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    Saúde E Bem Estar


    Padrões sociais resultam em distúrbios

    A “necessidade” do emagrecimento, imposta pela sociedade como um todo, prejudica a autoaceitação -  fotos: Divulgação 

    Os padrões sociais de beleza e a necessidade em atendê-los, imposta como uma obrigação, são grandes influenciadores para o surgimento de distúrbios alimentares em crianças, como a anorexia e a bulimia. De acordo com os especialistas, essa imposição leva a visões distorcidas da realidade que favorecem esses problemas psicológicos, muito presentes, principalmente, nas mulheres.

    “As causas são muito relativas. Afinal, a sociedade, cultura, meio social e família estão inclusos como fatores de risco, porque influenciam muito o modo como a pessoa conduz a vida. Entretanto, a mente pode ajudar nesse processo, já que suas opiniões podem ser influenciadas e também sua cabeça pode estar distorcida com o mundo. Dificuldades de alimentar na infância e crises de ansiedade estão relacionadas também. Assim, as causas podem ser: problemas biológicos, distúrbios psicológicos ou ainda questões culturais (influências de pessoas) relacionadas ao desejo de ficar magra ou não engordar”, explica a psicóloga e master coach Cíntia Lima.

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    Cíntia destaca que a anorexia e a bulimia estão relacionadas ao medo de engordar, mas aponta as diferenças. “A anorexia é um transtorno alimentar caracterizado por um desejo exagerado de emagrecer ou temor de ganhar peso. Mesmo que a pessoa esteja abaixo ou no peso ideal, ela toma atitudes como dietas rígidas de restrições alimentares extremas ou uso descontrolado de medicamentos para poder se sentir magra. Já a bulimia é um transtorno alimentar caracterizado por um ciclo no qual a pessoa ingere alimentos e depois força o vômito ou utiliza outros métodos para eliminar imediatamente a comida. Existem também bulímicos que passam períodos extensos em jejum. Nos dois casos, há o temor de ganhar peso”, esclarece.

    O apoio da família e dos amigos é fundamental para ajudar quem sofre desses distúrbios

    Se não tratadas, esses transtornos podem resultar em consequências graves. No caso da anorexia, o corpo perde nutrientes e há um desequilíbrio entre seus componentes sanguíneos, alerta a especialista. “As consequências são muito doloridas, afinal, a anoréxica pode ficar anêmica, desnutrida, infértil, ter convulsões e há ainda redução dos glóbulos brancos”.

    No caso da bulimia, os prejuízos envolvem problemas no ciclo menstrual, distúrbios do sono, desenvolvimento de diabetes, desidratação, esofagite e complicações dentárias graves devido aos vômitos frequentes. “Também é possível observar quadros de depressão. Existe também um aumento do risco de tentativa de suicídio em ambos os distúrbios”, acrescenta.

    Como identificar

    De acordo com Cíntia Lima, os sintomas da bulimia são difíceis de identificar porque o paciente tem um peso geralmente adequado e um comportamento social normal. “No entanto, alguns dos sinais são o de forçar o vômito, usar regularmente laxantes e diuréticos, comer escondido grandes quantidades de alimentos, sentimentos de angústia e de culpa após comer em excesso, dores abdominais e inflamações no sistema gastrointestinal frequentes”.

    Os sintomas da bulimia são difíceis de identificar

    Já os anoréxicos têm uma imagem corporal muito distorcida. “Geralmente, essas pessoas são muito focadas no peso ou na forma do corpo e se recusam a admitir a gravidade da perda de peso”, orienta.

    Tratamento

    O apoio da família e dos amigos é fundamental para ajudar quem sofre desses distúrbios. Os avanços vão depender do próprio paciente. “O primeiro passo para que haja um tratamento eficaz é, quando identificados os sintomas, procurar um médico para fazer o diagnóstico. É importante que a pessoa com anorexia ou bulimia queira se tratar e entenda que o bom resultado do tratamento dependerá principalmente dela: de sua força de vontade, compreensão e colaboração com os profissionais que estiverem cuidando de sua melhora física e psicológica”, ressalta Lima.

    O tratamento terapêutico é multiprofissional. “Esse trabalho é feito através de ações psicoterápicas (individuais, familiares ou em grupo), frequentemente com terapias cognitivas e comportamentais. O psiquiatra também pode receitar o uso de antidepressivos que tratem a dimensão compulsiva do distúrbio na bulimia. Também é necessária uma ação nutricional sobre o paciente, com adaptaçãodo regime alimentar”.

    Ajuda da psicanálise

    O psicanalista e analista psicossocial Henrique Silva explica que a ênfase da psicanálise nesse sentido é nas relações primordiais, isto é, no ambiente familiar inicial, que tiveram forte influência sobre a imagem que a criança construiu de si mesma.

    Os "padrões" de beleza acorrentam as pessoas

    “O que vemos, no consultório, muitas vezes, é uma luta desesperada da anoréxica e da bulímica por algum ‘reconhecimento’, especialmente com a mãe. Mas, isso não aparece tão rápido e nem tão facilmente no discurso da paciente, é fruto da própria análise ao longo dos encontros. É aí que a psicanálise tenta chegar, ou seja, nos conteúdos mais subjetivos e inconscientes e que ficam escondidos sob a aparência de um corpo que se desfaz ou que engorda e vomita. Não se trata de um mero ‘distúrbio alimentar’, mas de um distúrbio que atingiu seriamente a constituição da identidade do indivíduo, a ponto de jogá-lo na ‘culpa’, na autodepreciação e até na morte”, relata
    o especialista.

    “A clínica psicanalítica, então, tem que romper o silêncio dessa dor emudecida e lhe dar algum sentido, fazendo com que o vazio adquira um contorno e a criança, o adolescente ou adulto possam readquirir alguma esperança na vida”,
    completa Silva.

    Ainda segundo o psicanalista, o tratamento de distúrbios alimentares, como a anorexia e a bulimia, devem ser realizados por equipes interdisciplinares, pois trazem implicações severas de diversos aspectos do indivíduo.

    Kássio Nunes

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