Fonte: OpenWeather

    Futebol de rua


    Confusões em campo adiam final de campeonato no Riacho Doce 3

    Uma das semifinais do torneio foi interrompida após uma briga entre as equipes “Ajacs” e “Amigos da Comunidade”. O campeão do duelo, ainda sem nova data definida, irá disputar a final pelo prêmio de R$ 5 mil

    Campo do Neyzinho, palco da confusão entre os times durante uma das semifinais | Foto: Arquivo/AET

    Campo do Neyzinho, palco da confusão entre os times durante uma das semifinais
    Campo do Neyzinho, palco da confusão entre os times durante uma das semifinais | Foto: Arquivo/AET

    Manaus - A final do Campeonato de Futebol de Rua do Riacho Doce 3 continua indefinida. Isto porque as equipes “Ajacs” e “Amigos da Comunidade” estão envolvidas em uma confusão que resultou na suspensão do jogo de uma semifinal, ocorrida no dia 26 de outubro deste ano, no “Campo do Neyzinho” da comunidade situada no bairro Cidade Nova, Zona Norte de Manaus.

    Conforme informou, nesta quinta-feira (7), o presidente da comunidade, o autônomo Almah Zacarias, de 46 anos, a partida foi interrompida após uma confusão envolvendo jogadores das duas equipes e o árbitro de futebol. 

    O caso

    A anulação ganhou repercussão dois dias depois, na segunda-feira (28), quando equipes da Companhia Independente de Policiamento com Cães (CIPCães) se deslocaram até um terreno, situado na rua Esperança, porém na comunidade Riacho Doce 2, e iniciou buscas por um possível corpo de um homem desaparecido. 

    Equipes da Polícia Militar realizaram buscas na comunidade após o recebimento de denúncia anônimas
    Equipes da Polícia Militar realizaram buscas na comunidade após o recebimento de denúncia anônimas | Foto: Arquivo/AET

    Conforme os policiais militares da 6ª Companhia Interativa Comunitária (Cicom), a equipe policial recebeu denúncias anônimas de que durante uma partida de futebol, no “Campo do Neyzinho”, houve uma confusão generalizada. 

    Os PMs informaram à imprensa que no conteúdo da denúncia havia a notícia de que durante a briga um homem teria sido ameaçado e sequestrado por traficantes de uma facção criminosa. 

    Leia também: Líder da FDN preso forneceu armas para confronto que deixou 17 mortos

    Na segunda (28) e terça (29) os policiais realizaram buscas no terreno, inclusive com o auxílio da cadela Ronda, especialista em localizar cadáveres, no entanto nada foi encontrado.

    Buscas tiveram início na segunda-feira (28) e continuaram até a terça (29) do mês passado
    Buscas tiveram início na segunda-feira (28) e continuaram até a terça (29) do mês passado | Foto: Arquivo/AET

    Esclarecimentos 

    O líder da comunidade e o presidente da equipe “Amigos da Comunidade”, o motorista particular Felipe Bastos de Andrade, de 27 anos, se posicionaram sobre o caso. Em entrevista ao Portal Em Tempo, nesta quinta-feira (7), os dois negaram qualquer participação de traficantes no jogo e desconhecem vínculos dos times com fações criminosas.

    Segundo eles, a informação repassada anonimamente à Polícia Militar do Amazonas (PM-AM), de que a briga entre os times envolvia traficantes e resultou no sumiço e assassinato de um homem, é falsa. 

    A cadela Ronda, do CIPCães, foi utilizada durante as buscas
    A cadela Ronda, do CIPCães, foi utilizada durante as buscas | Foto: Arquivo/AET

    “Estou como presidente da comunidade há três anos e afirmo que não há envolvimento dos times que disputam o torneio com facções criminosas. Nem tão pouco houve de fato o sequestro e assassinato, tanto é que a polícia não localizou nenhum corpo. A informação passada à polícia foi totalmente equivocada”, defende Almah Zacarias, ressaltando que a comunidade é tranquila e não há indícios de movimentação do tráfico de drogas na região. 

    Andrade, que é morador do Núcleo 9 do bairro Cidade Nova, também crítica o teor das denúncias e diz que os jogadores de ambos os times ficaram assustados com a repercussão do caso.

