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    Política


    Que fenômeno é esse? Entenda como 'Ama' se reinventa após mais de 30 anos na política amazonense

    Amazonino Mendes é eleito pela quarta vez governador do Amazonas -Foto: Ione Moreno

    Eleito governador do Amazonas, com 60% dos votos válidos, Amazonino Armando Mendes (PDT), 77 anos, entra para a história do Estado como o único governador a exercer o cargo por quatro vezes. Já são 34 anos, desde que foi nomeado prefeito de Manaus, em 1983.

    Com uma carreira política cercada por polêmicas e baseada na chamada “velha política” - apesar das promessas de renovação -, Amazonino se elegeu com o discurso de "amor" e reconstrução do Estado.

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    Natural do município de Eirunepé, o advogado e empresário iniciou sua trajetória na vida política do Estado em 1983, pelas mãos do então governador à época, Gilberto Mestrinho, morto em 2009, quando foi nomeado prefeito da capital amazonense. “Negão”, como passou a ser conhecido popularmente, ainda foi eleito para o cargo mais duas vezes, em 1993 e em 2009. Por três vezes, também foi governador do Amazonas, entre os anos de 1987 a 1990 e 1995 a 2002, além de ocupar o cargo de senador, de 1990 a 1992.

    Amazonino entra para a história do Estado como o único governador a exercer o cargo por quatro vezes - Ione Moreno

    Desde que saiu da prefeitura de Manaus, em 2012, ele havia decidido se "aposentar" da política e chegou a afirmar diversas vezes que não iria disputar  nenhum mandato político, até ter uma reviravolta no Estado, em 4 de maio deste ano, quando a Justiça Eleitoral, no âmbito nacional, manteve a cassação  do então governador José Melo (Pros) e de seu vice Henrique Oliveira (sem partido), determinando eleições diretas imediatamente. Iniciava-se ai  toda uma estratégia de seus aliados para convencer Amazonino a adiar sua aposentadoria e entrar na disputa eleitoral atípica.

    Na visão dos aliados, o ex-prefeito seria o único político com chances reais de derrotar o principal adversário, o senador Eduardo Braga (PMDB). Para outros, o pedetista seria "carta fora do baralho". Apostava-se no cansaço dele, que está com 77 anos. Afastado da cena política, passou os últimos cinco anos como observador, recebendo amigos em sua residência, no bairro Tarumã, Zona Oeste, com os quais compartilhava sua experiência política, adquirida  em mais de três décadas.

    Vez por outra tecia algum comentário sobre decisões que considerava equivocadas, mas nada que demonstrasse desejo de voltar a um cargo eletivo. Depois de muitas conversas, especulações e estratégias montadas, o grupo político criado em torno de Amazonino, conseguiu convencê-lo a entrar na disputa.

    Prefeito de Manaus Arthur Neto apoiou canditatura de Amazonino Mendes

    Para fechar a aliança, Amazonino deu o golpe de mestre: conseguiu o apoio formal de um adversário político de peso, o prefeito de Manaus Arthur Neto (PSDB), que cedeu para compor a chapa o deputado estadual do partido, Bosco Saraiva, que um dia já compôs as hostes de Eduardo Braga.

    Pronto, a coligação estava fechada e, com a imagem de "Salvador do Estado" e uma campanha alicerçada pela figura de um político popular, humilde e amigo do povo. Ao longo de mais de dois meses, "Negão" surgiu como um senhor boa praça, gente como a gente, "amigo dos menos favorecidos", pronto para reconstruir a saúde, a educação e os "serviços que foram destruídos nos últimos anos".

    Eleitor declara admiração por Amazonino -foto: Clóvis Miranda/divulgação

    Que fenômeno é esse?

    Independente de marketing político, há toda uma memória histórica por traz da figura de Amazonino. Mas o que muita gente se questiona é: como Amazonino Mendes consegue permanecer tanto tempo na memória das pessoas? Que poder é esse de se reconstruir, aos 77 anos, depois de vários mandatos e  ser considerado "aposentado politicamente”, após uma gestão fracassada à frente da prefeitura de Manaus e, agora ressurgir como um furacão, derrotando Eduardo Braga, que no início da campanha, era considerado favorito.

    Para analistas políticos, ainda há a memória histórica de que Amazonino é um "fazedor de obras". Durante a primeira gestão municipal, em 1983, ele regularizou invasões, urbanizou bairros e pavimentou mais de 600 ruas. Quatro anos depois, elegeu-se governador do Amazonas, e foi durante esse mandato que construiu o Bumbódromo de Parintins, que popularizou a festa no Brasil e no mundo.

    Amigos e familiares falam da inteligencia de Amazonino

    O sociólogo Marcelo Seráfico explica a popularidade de Amazonino, mesmo após ter saído com baixa popularidade no último mandato. “Ele saiu do último mandato extremamente desgastado, envolveu-se em polêmicas muita sérias. No entanto, voltou com uma grande força popular. Há várias razões para isso: a principal é o jeito ‘diferente’ de fazer política. O Amazonino tem um grande carisma. Podemos dizer que ele definiu uma forma de fazer política no Amazonas. Os outros tentam reproduzir esse modelo, mas ninguém tem o carisma que ele tem. É uma qualidade que desenvolveu ao longo do tempo. Trabalha muito com o emocional, abraça, beija as pessoas, fica próximo do povo. As pessoas gostam deste envolvimento", explicou.

