Francamente, a corrida eleitoral de 2026 revelou mais do que os candidatos pretenderam dizer. Revelou também aquilo que eles preferiram não dizer. Nestas eleições, o silêncio dos presidenciáveis sobre o Amazonas foi absurdamente ensurdecedor.
Dos 13 candidatos ao comando do Palácio do Planalto, apenas três, Flávio Bolsonaro, Augusto Cury e Hertz Dias, cumpriram agendas eleitorais em Manaus no período considerado pelos levantamentos.
Os demais parecem ter descoberto uma curiosa geografia eleitoral: o Brasil começa em Brasília, passa por São Paulo, dá uma volta pelo Nordeste, chega ao Pará e, depois disso, aparentemente desaparece no mapa. Manaus virou uma espécie de cidade invisível.
É preciso reconhecer que Lula esteve no Amazonas em maio, antes do início oficial da campanha, em agenda institucional que incluiu entrega de moradias e anúncios de investimentos. Uma nova visita política prevista para 28 de setembro, porém, foi cancelada.
Mas o problema vai muito além de agenda de campanha. O que incomoda é a sensação de que o Amazonas continua sendo tratado como periferia da periferia do debate nacional.
E isso é particularmente grave porque o Estado não é um detalhe no mapa. É uma das peças centrais das discussões brasileiras sobre Amazônia, meio ambiente, logística, energia, biodiversidade, desenvolvimento regional, comércio exterior, Zona Franca de Manaus e soberania nacional.
Aqui, quando o rio sobe, sobe de verdade. Quando seca, seca de verdade. Quando a floresta sofre, o impacto não fica sobejamente dentro da floresta. Quando a logística quebra, a conta chega ao supermercado, à indústria e ao bolso do cidadão.
Mesmo assim, na campanha presidencial, Manaus parece ter recebido menos atenção do que merece. Talvez alguns candidatos estejam esperando que o Amazonas vá até eles. Seria uma estratégia interessante, faltando combinar com os rios.
Se a ausência dos presidenciáveis causa indignação, os debates entre os candidatos ao Governo do Amazonas também produziram um sentimento incômodo.
Em vários momentos, aquilo que deveria ser uma oportunidade para discutir o futuro do Estado foi reduzido a uma sucessão de provocações pessoais, acusações, respostas atravessadas e disputas que lembravam mais uma briga de beira de igarapé do que uma discussão sobre os destinos de um Estado com dimensões continentais.
Não há problema em haver confronto. Debate eleitoral sem confronto seria apenas entrevista coletiva com plateia. O problema aparece quando a briga ocupa o espaço que deveria pertencer às propostas. E houve momentos em que algumas falas deram a impressão de que certos candidatos confundiam obrigação institucional com promessa de campanha.
Ora, governar não é fazer favor. Cumprir aquilo que a Constituição, as leis e as próprias atribuições do cargo determinam não pode ser vendido ao eleitor como se fosse uma extraordinária invenção administrativa. É o mínimo.
O eleitor amazonense merece mais. Merece saber como cada candidato pretende enfrentar a crise climática, a seca extrema, as grandes enchentes, a precariedade logística, os problemas de saúde no interior, a segurança pública, a educação, o saneamento, a dependência do transporte fluvial e os enormes desafios de levar serviços públicos a municípios separados por centenas de quilômetros de rios e floresta.
Em alguns momentos, ficou a impressão de que certos candidatos precisavam abrir um mapa antes de entrar no estúdio. Quem conhece o Amazonas sabe que Manaus não é o Amazonas. E o Amazonas não termina na capital.
Há comunidades onde o Estado chega de barco. Há municípios onde uma emergência médica pode significar horas ou dias de deslocamento. Há regiões que convivem simultaneamente com enchentes históricas e secas severas.
Isso não é detalhe. É a realidade de um Estado que deveria estar no centro das discussões nacionais. Por isso, fica a pergunta, com toda a ironia que a situação permite: será que o Brasil termina no Pará? O Amazonas existe?

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