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    Centenário e desassistido, bairro Puraquequara pede socorro

    Puraquequara1

    Com pouco mais de 100 anos de existência, o Puraquequara, Zona Leste, sofre com a ausência do poder público, o que faz com que a população não tenha infraestrutura, saneamento básico, saúde, educação e outros mecanismos essenciais ao exercício da cidadania.

    Surgido na primeira década do século 20, quando 23 famílias ribeirinhas se instalaram nas margens do rio, moradores ligados à pesca, ao corte de madeira e à agricultura já sofriam com a falta de itens básicos e atualmente essas necessidades são ainda mais latentes.

    De acordo com o censo hidrográfico de 2010, vivem hoje no Puraquequara 5.800 habitantes. Deste número, a população é distribuída entre cerca de 3.000 homens e 2.800 mulheres, divididos entre crianças, jovens e idosos.

    Grande parte da população do bairro (61,6%) está na faixa etária entre 15 e 65 anos. Crianças de 0 a 4 anos são 11,8% dos habitantes; de 0 a 14 anos equivale a 34,9%, e 3,5 % são de habitantes com mais de 54 anos.

    E embora tenha uma população residente razoável, o bairro tem ruas esburacadas, inexistência de saneamento básico, de educação de qualidade e de atenção à saúde.

    Já na rua Antônio Lisboa, uma das principais do bairro, as águas do esgoto são despejadas no rio Amazonas sem processo de tratamento. O local é o mesmo onde as embarcações dos pescadores ficam atracadas.

    Conforme moradores mais antigos, a margem era usada no passado como balneário e atração turística, porém com o passar do tempo as águas ficaram poluídas pelo esgoto e pelo lixo despejados no rio.

    Moradores dizem que bairro surgiu à margem do rio e que hoje essa área é inutilizada por conta da poluição e do lixo
    Moradores dizem que bairro surgiu à margem do rio e que hoje essa área é inutilizada por conta da poluição e do lixo

    Em cada esquina é possível encontrar lixo de todos os tipos, desde carcaças de fogões e geladeiras velhas, até papéis de santinhos de candidatos jogados no chão.

    Segundo a dona de casa Maria Pereira Pontes, 47, que em 1978 se mudou do Mato Grosso para Manaus, o bairro só é lembrado em período eleitoral.
    Maria também se queixou da falta de segurança no bairro. “No nosso bairro são frequentes os assaltos, a marginalidade e o tráfico de droga”, desabafou.

    Atenção básica

    O hospital pronto-socorro mais próximo é o João Lúcio, no São José. O bairro possui apenas uma Unidade Básica de Saúde, a doutor Platão Araújo, que não consegue suprir a demanda dos moradores.

    Maria levou a equipe do EM TEMPO para constatar os problemas de saúde de uma vizinha, que há três meses sofria com um câncer de estômago.

    Moradora da rua 5, a dona de casa Maria Elena, 48, não conseguiu mais esperar pela remoção em ambulância e, devido a complicações da doença, morreu, durante a visita da equipe de reportagem.

    A família aguardava, revoltada, há horas que uma ambulância do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) removesse a paciente para uma unidade de saúde.

    “Nossa maior revolta é saber que moramos na mesma rua em que foi construída uma unidade do Samu, mas ela está completamente abandonada”, lamentou o filho de Maria, Waldecir de Oliveira, 25.

    Durante a visita da reportagem do EM TEMPO, uma das moradoras doente morreu agonizando, sem que ambulância do Samu chegasse em socorro
    Durante a visita da reportagem do EM TEMPO, uma das moradoras doente morreu agonizando, sem que ambulância do Samu chegasse em socorro

    Na Unidade Básica de Saúde (UBS), funcionários que não quiseram se identificar, relataram mais problemas. Um deles é a qualidade da água fornecida à população.

    Segundo eles, um surto de diarreia, ocorrido nos últimos dias no bairro, fez com que após realização de exames laboratoriais fosse constatada grande concentração de coliformes fecais na água.

    Moradores também denunciaram problemas na Escola Municipal São Sebastião, que atende jovens e crianças do bairro. Uma dona de casa, que não quis se identificar, contou que a escola parou de oferecer o lanche dos alunos e há anos o prédio passa por problemas com a fossa.

    “A grande dificuldade de professores e alunos que moram nos ramais é a locomoção. Não temos ônibus suficientes para atender a necessidade do bairro e a péssima qualidade dos ramais faz com que os motoristas se recusem a entrar para buscar os alunos”, contou uma professora, que também não quis se identificar.

    O bairro é atendido apenas pelas linhas de ônibus 619 e 086. A professora informou que o ônibus demora, em média, duas horas para passar.

    Poder público

    Sobre os problemas dos buracos nas ruas, a Secretaria Municipal de Infraestrutura (Seminf) informou que executou serviços de asfalto em algumas ruas do bairro. Para o local, há uma nova programação de serviços de tapa-buracos a ser realizado nos próximos dias.

    A Secretaria Municipal de Saúde (Semsa) informou que a Unidade Básica de Saúde (UBS) doutor Platão Araújo funciona de acordo com a estratégia Saúde da Família, do Ministério da Saúde, com o atendimento de 3.500 pessoas, de segunda a sexta, das 07h30 às 17h, ofertando consultas médicas e de enfermagem em atenção primária em saúde, serviço odontológico básico, curativo, nebulização, vacinação, posto de coleta itinerante, além da administração de medicamentos.

    A secretaria disse que está prevista reforma para esta unidade, com o objetivo de aprimorar o serviço prestado.

    Também está no planejamento a contratação de dois médicos aprovados no último concurso público, realizado em 2012, sendo um pediatra e um ginecologista.

    Logo à entrada do bairro é possível ver lixo e sucata despejados em via pública; coleta de lixo é deficiente no Puraquequara
    Logo à entrada do bairro é possível ver lixo e sucata despejados em via pública; coleta de lixo é deficiente no Puraquequara

    Sobre a base do Samu, a Secretaria informou que ela está 100% concluída. A data da inauguração, porém, só será marcada depois da conclusão do processo licitatório para a aquisição de equipamentos.

    Em relação às queixas referentes à Escola Municipal São Sebastião, a Secretaria Municipal de Educação (Semed) informou que unidade está servindo merenda diariamente e que apenas alguns itens deixaram de ser distribuídos.

    A Semed ressaltou o trabalho logístico necessário para o abastecimento das mais de 500 escolas da rede, já que até 40 escolas são reabastecidas por dia. Quanto à fossa de esgoto, a secretaria informou que o setor de engenharia irá até a unidade averiguar e tomará as providências cabíveis.

    Sobre a questão da luz, até o fechamento desta edição a empresa Eletrobrás Amazonas Energia foi procurada, mas não se pronunciou. A Secretaria Municipal de Limpeza Urbana (Semusp) também não deu explicações sobre o acúmulo de lixo nas ruas e a falta limpeza do bairro.

    Por Isabelle Valois (Jornal EM TEMPO)