Pandemia


O que sentem bebês infectados com o coronavírus? Médica explica

Médica que atua no Hospital João Lúcio contou com detalhes como a Covid-19 afeta o sistema imunológico dos bebês. Ela afirmou também que crianças mais novas têm uma "arma extra" contra a doença. Confira!

Bebês estão entre infectados e vítimas da Covid-19 em todo o mundo | Foto: Agência Brasil

Manaus - Desde o início da pandemia, muito se falou sobre como a Covid-19 atingia idosos e pessoas com doenças pré-existentes. Crianças e principalmente bebês ficaram, por muitos meses, de fora do grupo de risco. Mas novos dados apontam que essa faixa etária também está suscetível ao novo coronavírus, inclusive com possibilidade de morrer por complicações geradas pelo patógeno. 

Um exemplo é o último boletim epidemiológico semanal da Fundação de Vigilância em Saúde do Amazonas (FVS-AM). De acordo com o documento, até o dia 30 de junho havia 69.022 infectados no Amazonas. Destes, 4.417 eram crianças com menos de dez anos. 

O mesmo se repete ao olhar para as mortes causadas pela doença até 30 de junho. O boletim informa que, de 2.772 óbitos registrados, pelo menos 16 eram de crianças com menos de dez anos. 

Médicos e enfermeiros entrevistados pelo EM TEMPO relataram que tem se tornado cada vez mais comum crianças internadas com síndromes gripais, seja pelo novo coronavírus ou outras doenças que costumam aparecer durante esta época do ano, em Manaus. 

Uma das profissionais que comenta a realidade é Ana Galdina, médica infectologista no Hospital João Lúcio, que atua na linha de frente com pacientes da Covid-19. Ela explica que, com o aumento de testagens em crianças, consequentemente tem havido maior diagnóstico nessa faixa etária.

Médica conta experiências que assiste diariamente em seu trabalho
Médica conta experiências que assiste diariamente em seu trabalho | Foto: Reprodução

"A pergunta que a gente não tem como responder agora é a seguinte: esse diagnóstico aumentou só agora ou se mostrou alto porque passamos a testar mais as crianças? Temos essa dúvida, principalmente porque lá no início da pandemia, o público foco das testagens eram os idosos e doentes crônicos", afirma a profissional.

Do bebê assintomático ao grave

A médica cita os principais sintomas que ocorrem em crianças e bebês que se infectam com a doença. Galdina ressalta que o sistema imunológico dessa faixa etária é diferente do de um adulto, o que faz mudar tudo.

"Muitas vezes a criança é assintomática ou ela tem sintomas bem específicos. Por exemplo, ela pode ter um quadro febril sem maiores complicações ou quadro diarreico. Inclusive, temos visto esse sintoma da diarreia na Covid-19, mas muito mais associada a crianças", afirma a infectologista.

Bebês demonstram menos sintomas da Covid-19
Bebês demonstram menos sintomas da Covid-19 | Foto: Agência Brasil

Embora ela ressalte que a maior parte das crianças pode ter um quadro assintomático, ainda pode ocorrer de doentes nessa faixa etária evoluírem para casos graves.

O mesmo boletim da FVS-AM mencionado no início desta matéria também tem dados sobre esses casos. Segundo o documento, de 6.359 casos graves da doença registrados até 30 de junho, 426 ocorreram em crianças com menos de dez anos.

"Temos bebês internados no hospital em estado grave por complicações da doença. O que acontece é que algumas dessas crianças, principalmente as desnutridas ou sem dieta adequada, podem sofrer mais com os quadros de diarreia e febre", explica a médica.

Ana Gadina atua na linha de frente da batalha contra o novo coronavírus
Ana Gadina atua na linha de frente da batalha contra o novo coronavírus | Foto: Reprodução

Ela diz que os bebês desnutridos sofrem mais com a diarreia porque ficam muito desidratados e isso gera maiores complicações. O mesmo com a febre, já que, segundo Galdina, as crianças com níveis febris altos acabam convulsionando.

"Eles desidratam rápido, não conseguem se alimentar e tem distúrbio hidroeletrolítico, que é quando falta glicose, sódio e/ou potássio, dentre outros eletrólitos do corpo. Isso mexe muito com eles, que já são muito sensíveis a qualquer mudanças bruscas", comenta a especialista.

Atenção especial a crianças com deficiência

Ana Galdina ressalta o cuidado com crianças que tenham alguma categoria de deficiência. Segundo ela, esses bebês estão mais sujeitos a complicações mais graves da Covid-19, em especial as crianças cardiopatas, com síndrome de Down ou com algum tumor. 

"Assim como adultos com doenças pré-existentes costumam desenvolver quadros mais graves da Covid-19, crianças com comorbidades também enfrentam o mesmo problema. Por isso, é importante redobrar a atenção", aconselha a profissional. 

O ponto extra dos bebês contra o coronavírus

Embora todas essas informações sobre a Covid-19 em bebês possam parecer assustadoras, Ana Galdino acrescenta outro detalhe importante, esse tranquilizador. Segundo ela, crianças mais novas têm um ponto extra contra o coronavírus.

Sistema imunológico dos bebês é barreira para Covid-19
Sistema imunológico dos bebês é barreira para Covid-19 | Foto: Agência Brasil

"Para explicar isso, precisamos entender que a Covid-19 atua em duas fases. Primeiro o vírus entra e se multiplica no corpo. Em seguida, começam as complicações clínicas, o aparecimento de sintomas como inflamação no pulmão, o que causa insuficiência respiratória", conta a médica.

No entanto, segundo ela, essas fases do coronavírus acabam encontrando uma barreira natural em bebês. "Para eu ter essas complicações inflamatórias, eu preciso ter o sistema imunológico maduro, ou pelo menos um pouco mais maturado, o que não acontece com os bebês. O sistema deles é muito mais 'verdinho', o que faz com que o vírus tenha muita dificuldade para causar grandes problemas inflamatórios nas crianças mais novas", elucida a especialista.

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