santo, mortos em fevereiro deste ano, e de um macaco do Rio. Agora, querem pegar de humanos, macacos e mosquitos de outros Estados.

    Luiza Franco

    Folhapress