Neste 5 de setembro, Dia da Amazônia, cinco profissionais de áreas distintas de Manaus dividem suas visões sobre o que significa desenvolver a região sem abrir mão de sua maior riqueza: a preservação da floresta. Advocacia tributária, bioeconomia, energia limpa, educação e jornalismo especializado em ESG se cruzam em um mesmo diagnóstico: a Amazônia não precisa escolher entre economia e preservação, precisa de um modelo próprio de desenvolvimento, pensado a partir de quem vive na região, e não imposto de fora para dentro.

Para a advogada Camila David, especializada em direito tributário com foco em projetos da Zona Franca de Manaus, reduzir a ZFM a um simples polo industrial é ignorar sua função social e ambiental. Ela vê no modelo uma política de preservação disfarçada de política industrial, já que os incentivos fiscais funcionam, em sua opinião, como parte de uma política pública maior, que busca desenvolver a região preservando suas características ambientais.

Essa lógica, de acordo com ela, aparece na sua rotina profissional de forma concreta. Quando analisa uma questão tributária para um cliente, Camila diz que raramente está lidando apenas com números e economia de custos, já que por trás de cada decisão fiscal está a permanência de uma empresa formal na região e a manutenção de empregos. “Ao criar oportunidades de emprego e renda dentro da região, ela contribui para que o desenvolvimento econômico aconteça sem depender exclusivamente de atividades que pressionam a floresta. Como advogada tributarista, vejo os incentivos fiscais da ZFM justamente como instrumentos de uma política pública maior, que busca desenvolver a região”, analisa.

Advogada Camila David

Para ela, o maior desafio hoje é transformar a sustentabilidade em uma estratégia de desenvolvimento de longo prazo, e não apenas em uma obrigação, o que passa por um trabalho de segurança jurídica e regras tributárias estáveis. “A Zona Franca pode ser uma das maiores demonstrações de que desenvolvimento econômico e preservação podem caminhar juntos, e fortalecê-la com previsibilidade jurídica é, também, fortalecer uma alternativa real de desenvolvimento para a Amazônia”, diz.

Bioeconomia: valor econômico a partir da floresta viva

À frente da Made In Amazon, plataforma de e-commerce voltada à bioeconomia, a empresária Pamela Mota Oliveira parte de uma premissa que resume o espírito do seu negócio: quanto mais valor a floresta viva conseguir gerar, mais razões existem para mantê-la em pé. Na prática, isso significa conectar artesãos e produtores amazônicos ao mercado, valorizando produtos que carregam identidade, conhecimento tradicional, criatividade e matérias-primas da nossa região. “O Dia da Amazônia precisa ser mais do que uma data de conscientização. Para quem vive e empreende aqui, ele representa uma oportunidade de chamar atenção para uma Amazônia que produz, cria, inova e gera renda”, comenta.

Pamela ressalta que o caminho não é retirar mais da floresta, mas agregar mais valor ao que ela já pode oferecer de forma sustentável. Segundo ela, uma semente, uma fibra ou uma madeira reaproveitada podem se transformar em uma peça de decoração assim que passam pelas mãos de um artesão e recebem design, identidade e acesso ao mercado. “O grande desafio é estruturar essa cadeia para que produção, capacitação, design, tecnologia, logística e acesso ao mercado caminhem juntos. Quando conseguimos fazer isso, a floresta deixa de ser apenas um patrimônio ambiental e passa também a ser um ativo econômico de enorme valor”, diz.

Empresária Pamela Mota Oliveira

Ainda assim, reconhece que o setor enfrenta obstáculos estruturais, como logística cara e dificuldade de produção em escala, barreiras que pesam mais sobre pequenos produtores. Por isso, defende que a bioeconomia amazônica só vai se consolidar se for construída em rede, aproximando comunidades, empreendedores, universidades, poder público, iniciativa privada e mercado. “Precisamos superar a ideia de que desenvolver a Amazônia significa escolher entre preservar ou produzir. O futuro está justamente em conseguir fazer as duas coisas caminharem juntas”, diz.

Energia limpa: a Amazônia como protagonista da sua própria transição

Para Helane Souza, presidente da Amerenováveis (Associação Amazonense de Energias Renováveis) e recém-empossada diretora estadual da Associação Brasileira de Energia Solar Fotovoltaica (Absolar) no Amazonas, essa data vai muito além de uma celebração simbólica. “O Dia da Amazônia é muito mais que uma celebração, é um chamado à ação”, afirma a presidente, ao lembrar que a floresta é “o coração climático do mundo”, mas também precisa ser “o motor do seu próprio desenvolvimento sustentável e limpo”. Segundo ela, a associação atuou ao longo do ano como uma ponte entre sociedade, empresas e poder público, marcando presença em debates para mostrar que a energia solar “não é um luxo distante, é o presente”.

