Certamente, existem jornalistas que registram o seu tempo e outros que conseguem interpretá-lo, revelá-lo em suas contradições e, sobretudo, transformá-lo em memória. Zuenir Ventura pertence a essa segunda categoria. Sua morte, aos 95 anos, encerra uma trajetória monumental, mas não apaga uma obra que permanecerá entre as mais importantes do jornalismo e da literatura brasileira.
Zuenir foi daqueles profissionais que compreenderam cedo que jornalismo não é apenas contar o que aconteceu. É buscar o sentido dos acontecimentos, ouvir os personagens, mergulhar nos fatos e devolver ao leitor uma compreensão mais ampla da realidade. Fez isso durante décadas, em redações, revistas, jornais, salas de aula e, principalmente, nas páginas que ajudou a transformar em espaço de reflexão sobre o Brasil.
Sua trajetória começou em 1956, como arquivista. A partir dali, construiu uma carreira que o levaria a postos de destaque em alguns dos principais veículos de comunicação do país. Foi editor internacional do Correio da Manhã, diretor de redação de Fatos & Fotos, chefe de reportagem de O Cruzeiro, editor-chefe da sucursal carioca de Visão, além de ocupar funções de comando em Veja, IstoÉ e Jornal do Brasil. Mais tarde, tornou-se um dos nomes mais respeitados do jornalismo brasileiro como colunista de O Globo.
Mas a grandeza de Zuenir não se explica apenas pelos cargos que ocupou. Está, sobretudo, na capacidade de transformar reportagem em narrativa, informação em conhecimento e memória em literatura.
Essa marca encontra uma de suas expressões mais extraordinárias em “1968: O Ano Que Não Terminou”. Ao reconstruir aquele período turbulento da história brasileira, Zuenir não se limitou a organizar fatos. Recuperou o ambiente político e cultural de uma geração, seus sonhos, suas inquietações, seus confrontos e suas esperanças. A Passeata dos Cem Mil, a repressão, a efervescência cultural e os acontecimentos que marcaram aquele ano ganharam, em suas páginas, dimensão histórica e humana.
O livro tornou-se referência porque Zuenir conseguiu fazer algo raro: escrever sobre a história sem retirar dela a vida. Seus personagens não são apenas nomes de um período, mas pessoas inseridas em uma época de profundas transformações. Por isso, sua obra ultrapassou as fronteiras do jornalismo e alcançou a literatura, o cinema e a televisão.
Intelectual de formação humanista, bacharel e licenciado em Letras Neolatinas, professor da UFRJ e da Uerj, Zuenir carregava para o jornalismo uma curiosidade intelectual que jamais o abandonou. Em 2014, essa trajetória foi reconhecida pela Academia Brasileira de Letras, que o elegeu para a Cadeira 32, sucedendo Ariano Suassuna. No ano seguinte, tomou posse, passando a integrar oficialmente a galeria dos grandes escritores brasileiros.
Sem dúvida, aí reside uma das maiores lições de sua trajetória: Zuenir Ventura nunca precisou escolher entre ser jornalista e ser escritor. Foi grande porque soube ser os dois.
Seu texto tinha a precisão de quem apura e a sensibilidade de quem compreende. Sabia que, por trás de uma manchete, existe uma história e que por trás de uma história, existem pessoas, e que além de pessoas, existe um país inteiro tentando se explicar.
Zuenir Ventura deixa uma obra que não termina com sua partida. Jornalistas continuarão aprendendo com suas reportagens. Escritores encontrarão inspiração em sua narrativa. Leitores voltarão às suas páginas para compreender momentos decisivos do Brasil.
Alguns profissionais passam pelo jornalismo. Outros ajudam a construir o próprio jornalismo.
Zuenir Ventura foi um desses gigantes. E o Brasil fica menor sem sua presença, mas infinitamente maior por ter tido a oportunidade de contar com sua inteligência, sua elegância e sua palavra.

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