    Para o professor e sociólogo Francinézio Amaral é preciso compreender que governador eleito faz um discurso populista. "Ideologicamente representa a busca pela manutenção do poder, do grupo que ele representa, uma direita conservadora que está sempre disposta a agradar ou ceder aos caprichos do mercado. Ele é o símbolo desse grupo que ainda tem força", opinou.

    Amazonino em comício no bairro Compensa em Manaus -foto: Clóvis Miranda/divulgação

    Projetos marcantes
    Durante sua carreira polícia, Amazonino planejou vários projetos para alavancar a economia do Estado, além do Pólo Industrial de Manaus (PIM). Uma das mais conhecidas foi o "Terceiro Ciclo". Lançada entre os anos de 1995 e 2002, o projeto prometia revitalizar a economia do interior do Estado, incentivando a agricultura na região Sul do Amazonas.

    Foi nessa época que  “Negão” construiu importantes obras para o setor da saúde, como o Pronto-Socorro João Lúcio, na zona Leste de Manaus, e os Centros de Atendimento Integral à Criança, Centros de Atenção Integral da Melhor Idade e o Hospital Francisca Mendes, na Zona Norte da cidade.

    Mas foi na área da educação que ele deixou um de seus principais legados, com a criação da Universidade do Estado do Amazonas (UEA), que passa, atualmente, por grave crise e suscita debates sobre sua capacidade de sustentação.

    Amazonino deixou um grande legado para  a população do Estado, a Universidade do Estado do Amazonas (UEA)

    Família
    Amazonino tem três filhos e quatro netos. A jornalista Lívia Mendes, uma das filhas do governador eleito, diz que o pai nasceu para ser político. “Quando éramos crianças, ele nos levava para perto da natureza, sempre estava com a gente. Com o passar do tempo, quando entrou, definitivamente para a política, ficou distante, com uma rotina de vida muito intensa. Falando de meu pai, como pessoa e não como político, o considero um homem muito observador. Ele sempre dá entender o que quer, mas nunca impõe. É uma pessoa extremamente inteligente. Às vezes, é duro sim, como um pai tem que ser, mas foi sempre o meu primeiro amor”.

    Para o amigo e vice-governador eleito, Bosco Saraiva, Amazonino é uma pessoa agradável de se conviver. “Ele é um cara divertido. Enfrenta as coisas com muita naturalidade. Culturalmente, é uma fonte de conhecimento. Presto muita atenção no que ele diz em relação a conceitos naturais. Alegre, brincalhão, exatamente o que as pessoas enxergam na televisão. Convivendo com ele eu consigo aprender muito, devido a vasta experiência que carrega”, disse.

    Bosco Saraiva relata que, apesar das desavenças políticas do passado, sempre teve muito respeito por Amazonino. “Temos uma amizade muito respeitosa, não é uma coisa de bajulação. Já tivemos nossas desavenças políticas, mas nada com desrespeito. Quando todos pensavam que ele já estava aposentado, volta com toda essa energia. É muito querido pelo povo, isso ficou muito evidente na campanha política".

    Amazonino é abraçado pela população em comício -foto: Clóvis Miranda/divulgação

    Desafios pela frente

    Traçando sua campanha com a marca da reconstrução, termo que usou durante toda a campanha, Amazonino reconhece que terá uma enorme tarefa pela frente. "Eu sei o que me espera. Sou consciente. O estado está desarrumado, brincaram com a coisa pública, jogaram fora as conquistas. Os hospitais que fizemos já não te recebem mais, praticamente fecharam as portas. Há uma falência do serviço público. Eu vou arrumar a casa, colocar ordem e recuperar”.

    Assim que assumir o comando do Estado, a oposição na Assembleia Legislativa (Aleam) promete cobranças incessantes ao novo governador. Para o deputado José Ricardo (PT), a eleição de domingo não resolverá os problemas do Estado. “A eleição foi desanimadora, não só pelo recurso utilizado, em que foram gastos mais de R$ 34 milhões pela Justiça Eleitoral, como pelo fato de que não há esperança de melhorias para o Amazonas. Talvez as eleições de 2018 possam reacender essa chama", declarou o petista.

    Independente das questões partidárias e das discordâncias dos caciques políticos, o certo é que o Amazonino pode ser considerado um fenômeno da história política do Estado, pois não é comum, um político passar quatro décadas no poder.

    Amazonino tem 77 anos

    O governador eleito tem, pelos próximos 14 meses, uma das tarefas mais árduas de sua carreira política. Resta saber se ele vai se lançar à reeleição em 2018. Mas isso, segundo Amazonino, é assunto só para o ano que vem.

    Gláucia Chair e Mara Magalhães
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