A discussão sobre as mudanças climáticas deixou de ser um tema restrito aos ambientalistas. Hoje, ela ocupa as mesas dos ministros da Fazenda, dos presidentes de bancos centrais, dos grandes investidores e das principais organizações multilaterais do planeta.
A razão é óbvia, já que a crise climática tornou-se uma das maiores ameaças ao crescimento econômico mundial.
Um estudo elaborado pelo Grantham Research Institute on Climate Change and the Environment, da London School of Economics, em parceria com a Coalizão de Ministros das Finanças para a Ação Climática, estima que, até 2050, as mudanças climáticas poderão reduzir o Produto Interno Bruto per capita global entre 3% e 15%, dependendo da intensidade do aquecimento do planeta.
O Banco Mundial também alerta que os eventos climáticos extremos já representam um dos maiores fatores de pressão sobre as finanças públicas, a infraestrutura, a segurança alimentar e o desenvolvimento econômico, especialmente em regiões vulneráveis.
Para o Amazonas, esse debate ganha uma dimensão ainda mais dramática.
Nenhum outro estado brasileiro depende tanto da água para manter sua economia funcionando.
Rios que transportam tudo
Enquanto em outras regiões as rodovias e ferrovias sustentam a circulação de mercadorias, no Amazonas são os rios que exercem essa função. Eles transportam alimentos, combustíveis, medicamentos, equipamentos hospitalares, materiais de construção, insumos industriais e praticamente toda a produção destinada ao restante do país.
Quando os rios funcionam, a economia avança. Quando os rios secam, toda a engrenagem começa a perder força.
Foi isso que ocorreu durante a seca histórica de 2023. O Rio Negro atingiu o menor nível registrado em mais de um século de medições, enquanto diversos rios amazônicos alcançaram cotas excepcionalmente baixas, comprometendo a navegação e o abastecimento de centenas de comunidades.
Estudos baseados em imagens de satélite mostraram uma redução expressiva da superfície de água na bacia do Rio Negro durante aquele evento extremo.
A experiência serviu como um alerta. Se um novo super El Niño atingir a Amazônia com intensidade semelhante ou superior, os impactos poderão ser muito maiores.
A Zona Franca de Manaus será uma das primeiras atingidas. Segundo a Suframa, o Polo Industrial de Manaus responde por centenas de milhares de empregos diretos e indiretos e movimenta dezenas de bilhões de reais por ano.
Grande parte das matérias-primas utilizadas pelas indústrias chega pelo sistema hidroviário amazônico. Quando a navegação é interrompida ou limitada pela vazante dos rios, navios reduzem carga, aumentam o tempo de viagem ou deixam de alcançar Manaus, comprometendo o abastecimento das fábricas.
O resultado é imediato. Linhas de produção podem ser interrompidas por falta de componentes. Empresas são obrigadas a aumentar estoques. Os custos financeiros crescem. O frete dispara.
Em situações extremas, parte da produção precisa ser transportada por via aérea, elevando significativamente os custos logísticos e reduzindo a competitividade da indústria instalada na Amazônia.

Alerta da CNI
A Confederação Nacional da Indústria tem chamado atenção para a necessidade de ampliar a resiliência da infraestrutura logística brasileira diante dos eventos climáticos extremos.
Para uma economia como a amazonense, cuja principal plataforma industrial depende quase exclusivamente da navegação, essa preocupação torna-se ainda mais relevante.
Os prejuízos não param na indústria. Eles se espalham rapidamente por toda a economia. O comércio paga mais caro pelo transporte. Os alimentos chegam com atraso. Os combustíveis sofrem reajustes. O gás de cozinha fica mais caro e os medicamentos demoram a alcançar o interior.
Os hospitais também passam a enfrentar dificuldades de abastecimento. Escolas podem sofrer com problemas na distribuição da merenda. Comunidades inteiras ficam isoladas durante semanas. A agricultura familiar perde produção. A pesca artesanal diminui e o turismo de natureza registra cancelamentos.
A arrecadação estadual tende a desacelerar quando cresce a demanda por investimentos públicos. É um efeito em cascata.
O grande desafio
Os órgãos brasileiros de monitoramento climático já demonstraram, em eventos recentes, a importância de acompanhar permanentemente a evolução dos rios amazônicos.
A Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA), o Serviço Geológico do Brasil (SGB) e o Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) mantêm sistemas de monitoramento hidrológico que permitem identificar, praticamente em tempo real, a evolução das secas, das cheias e dos riscos associados aos eventos extremos, oferecendo informações essenciais para o planejamento das ações governamentais.
O grande desafio é transformar informação em política pública. A adaptação climática deixou de ser uma agenda ambiental. Ela passou a integrar a agenda econômica.
Os próprios pesquisadores da London School of Economics apontam que cada dólar investido em adaptação pode gerar benefícios econômicos várias vezes superiores ao investimento inicial, principalmente em infraestrutura resiliente, sistemas de alerta precoce e planejamento preventivo. O Amazonas precisa incorporar essa lógica.
Será necessário acelerar investimentos em dragagem estratégica dos principais corredores hidroviários, modernizar portos, ampliar estruturas de armazenagem, fortalecer sistemas permanentes de monitoramento hidrológico, desenvolver planos logísticos alternativos para períodos de seca extrema e ampliar a integração entre União, Estado, municípios e setor privado.
Também será indispensável fortalecer a pesquisa científica sobre clima, hidrologia e logística amazônica, além de estimular soluções tecnológicas capazes de reduzir a vulnerabilidade da Zona Franca diante das mudanças climáticas.

Acabar com a vulnerabilidade
Não se trata apenas de proteger a floresta. Trata-se de proteger empregos. Proteger empresas, a arrecadação pública e milhões de brasileiros que dependem direta ou indiretamente da economia amazonense.
A maior riqueza da Amazônia sempre foram seus rios, mas a crise climática transformou essa riqueza em uma vulnerabilidade estratégica.
Os estudos internacionais deixam claro que eventos extremos tendem a se tornar mais frequentes e mais intensos nas próximas décadas.
Diante dessa realidade, a pergunta já não é se o próximo grande evento climático acontecerá.
A pergunta é se o Amazonas aprenderá as lições da seca de 2023 e estará preparado para enfrentar a próxima grande crise.
É que, na Amazônia, quando o rio para, a economia também para. Isso é tácito.
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