    Reportagem acompanhou o trabalho policial na região
    Reportagem acompanhou o trabalho policial na região | Foto: Arquivo/AET

    “Todos os jogadores são pessoas de bem, trabalhadores, sem envolvimento com coisas erradas. Acredito que essa denúncia de briga de facção na partida de futebol foi um equívoco, uma falsa informação repassada à polícia”, analisa.

    Área demarcada 

    Durante as buscas iniciadas após o recebimento de denúncia sobre um possível corpo enterrado na região, o Portal Em Tempo acompanhou o trabalho policial. Na ocasião, imagens dos pontos visitados junto com os PMs foram registradas. Nelas, é possível identificar cenários típicos a ambientes propícios a torturas, como, por exemplo, o famoso “tribunal do crime”, em que os desafetos de traficantes são amarrados e torturados até a morte. 

    Leia também: Juízes decidem que 'Zé Roberto' vai continuar em presídio federal

    Um dos pontos visitados pela PM no local
    Um dos pontos visitados pela PM no local | Foto: Arquivo/AET

    Em uma das casas, havia uma cadeira com fios elétricos que, segundo os policiais no local, geralmente é usada para punir traficantes traidores ou qualquer outro morador da comunidade que não esteja de acordo com as regras impostas pelos chefões do tráfico. O local, conforme os PMs, é do tipo “barraco” e é comum ser utilizado como ponto de monitoramento para avisar os criminosos sobre a presença de rivais ou a chegada da polícia.

    Pela comunidade, há paredes de casas com a sigla da facção criminosa Família do Norte (FDN). Curioso é que no próprio “Campo do Neyzinho” um dos muros está pichado com a sigla FDN-AM e os dizeres “BillyDLZl7” e “RD3”, este último uma referência à comunidade Riacho Doce 3.

    Segundo a PM, o cenário é típico de local onde vítimas são torturadas
    Segundo a PM, o cenário é típico de local onde vítimas são torturadas | Foto: Arquivo/AET

    Quando indagado sobre a demarcação do tráfico na região, principalmente no próprio campo de futebol palco da confusão e alvo das denúncias de briga entre traficantes, o presidente da comunidade destacou que nos quatro cantos de Manaus há o mesmo tipo de pichações em alusão a facções criminosas.

    A reportagem, então, o questionou se o cenário não mancha a comunidade e, principalmente, os frequentadores do campo de futebol. A reposta, não entanto, foi enfática. “Prefiro não me pronunciar”, declarou Zacarias.

    Cadeira e fios elétricos possivelmente utilizada por vítimas em interrogatórios
    Cadeira e fios elétricos possivelmente utilizada por vítimas em interrogatórios | Foto: Arquivo/AET

    Já o motorista Felipe Andrade também destacou que é comum as siglas de facções em vários pontos da cidade. Porém, quando os questionamentos foram direcionados apenas para a análise do campo, o principal local em que deu origem à briga e as denúncias recebidas pela polícia, o representante do time “Amigos da Comunidade” respondeu: “De fato, esse cenário também mancha a nossa comunidade, mas é algo que o poder público precisa fazer. O espaço está precisando de uma reforma, é papel da Prefeitura tirar a pichação do muro”, pontuou.

    Na comunidade, é comum pichações com a sigla de uma facção criminosa
    Na comunidade, é comum pichações com a sigla de uma facção criminosa | Foto: Arquivo/AET

    À reportagem, Andrade informou que os times envolvidos na competição pagam R$ 100 reais, por cada mesa, durante cada jogo de um total de 11 confrontos, o que totaliza R$ 1,1 mil. A premiação para a equipe campeã, segundo ele, seria de R$ 10 mil, porém o valor foi abatido em R$ 5 mil para esta edição. 

    Ainda segundo Felipe, os times não pagam para jogar no campo e o evento é organizado pela própria comunidade, pois não há Liga Desportiva. Indagado sobre a possibilidade de arrecadação de verba entre os próprios times, que disputam o torneio, para a pintura do muro em que há a pichação com a sigla da facção, o motorista disse ter gostado da ideia e se prontificou que, junto com os demais amigos, irá pintar o local.