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    Casos de mãe precoce apresentam leve diminuição, no AM

    Chegada inesperada de uma criança faz com que jovens se deparem com uma nova realidade - foto: Ione Moreno
    Chegada inesperada de uma criança faz com que jovens se deparem com uma nova realidade - foto: Ione Moreno

    No auge das brincadeiras infantis, 627 adolescentes, de 10 a 15 anos, deram à luz no Amazonas no primeiro semestre deste ano, conforme os dados da Fundação de Vigilância em Saúde (FVS). O número é inferior ao registrado no mesmo período do ano passado – 695. São meninas mães que, na maioria dos casos, não estavam preparadas para a missão mais importante na vida de uma mulher.

    “É um sofrimento. Primeiramente, não era o que elas esperavam. Nós tivemos um caso onde a adolescente veio para cá após a maternidade e ela teve depressão pós-parto. Foi um sofrimento muito grande. Graças a Deus, ela teve um parto normal, porque ela mesma se agredia, se espancava e dizia que ela queria matar aquela criança que estava dentro dela”, relata irmã Iran Nascimento, coordenadora da Casa Mamãe Margarida.

    De acordo com ela, foi necessário deixar a jovem distante do filho por um bom período, até que o processo de aceitação obtivesse resultado. Um dos trabalhos realizado pela instituição é exatamente esse: orientar a mãe a como lidar com aquela vida que agora está em suas mãos. “Elas também rejeitam (ajuda) de imediato. Não querem (o filho), mas tiveram e terão de aprender a acolher”, observa.

    Algumas, porém, apesar da pouca idade, adotam uma postura mais madura. Casos raros, segundo a irmã Iran. Ela ressalta que, além da pouca idade, muitas meninas abdicam de parte da infância e dos estudos para cuidar do filho. E é esse momento de transição o mais difícil após as adolescentes se tornarem mãe.

    “Tem horas que elas se veem como mães e assumem a responsabilidade. Tem aquele momento também, em que elas querem viver de forma mais livre. E aí você tem que dizer: ‘olha, você já é mãe, tem de ter uma postura diferente’. Mas, querendo ou não, tem a infância, que às vezes foi sonegada, que ela não viveu e quer retomar. Tinha uma de 13 anos aqui, que quando conseguia entregar a criança para alguém, só queria saber de brincar”, cita a coordenadora da Casa Mamãe Margarida.

    Descaso familiar

    A história de uma jovem de 15 anos, moradora do bairro Novo Aleixo, Zona Norte da capital, ilustra a de centenas de adolescentes amazonenses que tiveram a experiência de ser mãe precocemente. Seduzida pelo vizinho 17 anos mais velho, ela não resistiu às investidas e, escondida dos pais, se relacionou com o rapaz. Resultado: gravidez indesejada, para o desespero da família da garota.

    “Ele ficava botando as coisas na cabeça dela, oferecia presentes. A família não sabia de nada. O pai não sabia o que fazer quando nos procurou. Encaminhamos para a Defensoria Pública e antes mesmo da criança nascer ele começou a pagar pensão. O próprio vizinho se comprometeu a ajudar. Depois, ela abandonou os estudos, mas agora já voltou a frequentar as aulas”, conta o coordenador do Conselho Tutelar da Zona Leste I, Johnny Menezes.

    Segundo ele, os fatores para o elevado número de “mães meninas” são os mais diversos. A falta de conversa com os pais e a influência da televisão são apenas alguns. Como passam muito tempo sozinhas em casa – já que na maioria das vezes os responsáveis saem de casa antes mesmo de o sol raiar e só voltam ao anoitecer -, ficam vulneráveis e acabam cedendo quando um homem tenta tirar proveito da situação.

    “Falta diálogo entre pais e filhos. Hoje, os adolescentes acreditam mais nas conversas dos colegas de rua do que nos conselhos dos pais. A maioria dos pais sai 5h e muitos jovens ficam em casa sozinhos, aí acontece esse tipo de caso”, explica Menezes, que afirma ser comum casos de gravidez precoce na zona em que atua.

    Por André Tobias