Helane defende que chegou a hora de a Amazônia parar de importar soluções prontas de outras regiões e passar a protagonizar sua própria transição energética. “A Amazônia precisa parar de apenas importar soluções e começar a ser protagonista do seu potencial verde. O papel das energias renováveis na nossa região é muito prático e urgente: precisamos substituir o uso de combustíveis caros e poluentes por fontes limpas, dando infraestrutura de qualidade para quem vive aqui. Valorizar nossos recursos naturais não significa deixar tudo intocável, mas sim usar a tecnologia com inteligência. A verdadeira resposta às mudanças climáticas acontece quando o consumidor amazonense passa a ter acesso a uma energia sustentável, protegendo a floresta e o seu próprio bolso ao mesmo tempo”, analisa.

Helane Souza, presidente da Amerenováveis (Associação Amazonense de Energias Renováveis) e recém-empossada diretora estadual da ABsolar.

A presidente enfatiza a importância e a necessidade da participação do poder público, principalmente quando o assunto chega à regulação estadual. Ela classifica a criação de uma agência de regulação de energia no Amazonas como “o ponto mais crítico e urgente neste momento”. “O Amazonas tem um potencial energético gigante, mas não pode mais esperar. A criação de uma Agência de Regulação Estadual é a peça que falta para destravar investimentos e, principalmente, atuar como um ‘escudo’ de proteção e segurança jurídica para o consumidor final”, conclui.

Educação: pertencimento desde a infância

Diretora geral no Centro Educacional Pingo de Gente e Laviniense, Neila Fernandes descreve um trabalho que não se resume a datas comemorativas. Segundo ela, a identidade amazônica é construída no cotidiano escolar, por meio de projetos, pesquisas e visitas técnicas que aproximam os alunos da biodiversidade, dos povos originários e dos desafios socioambientais da região. “Mais do que ensinar sobre a Amazônia, a proposta é fazer com que a criança ‘se reconheça como parte dela’, compreenda, desde cedo, que também é responsável por seu cuidado”, destaca.

Para Neila, formar essa consciência apenas em torno do 5 de setembro seria reduzir a Amazônia a “um conteúdo relacionado ao folclore ou a uma comemoração específica”. Por isso, defende que o tema precisa atravessar o ano letivo inteiro, em suas dimensões cultural, científica, social, ambiental e econômica. “Os resultados aparecem em pequenas mudanças de comportamento, como a redução do uso de materiais descartáveis e a adoção de garrafas e copos reutilizáveis pelos próprios alunos, mas também em experiências mais profundas, como as visitas ao Museu da Amazônia e à Comunidade Indígena Beija-Flor, por exemplo, que ajudam a ‘desconstruir estereótipos’, despertando curiosidade, respeito e valorização da cultura”, assinala.

Diretora geral no Centro Educacional Pingo de Gente e Laviniense, Neila Fernandes

Para ela, o papel da escola vai além de ensinar conteúdo, é transformar “o conhecimento em pertencimento, e o pertencimento em cuidado”. “Essa data também nos ajuda a fortalecer o sentimento de pertencimento. Em uma região tão rica e diversa, é fundamental que nossas crianças e jovens conheçam, valorizem e tenham orgulho de sua identidade amazônica, compreendendo que fazem parte de um território de importância não apenas regional, mas global. Por isso, o Dia da Amazônia não representa o início ou o fim desse trabalho. Ele é um marco dentro de uma construção permanente, que acontece nas salas de aula”, reforça.

Jornalismo e ESG: mudar quem conta a história

Jornalista, PhD em ESG e apresentadora do Podcast NC Sustentabilidade, do NC News, Loredana Kotinsk reconhece avanços na cobertura sobre a Amazônia, mas aponta um problema que considera estrutural: a região ainda costuma ser narrada a partir de um olhar externo. Segundo ela, essa cobertura tende a reduzir a Amazônia “à floresta, ao desmatamento, às queimadas”, temas relevantes, mas que deixam de fora uma região também “urbana, econômica, tecnológica, industrial e culturalmente diversa”.

Na visão de Loredana, o que muda quando a narrativa é construída por quem vive na região é justamente o lugar de fala. Para ela, o amazônida deixa de ser apenas personagem de uma história contada por outros e passa a ser sujeito, alguém que não só relata os problemas da região, mas também participa da construção de suas soluções. “Ele não está somente contando o problema da Amazônia; ele está produzindo conhecimento e participando da construção das soluções”, enfatiza.

Loredana Kotinsk, jornalista PhD em ESG.

A PhD defende que o Dia da Amazônia deveria servir menos como celebração e mais como provocação sobre “o próprio modelo de desenvolvimento que queremos para a região”. “Quando falamos de ESG, não podemos simplesmente importar modelos construídos para outras realidades e aplicá-los à Amazônia. É preciso compreender as características sociais, econômicas, ambientais e culturais do território. E existe uma mudança de perspectiva que considero fundamental: a natureza não pode ser vista apenas como uma restrição ao desenvolvimento econômico. A floresta, os rios, a biodiversidade e os conhecimentos produzidos na região também podem ser ativos para uma nova economia”, diz, reafirmando que existe uma Amazônia real, complexa, urbana, empreendedora, científica, tecnológica e cheia de contradições. “Se queremos construir uma comunicação verdadeiramente sustentável sobre a Amazônia, precisamos começar por mudar a forma como olhamos para ela”, conclui.

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